Home Blog

Morrer e renascer

Um mito muito difundido sobre o além é constituído pelas ideias e imagens sobre a reencarnação. Num país onde a cultura espiritual é muito diferenciada e muito mais antiga do que a nossa, a Índia, a ideia de reencarnação é natural e explica-se por si só, assim como, para nós, é natural a ideia de que Deus criou o mundo. Os hindus mais cultos sabem que não pensamos como eles, mas isso não os preocupa. Pelas características espirituais do oriental, a sucessão do nascimento e da morte é considerada um processo interminável.

As necessidades míticas do homem ocidental exigem a imagem de um mundo evolucionista, que tem um começo e um objetivo. O ocidental rejeita a imagem de um mundo que tenha um começo e um simples fim, assim como rejeita a representação de um ciclo estático eterno, fechado sobre si mesmo. O oriental, ao contrário, parece tolerar essa ideia.

Para o homem do Ocidente, o absurdo de um universo simplesmente estático é intolerável. É preciso que ele lhe pressuponha um sentido. O homem do Oriente não sente nenhuma necessidade dessa pressuposição, porque ele a encarna. Enquanto o ocidental procura descobrir esse sentido no mundo, o oriental esforça-se por descobri-lo no homem, despojando-se a si mesmo do mundo e da existência (Buda). Eu daria razão tanto a um quanto a outro. Pois o ocidental me parece sobretudo extrovertido e o oriental, sobretudo introvertido. O primeiro projeta o sentido, isto é, supõe-no nos objetos; o segundo o sente em si mesmo. Ora, o sentido está tanto no exterior quanto no interior.

Não podemos separar a ideia de reencarnação da ideia de carma. O problema é saber se o carma de um ser humano é ou não pessoal. Se o destino preestabelecido com o qual um ser humano entra para a vida é o resultado das ações e realizações das vidas anteriores, há uma continuidade pessoal. No outro caso, o carma aparece de alguma maneira no nascimento e incorpora-se novamente sem que haja uma continuidade pessoal.

Não sei responder se o carma que vivo é o resultado de minhas vidas passadas ou se é uma aquisição de meus ancestrais, cuja herança condensou-se em mim. Sou uma combinação de vidas de ancestrais e reencarno essas vidas? Já vivi alguma vez com personalidade determinada e progredi o bastante naquela vida para poder agora esboçar uma solu­ção? Não sei. Buda não respondeu e suponho que nem ele tinha certeza.

 

Trecho de “A vida depois da morte”, de Carl Jung, extraído do livro Memórias, Sonhos, Reflexões e publicado em PLANETA 8 (abril de 1973)

Cometa que cruza o Sistema Solar pode ser visto no céu até agosto

O Neowise (à esquerda) corta o céu antes do nascer do Sol nesta foto tirada da ISS. Crédito: Nasa, ISS

Depois de contornar o Sol em 3 de julho e agora rumar para a parte externa do Sistema Solar, o cometa Neowise (C/2020 F3) está ficando mais brilhante no céu antes do amanhecer. Na órbita baixa da Terra, ele também nasce antes do Sol nesta foto da Estação Espacial Internacional (ISS) de 5 de julho. Ele foi capturado à esquerda, acima do brilho que se aproxima ao longo do horizonte oriental.

Vênus, agora a estrela da manhã da Terra, é o brilhante farol celeste à direita no campo de visão da foto. Acima de Vênus, é possível ver as estrelas irmãs do aglomerado de Plêiades.

O cometa foi descoberto em março pelo telescópio espacial infravermelho Neowise, da Nasa. Segundo os astrônomos, o corpo celeste tem cerca de 5 quilômetros de diâmetro. Seu núcleo é coberto com uma fuligem que remonta a 4,6 bilhões de anos atrás, época da origem do Sistema Solar.

LEIA TAMBÉM: Hubble flagra fragmentação do cometa ATLAS

O Neowise estará visível em todo o mundo até meados de agosto. Ele pode ser acompanhado a olho nu em céus escuros com pouca ou nenhuma poluição luminosa. Mas, segundo a Nasa, quem estiver munido de binóculos poderá visualizar imagens bem mais impressionantes do visitante, como sua cauda.

Bob Behnken, o astronauta da Nasa a bordo da ISS que compartilhou nas redes sociais a foto do cometa mostrada aqui, tuitou: “Estrelas, cidades, naves espaciais e um cometa!”

Alertas de desmate têm novo pico um dia após reunião com investidores

Desmatamento na Amazônia: viés de alta. Crédito: Wilson Dias/Agência Brasil

Os alertas de desmatamento atingiram 1.034 quilômetros quadrados em junho, segundo o Instituto Nacional de Estudos Espaciais (Inpe). É uma área 11% maior do que a verificada em 2019 e o pior mês de junho da série histórica do sistema de monitoramento Deter-B, iniciado em 2015.

O novo pico de desmatamento vem a público dois meses depois do início da Operação Verde Brasil 2, na qual o Exército foi enviado à Amazônia, em tese, para combater crimes ambientais. E um dia depois de o governo se reunir com investidores estrangeiros para tentar tranquilizá-los sobre a situação ambiental do país.

“Enquanto o Planalto se esforça para tentar enganar o mundo de que preserva a Amazônia, a realidade dos números revela que o governo Bolsonaro está colaborando na destruição da maior floresta tropical do planeta”, disse Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima. “Sob Bolsonaro, vivemos o pior momento da agenda ambiental de nosso país.”

