Brasil profundo

Aos 55 anos, completados em abril deste ano, o Parque Indígena do Xingu é resultado complexo da epopeia do indigenismo brasileiro

Uma das aldeias do parque

Em 14 de abril de 1961, o Brasil dava um importante passo para sua preservação socioambiental. Nessa data foi criado o Parque Nacional do Xingu, um “polígono irregular com área aproximada de 22 mil quilômetros quadrados”, reza o documento. A demarcação dessas terras freou o avanço da exploração irresponsável na Amazônia brasileira e garantiu a sobrevivência e a autonomia de povos indígenas circunscritos naquele espaço e em suas vizinhanças.

Do Brasil colônia até meados do século 20, difundia-se a ideia de que o país era uma terra sem dono a ser explorada e conquistada. Seguindo esse mote, as incursões bandeirantes e da Igreja católica ao interior tratavam os índios como seres não civilizados, que deveriam ser dominados, convertidos ou escravizados.

Ao mesmo tempo, havia em muitas dessas expedições interesses científicos. Datam dessa época as primeiras catalogações da fauna e da flora brasileiras e a descoberta de diversos grupos indígenas. Nas primeiras décadas do século 20, o projeto desenvolvimentista mudava lentamente a forma como o Brasil Central era explorado. A intenção do Estado nesse momento era ocupar todo o país para, depois, integrá-lo.

Apesar do avanço irresponsável e da ameaça constante aos territórios e povos indígenas, surgia uma nova mentalidade. “Morrer se preciso for, matar nunca”, lema do marechal Cândido Rondon, anunciava uma visão humanitária da ação militar que culminaria nas políticas indigenistas em um futuro próximo.

Em 1961, o brigadeiro Raimundo Vasconcelos dá certidões a um índio, observado por Jânio Quadros (com as mãos na cintura) e Orlando Villas Bôas (de barba)
Em 1961, o brigadeiro Raimundo Vasconcelos dá certidões a um índio, observado por Jânio Quadros (com as mãos na cintura) e Orlando Villas Bôas (de barba)

Em 1943, Getúlio Vargas criou a Fundação Brasil Central (FBC), cujo objetivo era concluir o projeto de integração nacional, criando bases, abrindo estradas e pistas de pouso que ligassem o Rio de Janeiro – então capital nacional – ao centro do país e a Manaus. Era a Marcha para o Oeste, cuja principal frente de ação era a Expedição Roncador-Xingu. Entre os principais líderes dessa empreitada estavam os irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Bôas, figuras fundamentais no contato com os índios e no desenvolvimento de programas de proteção aos povos xinguanos.

Filhos de um advogado de Santa Cruz do Rio Pardo (SP), os Villas Bôas inicialmente foram recusados na expedição por ter “alto nível de conhecimento” (a preferência era por sertanejos sem cultura, considerados mais trabalhadores). Eles só foram aceitos ao apresentar-se mal vestidos, com barba por fazer e fingindo ser analfabetos. A trapaça funcionou e, em 1945, os irmãos já estavam no comando da Roncador-Xingu.

Para reverter os impactos que a exploração da região trazia aos índios, os Villas Bôas se aproximaram de universidades do Rio de Janeiro e de São Paulo e de líderes progressistas. Essa coalizão defendia a demarcação de uma área exclusiva aos povos nativos, o que esbarrou nos interesses de vários setores econômicos – inclusive os do Estado, dono das terras. Em 1953, começou a tramitar o projeto de lei que criava o Parque do Xingu: uma área de reserva de 20,575 milhões de hectares. Enquanto o projeto empacava, o governo de Mato Grosso loteava seu território, boa parte dele prevista como área indígena.

Essa situação se arrastou até 14 de abril de 1961, quando, no governo de Jânio Quadros, aprovou-se a criação do Parque Nacional do Xingu, com área dez vezes menor do que a prevista de início. Orlando Villas Bôas foi seu primeiro administrador.

Ao longo dos anos, uma série de mudanças redesenhou a reserva. Apenas em 1968, com o decreto federal nº 63.082, os limites do parque foram oficialmente fixados. Três anos depois, outro decreto excluiu a parte norte, território caiapó, cortado pela rodovia BR-80. Em 1984, os caiapós retomaram legalmente a posse dessa terra, denominada agora de Capoto-Jarina.

Em 1967, o parque passou a ser administrado pela Fundação Nacional do Índio (Funai). Em 1978, recebeu oficialmente o nome de Parque Indígena do Xingu. Somente em 1991 ele teve sua demarcação como terra indígena homologada por decreto federal – o primeiro caso do gênero no país.

Em todos estes anos, os índios que ali habitam sofreram com o avanço do Estado e do capital. Mas criaram um espaço de resistência. “Há cerca de 400 anos, um complexo cultural de tribos de falas diferentes se uniu ali e conseguiu criar um clima de paz. Criaram rituais comuns, adaptaram seu mito de origem, criaram casamentos intertribais (gerando poliglotismo), em vez de ficar se matando”, diz o antropólogo Mercio Gomes, ex-presidente da Funai. Para ele, o Parque Indígena do Xingu é “uma epopeia maravilhosa do indigenismo brasileiro”.

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