Biologia mistura a fronteira entre sexos e comportamentos

Pesquisadores mostram que comportamento masculino pode ser flexível e assumir características femininas de acordo com as condições internas e externas

C. elegans: machos assumem comportamento feminino se necessário. Crédito: NIH/Wikimedia

O sexo biológico é tipicamente entendido em termos binários: masculino e feminino. No entanto, existem muitos exemplos de animais capazes de modificar características biológicas e comportamentais típicas do sexo e até mesmo mudar de sexo. Um novo estudo, publicado na revista “Current Biology”, identifica uma mudança genética nas células cerebrais que podem alternar entre estados específicos do sexo quando necessário. Essas descobertas questionam a ideia do sexo como uma propriedade fixa.

A pesquisa – liderada pelo dr. Douglas Portman, professor associado do Departamento de Genética Biomédica da Universidade de Rochester e do Del Monte Institute for Neuroscience (EUA) – foi feita com Caenorhabditis elegans, uma lombriga microscópica que tem sido usada em laboratórios por décadas para compreender o sistema nervoso. Muitas das descobertas feitas com C. elegans se aplicam a todo o reino animal, e essa pesquisa levou a uma compreensão mais ampla da biologia humana. C. elegans é o único animal cujo sistema nervoso foi completamente mapeado, fornecendo um diagrama de fiação (conectoma) que está ajudando os pesquisadores a entender como os circuitos cerebrais integram informações, tomam decisões e controlam o comportamento.

Existem dois sexos de C. elegans: machos e hermafroditas. Embora os hermafroditas sejam capazes de se autofertilizar, também são parceiros de acasalamento para os machos e são considerados fêmeas modificadas. Um único gene, TRA-1, determina o sexo dessas lombrigas. Se um verme em desenvolvimento tiver dois cromossomos X, esse gene será ativado e o verme se desenvolverá como uma fêmea. Se houver apenas um cromossomo X, o TRA-1 é inativado, fazendo com que o verme se torne um macho.

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Dinamismo e flexibilidade

O novo estudo mostra que o gene TRA-1 não fica completamente silencioso nos machos, como se pensava anteriormente. Em vez disso, pode entrar em ação quando as circunstâncias obrigam os machos a agir mais como fêmeas. Normalmente, os C. elegans machos preferem procurar parceiras a se alimentar, em parte porque não sentem o cheiro da comida tão bem quanto as fêmeas.

Mas se um macho ficar muito tempo sem comer, aumentará sua capacidade de detectar alimento e agirá mais como uma fêmea. A nova pesquisa mostra que o gene TRA-1 é necessário para essa troca e que, sem ela, os machos famintos não podem melhorar seu olfato e ficam presos no modo padrão de insensibilidade à comida e busca de parceira. O TRA-1 faz o mesmo trabalho em machos jovens: ativa a detecção eficiente de alimentos em machos que são muito jovens para procurar parceiros.

“Essas descobertas indicam que, em nível molecular, o sexo não é binário ou estático, mas dinâmico e flexível”, disse Portman. “Os novos resultados sugerem que aspectos do sistema nervoso masculino podem assumir temporariamente um ‘estado’ feminino, permitindo que o comportamento masculino seja flexível de acordo com as condições internas e externas.

Um estudo separado publicado na “Current Biology” por uma equipe de pesquisadores colaboradores da Universidade de Columbia (EUA) descreve mais detalhadamente o complexo mecanismo molecular pelo qual o gene TRA-1 é controlado por cromossomos sexuais e outros sinais.

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