A área de alertas de desmatamento em 2020, um mês antes do fim do período de apuração dos dados, já é 10% maior do que em todo o ano de 2019. São 7.566 km2 em 11 meses, ante 6.844 km2 nos 12 meses do período anterior (o desmatamento é medido de agosto de um ano a julho do ano seguinte). Caso os alertas em julho se mantenham na média dos últimos quatro anos, a área total em 2020 será maior que 8.500 km2.

LEIA TAMBÉM: Investidores internacionais querem discutir crise ambiental com Brasil

Taxa real maior

Os alertas não são a taxa oficial de desmatamento. Eles são sempre uma subestimativa da real área desmatada, já que o sistema Deter, criado para orientar a fiscalização, é “míope” e não enxerga derrubadas pequenas. Isso significa que a taxa real de desmatamento tende a ser bem maior – em média, 50% maior, mas essa proporção varia muito de ano a ano – do que o visto nos alertas.

No ano passado, os alertas de 6.844 km2 implicaram uma taxa de desmatamento de 10.129 km2, a maior desde 2008. Caso as motosserras sigam em ritmo intenso em julho, a taxa de desmatamento pode ultrapassar os 12 mil km2. Isso é três vezes mais do que o Brasil se comprometeu a atingir em 2020 na Política Nacional de Mudança do Clima (PNMC), a lei climática nacional.

Em seu comunicado ao governo nesta quinta-feira (9/7), os mais de 30 investidores globais, que detêm ativos de mais de R$ 20 trilhões, disseram ao governo que um dos indicadores que eles avaliariam no comportamento ambiental do Brasil seria o cumprimento da meta de desmatamento da PNMC.

Fóssil de dinossauro carnívoro é descoberto no Ceará

Concepção artística do Aratasaurus museunacional. Crédito: Divulgação/Museu Nacional

Pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), do Museu Nacional e da Universidade Regional do Cariri apresentaram nesta sexta-feira (10) um fóssil de dinossauro de uma espécie inédita encontrado em 2008 na unidade geológica Formação Romualdo, no Ceará: o Aratasaurus museunacionali, animal terrestre e carnívoro. A pesquisa foi publicada hoje na revista “Scientific Reports”, do Grupo Nature.

Segundo o diretor do Museu Nacional/UFRJ, Alexander Kellner, o fóssil foi batizado em homenagem à instituição, cujo palácio na Quinta da Boa Vista foi destruído por um incêndio em 2018. Ele explicou que ara e ata vêm do tupi e significam “nascido” e “fogo”, respectivamente. Já saurus vem do grego e é muito usado para denominar espécies répteis recentes e fósseis. A tradução de Aratasaurus é “nascido do fogo”, em alusão ao incêndio no museu.

O fóssil tem entre 110 e 115 milhões de anos. Apenas uma das patas do animal está preservada, a direita traseira. “A forma como os ossos estão dispostos, articulados, leva a crer que ele provavelmente deveria estar mais completo antes de sua coleta”, disse Renan Bantim, paleontólogo da Universidade Regional do Cariri. Apesar de o fóssil estar incompleto, grande parte das peculiaridades anatômicas do Aratasaurus em relação aos outros dinossauros celurossauros está nos dedos da pata.

LEIA TAMBÉM: Pterodátilo típico do Brasil é encontrado no Reino Unido

Espécime jovem

Segundo os pesquisadores, embora à primeira vista pareça pouco, esses ossos guardam características anatômicas importantes para sua classificação e para entender sua evolução. Pelas dimensões da pata e recorrendo a espécies evolutivamente próximas que são mais completas, a equipe concluiu que se tratava de um animal de médio porte. Ele podia chegar a 3,12 metros de comprimento e a um peso de até 34,25 quilos.

Parte de um dos membros inferiores do fóssil. Crédito: Divulgação/Museu Nacional

Entretanto, pela análise da microestrutura de seus ossos, foi possível verificar que se tratava de um dinossauro jovem, podendo crescer ainda mais até chegar à sua fase adulta. “Chegamos a essa conclusão analisando os anéis de crescimento que ficaram impressos nos ossos do Aratasaurus, contabilizando apenas quatro”, afirmou o paleontólogo Rafael Andrade.

A anatomia do fóssil encontrado, principalmente a dos dedos do pé, indica que se trata de uma linhagem de dinossauro com origem mais antiga do que a que deu origem aos tiranossaurídeos. Ainda não se sabe muito sobre onde essas linhagens mais antigas estavam no planeta.

“O Aratasaurus aponta que parte dessa rica história pode estar no Nordeste do Brasil e na América do Sul. Sendo assim, ainda existem muitas lacunas para desvendar esse quebra-cabeça evolutivo. Mas, com essa descoberta, colocamos mais uma peça para entendê-lo”, disse Juliana Sayão, paleontóloga da Universidade Federal de Pernambuco.

Parente chinês

“O Aratasaurus é uma linhagem irmã do Zuolong, um celurossauro do Jurássico da China. Isso sugere que os celurossauros mais antigos estariam mais amplamente distribuídos pelo planeta e ao longo de um tempo maior”, informou o paleontólogo chinês Xin Cheng.

