Biel Fagundes: Mar doce e amargo

O fotógrafo Biel Fagundes escolheu capturar a beleza do São Francisco para destacar a importância desse rio que era comparado a um mar e está sofrendo uma amarga história de degradação

A divisa entre a cidade de Juazeiro, na Bahia, e Petrolina, em Pernambuco, traçada pelo rio São Francisco, foi o ponto escolhido pelo fotógrafo Biel Fagundes para seu projeto sobre o mais extenso curso d’água integralmente brasileiro e um dos mais maltratados também. “Percorri a região por um mês, a pé, de carro e de barco. Vi o pescador que conduzia o barco tocando o fundo do rio com o remo, no meio do seu leito. A situação é alarmante.” Mas Fagundes preferiu dar um olhar poético ao projeto, intitulado Vale Ouro, em vez de um viés de denúncia. “Quero fazer as pessoas refletirem sobre a importância desse recurso hídrico e dessas paisagens, que não podemos perder”, afirma.

Chamado Opará (“rio-mar” em tupi) pelos índios, o rio ganhou o nome de São Francisco há 515 anos, quando, no dia do santo – 4 de outubro –, Américo Vespúcio se deparou pela primeira vez com ele. “Se não fosse o rio, não sei se aquela região seria habitada. Tudo gira em torno dele: abastecimento das cidades, agricultura, pesca, artesanato e lazer”, resume Fagundes. Mas, cada vez mais, o rio que atravessa 2.800 km, cortando cinco estados – Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas –, vem sofrendo degradações, por conta da perda da mata ciliar, do assoreamento do leito, do despejo de esgoto, da piora na qualidade da argila usada nas figuras de barro típicas da região, além da entrada de água salina por cerca de 15 km acima da foz.

Já a vazão do São Francisco se vê comprometida pelas usinas hidrelétricas de Sobradinho (MG) e Paulo Afonso (PE). Os 1,3 milhão de litros de água por segundo, antes determinados como limite mínimo, foram reduzidos mais 40% para garantir o estoque dos reservatórios, desde o ano passado, durante a maior seca dos últimos tempos vivida na região. E outra ameaça paira ainda sobre o leito do rio: as obras de transposição que preveem desviar suas águas assim que entram na Região Nordeste, por cerca de 700 quilômetros de canais de concreto, para distribuí-las pelo interior de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. Isso pode fazer com que o São Francisco seque de vez.

Diante desse quadro, a ideia do projeto de Fagundes surgiu na mesa de bar – ponto de partida de muitas criações –, ao lado de duas amigas, moradoras da região. A telenovela da Rede Globo Velho Chico, que leva o apelido do rio, foi uma surpresa para o grupo. “Veio na hora certa”, garante ele. Desenvolvido em novembro e dezembro do ano passado, o projeto já estava pronto quando a novela começou. Graças a essa coincidência, seu trabalho e o tema em si ganharam mais divulgação – pelo menos até o final de setembro, quando a produção deve chegar ao seu último capítulo.

O Vale Ouro, entretanto, não foi o primeiro projeto socioambiental do fotógrafo. Fagundes se formou na faculdade de jornalismo em 2011 com um fotodocumentário sobre os cães de rua da cidade de Salvador (BA). Atualmente mais focado em trabalhos audiovisuais, Fagundes prepara um documentário sobre a “guerra de espadas” (prática de usar fogos de artifício em vias públicas e logradouros), forte tradição cultural da sua terra natal, Senhor do Bonfim (BA).

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