Buracos no manto de gelo da Groenlândia são maiores do que se pensava

Volume extra de água contida nos buracos pode influenciar a estabilidade do manto de gelo da ilha e a velocidade com que ele desliza rumo ao mar

Covington num moulin: sons ocasionais de gelo se partindo são "enervantes". Crédito: Universidade do Arkansas

Os buracos que carregam a água derretida da superfície até a base do manto de gelo da Groenlândia, chamados de moulins, são muito maiores do que se pensava, de acordo com um novo estudo baseado em observação e exploração em primeira mão por uma equipe internacional de pesquisadores. O volume extra pode influenciar a estabilidade do manto de gelo groenlandês e a velocidade com que ele desliza em direção ao mar. Um artigo sobre esse estudo foi publicado na revista “Geophysical Research Letters”.

A equipe estudou a relação entre o tamanho dos moulins e a variação diária da profundidade da água neles durante a estação de degelo do verão. Os cientistas acreditam que o aumento da profundidade da água e, portanto, da pressão dentro dos moulins lubrifica a base do manto de gelo e aumenta a velocidade de seu movimento em direção ao mar, da mesma forma que um cubo de gelo desliza facilmente em uma fina película de água. Mas até agora, pouco se sabia sobre o tamanho real dos moulins e quanta água eles podem conter.

“Comparamos nossos modelos com observações em campo dos níveis de água e parecia que precisaríamos de volumes realmente enormes dentro dos moulins para produzir as variações de água relativamente menores que estávamos vendo”, disse Matt Covington, professor associado de geociências da Universidade do Arkansas (EUA) e primeiro autor do estudo. “Então, quando voltamos no ano seguinte e exploramos um moulin. Ele era gigante. Foi um caso em que o modelo fez a previsão e saímos a campo e acabou dando certo.”

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Cenário intimidante

A equipe fez duas viagens ao manto de gelo da Groenlândia em outubro de 2018 e outubro de 2019. Durante cada viagem, eles usaram cordas e outros equipamentos de escalada para fazer rapel de 100 metros em dois moulins separados, quase atingindo o nível da água.

“É intimidante”, disse Covington, um experiente explorador de cavernas. “Você volta para a borda e só vê gelo azulado descendo até onde você pode ver, e então é escuridão e também há sons ocasionais de gelo quebrando, o que é bastante enervante.”

Os cientistas observam há muito tempo que o manto de gelo da Groenlândia se move e teorizam que as estações mais quentes do degelo no verão devido à mudança climática podem acelerar esse movimento. Mas os pesquisadores têm poucos dados para ajudá-los a entender a interação entre a água do degelo e a base da camada de gelo. As descobertas da equipe aumentam o conhecimento de como a água interage com a base da camada de gelo.

“Estamos tentando entender como a água do degelo está interagindo com o movimento do gelo, e a principal coisa que descobrimos é que a pressão da água dentro desses moulins não é tão variável quanto foi observado anteriormente, e que isso parece resultar de grandes volumes nos moulins”, disse Covington.

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