Arte comparativa de tamanho que apresenta um ser humano médio, um velociraptor, o Aratasaurus e um tiranossauro. Crédito: Divulgação/Museu Nacional

O fóssil do Aratasaurus foi descoberto em 2008, numa mina de gesso. Logo depois, foi levado para o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri, no interior do Ceará. Em seguida, foi encaminhado para o Laboratório de Paleobiologia e Microestruturas, no Centro Acadêmico de Vitória, da UFPE, para ser preparado e estudado. O processo de preparação, que consiste na retirada da rocha que envolve o fóssil, foi lento e complexo devido à fragilidade em que se encontrava o achado, segundo os pesquisadores.

Entre 2008 e 2016, foram feitas análises microscópicas de seus tecidos através de pequenas amostras dos ossos. Há quatro anos, o fóssil foi levado para o Museu Nacional/UFRJ para que uma pequena parte fosse preparada em detalhe.

“Deixar um exemplar como esse pronto para estudo requer cuidados especiais, tais como o uso de equipamentos e produtos adequados. Devido à fragilidade e à grande importância do espécime, seu preparo requereu o uso constante de microscopia e de ferramentas de precisão”, explicou Helder de Paula Silva, preparador de fósseis do Museu Nacional/UFRJ.

O incêndio de 2018 no Museu Nacional não atingiu a área onde estava esse fóssil. Com isso, ele permaneceu intacto.

Divulgação da paleontologia

Espera-se que o Aratasaurus, além de sua importância científica, possa ajudar a divulgar a paleontologia na região do Cariri. “Essa descoberta é um marco para o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, pois será o primeiro fóssil de dinossauro depositado nesse museu. Espera-se, com isso, aumentar a visitação de áreas do Geopark Araripe”, afirmou o paleontólogo da Universidade Regional do Cariri Álamo Saraiva.

Segundo Juliana Sayão, o Aratasaurus museunacionali contribui para que as instituições científicas entendam a história evolutiva dos terópodes, os quais compõem o grupo de dinossauros carnívoros que têm como representantes atuais as aves.

“Toda descoberta de um fóssil é importante porque obtemos registros que ajudam a reconstruir a história do planeta e refazer o caminho da evolução dos organismos que viveram aqui desde milhões de anos atrás. Muitas vezes o fóssil é único e guarda todas as informações sobre aquela espécie ou grupo de animais”, disse Juliana.

Em 2025, níveis de CO2 serão os mais altos em 3,3 milhões de anos

Reconstituição artística do Plioceno, há cerca de 3 milhões de anos: nível de CO2 próximo ao atual e temperatura 3,3 °C mais alta. Crédito: Ridpath, John Clark (1840-1900)/Wikimedia

Até 2025, os níveis atmosféricos de dióxido de carbono (CO2) provavelmente serão mais altos do que eram durante o período mais quente dos últimos 3,3 milhões de anos, de acordo com nova pesquisa de uma equipe da Universidade de Southampton (Reino Unido). Seu estudo foi publicado hoje (10 de julho) na revista “Nature Scientific Reports”.

A equipe estudou a composição química de pequenos fósseis, do tamanho de uma cabeça de alfinete, coletados em sedimentos oceânicos no leito do Mar do Caribe. Esses dados foram usados para reconstruir a concentração de CO2 na atmosfera da Terra durante o Plioceno, cerca de 3 milhões de anos atrás. Nessa época, nosso planeta estava mais de 3 °C mais quente do que hoje, com calotas polares menores e níveis mais altos do mar no mundo.

O dr. Elwyn de la Vega, que liderou o estudo, disse: “O conhecimento do CO2 durante o passado geológico é de grande interesse, porque nos diz como o sistema climático, as camadas de gelo e o nível do mar responderam anteriormente aos níveis elevados de CO2. Estudamos esse intervalo específico com detalhes sem precedentes, pois ele fornece ótimas informações contextuais para o nosso estado climático atual”.

LEIA TAMBÉM: Com fim da quarentena, poluição do ar volta ao normal na China

A composição de conchas de zooplâncton fossilizadas permitiu a reconstrução do pH e do CO2 do passado. Crédito: Universidade de Southampton
Medição cuidadosa

Para determinar o CO2 atmosférico, a equipe utilizou a composição isotópica do elemento boro, presente naturalmente como uma impureza nas conchas do zooplâncton, chamadas foraminíferos. Esses organismos têm cerca de meio milímetro de tamanho e gradualmente se acumulam em grandes quantidades no fundo do mar, formando um tesouro de informações sobre o clima passado da Terra. A composição isotópica do boro em suas conchas depende da acidez (pH) da água do mar em que os foraminíferos viviam. Existe uma estreita relação entre o CO2 atmosférico e o pH da água do mar, o que significa que o CO2 passado pode ser calculado a partir de uma cuidadosa medição do boro em conchas antigas.

O dr. Thomas Chalk, coautor do estudo, acrescentou: “Concentrando-se em um intervalo quente do passado, quando a insolação recebida do Sol era a mesma de hoje, nos dá uma forma de estudar como a Terra responde à ação do CO2. Um resultado impressionante que descobrimos é que a parte mais quente do Plioceno tinha entre 380 e 420 partes por milhão (ppm) de CO2 na atmosfera. Isto é semelhante ao valor de hoje, de cerca de 415 ppm, mostrando que já estamos em níveis que no passado estavam associados a temperaturas e nível do mar significativamente mais altos do que hoje. Atualmente, nossos níveis de CO2 estão subindo cerca de 2,5 ppm por ano, o que significa que em 2025 teremos superado qualquer coisa vista nos últimos 3,3 milhões de anos”.

