Aves canoras tropicais deixam de se reproduzir para sobreviver à seca

Pesquisadores observaram quedas robustas na taxa de reprodução de pássaros da Venezuela e da Malásia

Aves canoras da Venezuela e da Malásia foram analisadas no estudo. Crédito: Pikist

As aves canoras das florestas tropicais reduzem sua taxa de reprodução num esforço para sobreviver aos períodos de seca, segundo um estudo publicado na revista “Nature Climate Change”. Nesse sentido, espécies com maior expectativa de vida conseguiram lidar melhor com essa volatilidade ambiental do que se pensava anteriormente, descobriram os pesquisadores Thomas Martin e James Mouton, da Universidade de Montana (EUA).

O aumento na frequência de períodos de calor recorde em diversas regiões do planeta e a ameaça à biodiversidade representada pelo avanço humano sobre seus habitats levam os cientistas a uma questão importante – se as espécies podem se adaptar a essas condições cada vez mais adversas. As secas em especial, que devem se tornar mais comuns por causa da mudança climática, deixam os pássaros diante de uma difícil escolha entre a reprodução e sua própria sobrevivência. Isso ocorre porque a produção de ovos e a alimentação dos filhotes requerem energia adicional, mesmo quando a comida se torna mais escassa.

Os pesquisadores descobriram que, em vez de tentar conciliar as demandas de novas crias e condições ambientais adversas, a maioria das espécies de aves canoras estudadas optou por reduzir sua reprodução durante a seca.

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Resistência diferente

Martin e Mouton descrevem em seu trabalho estudos demográficos de campo de aves canoros tropicais ao longo de 17 anos na Venezuela e na Malásia, incluindo um ano de seca para cada local. Também apresentam sua modelagem da dinâmica populacional futura em três cenários de mudança climática. Eles descobriram que a reprodução foi reduzida durante a seca em uma média de 36% nas 20 espécies da Malásia e 52% nas 18 espécies da Venezuela.

Para a maioria das espécies de vida longa que reduziram a reprodução, a sobrevivência aumentou em relação aos anos sem secas. Por outro lado, as taxas de sobrevivência diminuíram para espécies que não reduziram a reprodução pelo menos substancialmente, bem como para aquelas que dependem fortemente de habitats úmidos.

Os efeitos negativos da seca sobre o crescimento populacional modelado foram menores para espécies de vida mais longa do que para espécies de vida curta sob as mudanças climáticas.

“Os resultados aqui sugerem que as espécies tropicais de vida mais longa podem ser mais resistentes a pelo menos algumas formas de mudança climática do que se pensa atualmente, embora com uma advertência importante para especialistas em micro-habitats úmidos”, escrevem os autores.

Riscos variados

“As populações de espécies de aves canoras tropicais de vida mais longa podem ser mais capazes de mitigar os efeitos das secas do que se pensava”, afirmou Mouton à agência de notícias AFP a partir dos dados da pesquisa. Mas ele advertiu que a seca é apenas um aspecto da mudança climática que seria uma ameaça potencial para as populações de pássaros, e que estas atuam em função de outros riscos também. Entre eles se destaca a degradação ou fragmentação de habitats.

Em comentário ao estudo também publicado na “Nature Climate Change”, Gonçalo Ferraz, professor do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), disse que a capacidade de adaptação da espécie pode não ser suficiente para garantir sua sobrevivência. Segundo ele, o estudo “oferece uma contribuição estimulante para a compreensão da dinâmica das populações de animais sob estresse ambiental, mas não muda a importância central da disponibilidade de habitat para a sobrevivência das espécies”.

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