Tratamento químico cuidadoso para separar o boro dos foraminíferos e medir sua composição isotópica no Laboratório de Geoquímica da Universidade de Southampton. Crédito: Universidade de Southampton
Níveis em ascensão

O professor Gavin Foster, que também esteve envolvido no estudo, continuou: “A razão pela qual ainda não vemos temperaturas e níveis do mar semelhantes aos do Plioceno hoje é porque leva um tempo para o clima da Terra se equilibrar totalmente em relação aos níveis de CO2. E, por causa das emissões humanas, os níveis de CO2 ainda estão subindo. Nossos resultados nos dão uma ideia de o que é provável que ocorra quando o sistema atingir o equilíbrio”.

De de la Veja concluiu: “Tendo superado os níveis de CO2 do Plioceno até 2025, é provável que os futuros níveis de CO2 na Terra não tenham sido experimentados em nenhum momento nos últimos 15 milhões de anos, desde o Ótimo Climático do Mioceno Médio, um período de calor ainda maior que o Plioceno”.

Choque de estrelas de nêutrons ajuda a explicar mistérios do universo

Concepção artística do pulsar recém-descoberto: caminho aberto para obter informações sobre temas ainda obscuros para os cientistas. Crédito: cortesia do Observatório Arecibo/Universidade da Flórida Central/William Gonzalez e Andy Torres

Uma importante descoberta de como podemos entender colisões de estrelas mortas e a expansão do universo foi feita por uma equipe internacional liderada pela Universidade de East Anglia (Reino Unido). Os pesquisadores descobriram um pulsar incomum – um dos “faróis” magnetizados de estrelas de nêutrons giratórios do espaço profundo que emitem ondas de rádio altamente concentradas a partir de seus polos magnéticos. Seu estudo, feito com dados do radiotelescópio de Arecibo, em Porto Rico, foi publicado na revista “Nature”.

O pulsar recém-descoberto (conhecido como PSR J1913 + 1102) faz parte de um sistema binário – o que significa que ele está trancado em uma órbita apertada com outra estrela de nêutrons.

Estrelas de nêutrons são os restos estelares mortos de uma supernova. Elas são compostas da matéria mais densa conhecida – prensando centenas de milhares de vezes a massa da Terra em uma esfera do tamanho de uma cidade.

LEIA TAMBÉM: Astrônomos captam pela primeira vez um pulsar sendo ‘ligado’

Em cerca de meio bilhão de anos, as duas estrelas de nêutrons colidirão, liberando quantidades surpreendentes de energia na forma de luz e ondas gravitacionais.

Mas o pulsar recém-descoberto é incomum porque as massas de suas duas estrelas de nêutrons são bem diferentes. Uma é muito maior que a outra.

Pistas vitais

Esse sistema assimétrico dá aos cientistas a confiança de que as fusões de duplas de estrelas de nêutrons fornecerão pistas vitais sobre mistérios não resolvidos na astrofísica. Elas incluem, por exemplo, uma determinação mais precisa da taxa de expansão do universo, conhecida como constante de Hubble.

O pesquisador principal, Robert Ferdman, da faculdade de física da Universidade de East Anglia, disse: “Em 2017, os cientistas do Observatório de Ondas Gravitacionais com Interferômetro a Laser (Ligo) detectaram pela primeira vez a fusão de duas estrelas de nêutrons. O evento causou marolas de ondas gravitacionais através do tecido do espaço-tempo, como previsto por Albert Einstein há mais de um século.”

Conhecido como GW170817, esse evento espetacular também foi visto com telescópios tradicionais em observatórios ao redor do mundo. Eles identificaram sua localização em uma galáxia distante, a 130 milhões de anos-luz da Via Láctea.

Ferdman afirmou: “Ele confirmou que o fenômeno de pequenas explosões de raios gama se deve à fusão de duas estrelas de nêutrons. E agora essas são as fábricas que produzem a maioria dos elementos mais pesados ​​do universo, como o ouro”.

A energia liberada durante a fração de segundo quando duas estrelas de nêutrons se fundem é enorme. Está estimada em dezenas de vezes maior que todas as estrelas do universo combinadas.

Portanto, o evento GW170817 não foi surpreendente. Mas a enorme quantidade de matéria ejetada da fusão e seu brilho eram um mistério inesperado.

Teoria alterada

Ferdman disse: “A maioria das teorias sobre esse evento supõe que as estrelas de nêutrons bloqueadas em sistemas binários são muito similares em massa. Nossa nova descoberta muda essas suposições. Descobrimos um sistema binário contendo duas estrelas de nêutrons com massas muito diferentes. Essas estrelas irão colidir e se fundir em cerca de 470 milhões de anos, o que parece muito tempo, mas é apenas uma pequena fração da idade do universo”.

Ele prosseguiu: “Como uma estrela de nêutrons é significativamente maior, sua influência gravitacional distorce a forma de sua estrela companheira – arrancando grandes quantidades de matéria pouco antes de realmente se fundirem, e potencialmente desintegrando-a por completo. Essa ‘ruptura de maré’ ejeta uma quantidade de material quente maior do que a esperada para sistemas binários de massa igual, resultando em uma emissão mais poderosa”.

“Embora o GW170817 possa ser explicado por outras teorias, podemos confirmar que um sistema aparentado de estrelas de nêutrons com massas significativamente diferentes, semelhante ao sistema PSR J1913 + 1102, é uma explicação muito plausível. Talvez mais importante ainda, a descoberta destaca que existem muitos outros sistemas por aí – constituindo mais de um em cada dez binários de estrelas de nêutrons em fusão”, acrescentou Ferdman.

Matéria exótica

O astrônomo português Paulo Freire, do Instituto Max Planck de Radioastronomia (Alemanha), coautor do estudo, afirmou: “Essa perturbação permitiria aos astrofísicos obter novas pistas importantes sobre a matéria exótica que compõe o interior desses objetos extremos e densos. Essa matéria ainda é um grande mistério – é tão densa que os cientistas ainda não sabem do que realmente é feita. Essas densidades estão muito além do que podemos reproduzir nos laboratórios da Terra”.

A desintegração da estrela de nêutrons mais leve também aumentaria o brilho do material ejetado pela fusão. Isso significa que, junto com os detectores de ondas gravitacionais, como o Ligo, baseado nos EUA, e o detector Virgo, baseado na Europa, os cientistas também poderão observar o fenômeno com telescópios convencionais.

Ferdman disse: “De forma empolgante, isso também pode permitir uma medição completamente independente da constante de Hubble – a taxa na qual o universo está se expandindo. Os dois métodos principais para fazer isso estão atualmente em desacordo entre si. Portanto, essa é uma forma crucial de quebrar o impasse e entender com mais detalhes como o universo evoluiu”.

Máscaras: os melhores (e piores) materiais para fazê-las

Máscara: a qualidade do material empregado é fundamental para o nível de proteção obtido. Crédito: https://www.vperemen.com/CC BY-SA 4.0/Wikimedia

É intuitivo e cientificamente demonstrado que usar uma cobertura facial pode ajudar a reduzir a disseminação do novo coronavírus que causa a covid-19. Mas nem todas as máscaras são criadas da mesma forma, como sublinha uma nova pesquisa de cientistas americanos e britânicos liderada pela Universidade do Arizona (EUA). O estudo, publicado na revista “Journal of Hospital Infection”, avaliou a capacidade de diversos materiais de máscara não tradicionais para proteger uma pessoa da infecção após 30 segundos e após 20 minutos de exposição em um ambiente altamente contaminado.

Quando os pesquisadores compararam o emprego de máscaras com a ausência de proteção durante exposições de 20 minutos e 30 segundos ao vírus, descobriram que os riscos de infecção foram reduzidos em 24%-94% ou 44%-99%. O percentual dependeu da máscara e da duração da exposição. A redução de risco diminuiu à medida que a duração da exposição aumentou, eles descobriram.

“As máscaras N99, que são ainda mais eficientes na filtragem de partículas transportadas pelo ar do que as máscaras N95, são obviamente uma das melhores opções para bloquear o vírus”, afirmou Amanda Wilson, aluna de doutorado em ciências da saúde ambiental na Universidade do Arizona e autora principal do estudo. “Isso ocorre porque elas podem reduzir o risco médio em 94%-99% para exposições de 20 minutos e 30 segundos. Mas elas podem ser difíceis de encontrar. Há também considerações éticas, como deixar as disponíveis para profissionais da área médica.”

LEIA TAMBÉM: Uso generalizado de máscaras pode reduzir muito transmissão de covid-19

Materiais não tradicionais

As melhores opções seguintes, de acordo com a pesquisa, são a N95 e as máscaras cirúrgicas e, talvez surpreendentemente, os filtros para aspiradores, que podem ser inseridos em bolsos dos filtros em máscaras de pano. Os filtros a vácuo reduziram o risco de infecção em 83% para uma exposição de 30 segundos e em 58% para uma exposição de 20 minutos. Dos outros materiais não tradicionais avaliados pelos pesquisadores, toalhas de chá, tecidos de algodão e fronhas antimicrobianas vieram na sequência.

Cachecóis, que reduziram o risco de infecção em 44% após 30 segundos e 24% após 20 minutos, e camisetas de algodão, com eficiência parecida, são apenas um pouco melhores do que não usar máscara, eles descobriram.

“Sabíamos que as máscaras funcionam, mas queríamos saber quão bem e comparar os efeitos de diferentes materiais sobre os resultados de saúde”, disse Wilson, especialista em avaliação quantitativa de riscos microbianos.

Wilson e sua equipe coletaram dados de vários estudos de eficácia da máscara e criaram um modelo de computador para simular o risco de infecção, levando vários fatores em consideração.

“Um grande componente de risco é quanto tempo você está exposto. Comparamos o risco de infecção em 30 segundos e 20 minutos em um ambiente altamente contaminado”, disse ela.

Outras condições que afetam o risco de infecção são o número de pessoas ao seu redor e a distância delas, disse ela.

Tamanho das gotículas

O tamanho das gotículas transportadoras de vírus de espirros, tosse ou até fala é também um fator muito importante. Gotas maiores e mais pesadas que transportam o vírus saem do ar mais rapidamente do que as menores e mais leves. Essa é uma das razões pelas quais a distância ajuda a reduzir a exposição.

“O tamanho do aerossol também pode ser afetado pela umidade”, afirmou Wilson. “Se o ar estiver mais seco, os aerossóis se tornarão menores mais rapidamente. Se a umidade for maior, os aerossóis permanecerão maiores por um longo período de tempo, caindo mais rapidamente. Isso pode parecer bom a princípio, mas esses aerossóis caem nas superfícies, e esse objeto se torna outra rota de exposição potencial.”

O estudo também mostrou que quanto mais tempo uma pessoa passa em um ambiente em que o vírus está presente, menos eficaz a máscara se torna.

“Isso não significa tirar a máscara depois de 20 minutos”, disse Wilson, “mas significa que uma máscara não pode reduzir seu risco a zero. Não vá a um bar por quatro horas e pense que não corre riscos porque você está usando uma máscara. Fique em casa o máximo possível, lave as mãos com frequência, use uma máscara quando estiver fora e não toque no rosto.”

As máscaras protegem o usuário e outras pessoas de várias maneiras diferentes. Wilson disse que existem duas “maneiras intuitivas” pelas quais as máscaras filtram aerossóis maiores: interceptação mecânica e impactação inercial.

Importância do uso adequado

“Quanto mais densas as fibras de um material, melhor é a filtragem. É por isso que contagens mais altas de fios levam a maior eficácia. Há simplesmente mais material para bloquear o vírus”, disse ela. “Mas algumas máscaras (como as feitas de seda) ainda têm propriedades eletrostáticas, que podem atrair partículas menores e impedir que elas passem pela máscara também.”

O modelo desenvolvido por Wilson e seus colegas incluiu parâmetros como taxa de inalação (o volume de ar inalado ao longo do tempo) e concentração de vírus no ar.

“Pegamos muitos dados de pesquisa, colocamos em um modelo matemático e relacionamos esses dados uns com os outros”, disse Wilson. “Por exemplo, se sabemos que as taxas de inalação das pessoas variam muito e sabemos que esse vírus está no ar e esses materiais oferecem essa eficiência em termos de filtragem, o que isso significa para o risco de infecção? Fornecemos uma variedade, em parte, porque todo mundo é diferente, como na quantidade de ar que respiramos ao longo do tempo.”

Wilson também disse que é importante que uma máscara tenha uma boa vedação que aperte o nariz. Ela observou ainda que as pessoas não devem usar uma máscara abaixo do nariz ou deixá-la sob o queixo quando não estiverem em uso.

“O uso adequado de máscaras é muito importante”, disse Wilson. “Além disso, estávamos focando em máscaras para proteger o usuário, mas elas são mais importantes para proteger outras pessoas ao seu redor, se você estiver infectado. Se você colocar menos vírus no ar, estará criando um ambiente menos contaminado ao seu redor. Como nosso modelo mostra, a quantidade de vírus infeccioso ao qual você está exposto tem um grande impacto no risco de infecção e no potencial das máscaras de outras pessoas para protegê-los também.”

OMS: transmissão de vírus pelo ar pode ocorrer em procedimento médico

Coronavírus: procedimentos que geram aerossóis podem transmitir o microrganismo. Crédito: Omni Matryx/Pixabay

A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou nesta quinta-feira (9) que a transmissão do novo coronavírus pelo ar pode ocorrer durante procedimentos médicos que geram aerossóis.

Segundo a organização, alguns relatos de casos de covid-19, relacionados a espaços internos lotados, sugeriram a possibilidade de transmissão por aerossol. Ela se combina com a transmissão por gotículas, como em restaurantes, aulas de ginástica ou durante ensaios de coral.

A OMS reconheceu na última terça-feira (7) “evidências emergentes” da propagação do novo coronavírus pelo ar, depois que um grupo de cientistas pediu que a organização atualizasse suas orientações sobre como a doença respiratória se espalha.

LEIA TAMBÉM: Yuval Noah Harari: “Toda crise também é uma oportunidade”

Painel

A OMS anunciou que está montando um painel independente para revisar sua conduta em relação à pandemia de covid-19 e a resposta dada pelos governos.

O anúncio foi feito após críticas duras do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que acusa a instituição de ter viés favorável à China, e a notificação formal do governo norte-americano, na terça-feira, de que se desligará da agência dentro de um ano.

A ex-primeira-ministra da Nova Zelândia Helen Clark e a ex-presidente da Libéria Ellen Johnson Sirleaf concordaram em liderar o painel e escolher seus membros, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. O anúncio foi feito em reunião virtual com representantes dos 194 países-membros da organização.

“Este é um momento de autorreflexão”, afirmou Tedros. Ele observou que os estados-membros da OMS pediram por unanimidade, em maio, uma avaliação da resposta global à pandemia.

“Este não é um relatório padrão em que se marca um quadrado e depois é colocado em uma estante para acumular poeira. Isto é algo que levamos a sério”, afirmou Tedros. O diretor-geral acrescentou que o painel fornecerá um relatório provisório em uma reunião anual de ministros da Saúde, que será reconvocada em novembro.

Ao participar da reunião, Helen Clark disse que a atribuição “só pode ser descrita como excepcionalmente desafiadora”.

Tedros observou que, em maio, países-membros da OMS adotaram por unanimidade resolução proposta pela União Europeia, que pediu uma avaliação da reação global à pandemia.

De acordo com contagem da Reuters, mais de 12 milhões de pessoas foram infectadas pelo novo coronavírus e 548.429 morreram até agora em todo o mundo.

Arqueólogos encontram rato de brinquedo de couro com 1.900 anos

O rato de couro achado em Vindolanda: brinquedo de criança ou de adulto. Crédito: Vindolanda Trust

Arqueólogos descobriram um rato de brinquedo em Vindolanda, um antigo forte romano e assentamento na Muralha de Adriano perto de Hexham, em Northumberland (norte da Inglaterra). O objeto tem 12,2 centímetros de comprimento e 2,6 cm de largura (dados compatíveis com um animal de verdade). Marcas ao longo do “corpo” indicam o pelo e os olhos. Ele foi datado entre 105 d.C. e 130 d.C. Vindolanda esteve sob domínio romano entre cerca de 85 d.C. e 370 d.C.

“A sacola de couro em que estava escondido foi descoberta em 1993 durante uma escavação de uma sala no período IV/V da Residência do Oficial Comandante, quando a primeira coorte de tungrianos [tribo que vivia na Gália Belga nos tempos do Império Romano) estava estacionada no local”, disseram Barbara Birley, curadora da Vindolanda Trust, e seus colegas.

Para os pesquisadores, o objeto pode ter sido um brinquedo de criança ou um artigo usado em brincadeiras. “Não esperávamos encontrar algo assim”, disse Birley ao jornal “The Observer”. “Se você estivesse trabalhando em uma sala romana escura – porque eles não tinham uma quantidade enorme de iluminação interna –, definitivamente poderia vê-lo como um pequeno rato. “Especialmente porque não é [como] o Mickey Mouse com orelhas grandes. Parece muito realista.”

LEIA TAMBÉM: Arqueólogos mapeiam cidade romana inteira sem fazer escavações

Ossos descobertos

Ela acrescentou: “Embora tenhamos adiado o início de nossas escavações em 2020, vemos que a coleção ainda tem tesouros escondidos a serem revelados. (…) Apesar de termos uma quantidade significativa de evidências de crianças em Vindolanda, há muito poucos brinquedos. Seria maravilhoso se esse ratinho tivesse sido um brinquedo e uma fonte de entretenimento para uma criança aqui na fronteira norte.”

Segundo o marido de Birley, Andrew, diretor de escavações e diretor executivo do Vindolanda Trust, os ratos estavam em toda parte em Vindolanda. Sem dúvida, teriam sido uma (desagradável) companhia constante para os moradores do local. “Quando os celeiros de Vindolanda foram escavados em 2008, os ossos de milhares de ratos mortos foram descobertos abaixo do piso do prédio, onde eles viviam e festejavam com as espigas de grãos que caíam entre as lajes”, disse ele. “É maravilhoso que alguém, há 2 mil anos, tenha fabricado esse rato de brinquedo em couro, sabendo que sua criação não teria dentes afiados nem os comeria fora e dentro de casa.”

O rato de brinquedo deverá ser uma das novas atrações quando o Museu de Vindolanda for reaberto.

Cientistas descobrem centenas de estrelas ‘estrangeiras’ na Via Láctea

Simulação de formação de galáxias individuais, quando o universo tinha apenas alguns milhões de anos. Crédito: Hopkins Research Group, Caltech

Astrônomos podem passar sua carreira inteira sem encontrar um novo objeto no céu. Mas para Lina Necib, bolsista de pós-doutorado em física teórica do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), a descoberta de um aglomerado de estrelas na Via Láctea, mas não nascido da Via Láctea, chegou cedo – com uma pequena ajuda de supercomputadores, do observatório espacial Gaia e de novos métodos de aprendizado profundo.

Em artigo publicado na revista “Nature Astronomy”, Necib e seus colaboradores descrevem Nyx, um vasto novo fluxo estelar nas proximidades do Sol, que pode fornecer a primeira indicação de que uma galáxia anã se fundiu com o disco da Via Láctea. Pensa-se que essas correntes estelares sejam aglomerados globulares ou galáxias anãs que foram esticadas ao longo de sua órbita por forças das marés antes de serem completamente interrompidas.

A descoberta de Nyx tomou um caminho tortuoso, mas que reflete a maneira multifacetada do estudo da astronomia e da astrofísica hoje.

LEIA TAMBÉM: TESS investiga colisão da jovem Via Láctea com galáxia anã

Simulações detalhadas

Necib estuda a cinemática – ou movimentos – de estrelas e matéria escura na Via Láctea. “Se existem aglomerados estelares que estão se movendo juntos de uma maneira específica, isso geralmente nos diz que há uma razão pela qual eles estão se movendo juntos.”

Desde 2014, pesquisadores do Caltech, da Northwestern University, da Universidade da Califórnia em San Diego e Berkeley (EUA), entre outras instituições, desenvolvem simulações altamente detalhadas de galáxias realistas como parte de um projeto chamado Fire (Feedback In Realistic Environments). Essas simulações incluem tudo o que os cientistas sabem sobre como as galáxias se formam e evoluem. A partir do equivalente virtual do início dos tempos, as simulações produzem galáxias que se parecem e agem como as nossas.

Simultaneamente ao projeto Fire, o observatório espacial Gaia foi lançado em 2013 pela Agência Espacial Europeia (ESA). Seu objetivo é criar um mapa tridimensional extraordinariamente preciso de cerca de 1 bilhão de estrelas em toda a Via Láctea e além.

Análises maciças

“É o maior estudo cinemático até hoje. O observatório fornece os movimentos de 1 bilhão de estrelas”, explicou ela. “Um subconjunto dele, 7 milhões de estrelas, possui velocidades 3D, o que significa que podemos saber exatamente onde uma estrela está e seu movimento. Passamos de conjuntos de dados muito pequenos para fazer análises maciças que não podíamos fazer antes para entender a estrutura da Via Láctea.”

A descoberta de Nyx envolveu a combinação desses dois grandes projetos astrofísicos e a análise deles usando métodos de aprendizado profundo.

Entre as questões abordadas pelas simulações e pela pesquisa do céu está: como a Via Láctea se tornou o que é hoje?

“As galáxias se formam engolindo outras galáxias”, disse Necib. “Assumimos que a Via Láctea tinha um histórico de fusões calmo e, durante algum tempo, foi preocupante o quão calmo era porque nossas simulações mostram muitas fusões. Agora, com acesso a muitas estruturas menores, entendemos que não era calmo quanto parecia. É muito poderoso ter todos esses instrumentos, dados e simulações. Todos eles precisam ser usados ao mesmo tempo para desvendar esse problema. Estamos nos estágios iniciais de poder realmente entender a formação da Via Láctea.”

Aplicando o aprendizado profundo a Gaia

Um mapa de 1 bilhão de estrelas é uma bênção mista: muita informação, mas quase impossível de analisar pela percepção humana.

“Antes, os astrônomos tinham de procurar e marcar muito e talvez usar alguns algoritmos de agrupamento. Mas isso não é mais possível”, disse Necib. “Não podemos olhar para 7 milhões de estrelas e descobrir o que elas estão fazendo. O que fizemos nessa série de projetos foi usar os catálogos de simulação de Gaia.”

O catálogo simulado de Gaia, desenvolvido por Robyn Sanderson (Universidade da Pensilvânia), perguntou essencialmente: “Se as simulações do Fire fossem reais e observadas com o Gaia, o que veríamos?”

O colaborador de Necib, Bryan Ostdiek (anteriormente da Universidade do Oregon e agora na Universidade Harvard), que já havia se envolvido no projeto do Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês), tinha experiência em lidar com grandes conjuntos de dados usando aprendizado de máquina e profundo. Transportar esses métodos para a astrofísica abriu as portas para uma nova maneira de explorar o cosmos.

Aprendizado

“No LHC, temos simulações incríveis, mas nos preocupamos que as máquinas treinadas nelas aprendam a simulação e não a física real”, disse Ostdiek. “De maneira semelhante, as galáxias do Fire proporcionam um ambiente maravilhoso para treinar nossos modelos, mas não são a Via Láctea. Tivemos de aprender não apenas o que poderia nos ajudar a identificar as estrelas interessantes na simulação, mas também como obter isso para generalizar para a nossa verdadeira galáxia.”

A equipe desenvolveu um método para rastrear os movimentos de cada estrela nas galáxias virtuais e rotulá-las como nascidas na galáxia hospedeira ou consideradas como produtos de fusões de galáxias. Os dois tipos de estrelas têm assinaturas diferentes, embora as diferenças sejam muitas vezes sutis. Essas etiquetas foram usadas para treinar o modelo de aprendizado profundo, que foi testado em outras simulações do Fire.

Depois de criar o catálogo, eles o aplicaram aos dados do Gaia. “Perguntamos à rede neural: ‘Com base no que você aprendeu, pode rotular se as estrelas foram acrescentadas ou não?’”, disse Necib.

O modelo classificou o grau de confiança de que uma estrela nasceu fora da Via Láctea em um intervalo de 0 a 1. A equipe criou um ponto de corte com tolerância a erros e começou a explorar os resultados.

Desafios

Essa abordagem de pegar um modelo treinado em um conjunto de dados e aplicá-lo a um modelo diferente, porém relacionado, é chamado de transferência de aprendizado e pode estar cheio de desafios. “Precisávamos ter certeza de que não estamos aprendendo coisas artificiais sobre a simulação, mas realmente o que está acontecendo nos dados”, disse Necib. “Para isso, tivemos de dar-lhe um pouco de ajuda e dizer-lhe para pesar novamente certos elementos conhecidos a fim de lhe fornecer uma âncora.”

Eles primeiramente checaram para ver se o modelo conseguia identificar características conhecidas da galáxia. Essas incluem “a Salsicha Gaia” – os restos de uma galáxia anã que se fundiu com a Via Láctea cerca de 6 bilhões a 10 bilhões de anos atrás e que tem uma forma orbital distinta semelhante à de uma salsicha.

“Ela tem uma assinatura muito específica”, explicou Necib. “Se a rede neural funcionou como deveria, deveríamos ver essa enorme estrutura que já sabemos que existe.”

A Salsicha Gaia estava lá, assim como o halo estelar – estrelas de fundo que dão à Via Láctea sua forma reveladora – e a corrente Helmi, outra galáxia anã conhecida que se fundiu com a Via Láctea no passado distante e foi descoberta em 1999.

Primeira vista: Nyx

O modelo identificou outra estrutura na análise: um aglomerado de 250 estrelas, girando com o disco da Via Láctea, mas também indo em direção ao centro da galáxia.

“Seu primeiro instinto é que você tem um erro”, contou Necib. “E você fica tipo, ‘Oh não!’ Assim, não contei a nenhum dos meus colaboradores por três semanas. Então, comecei a perceber que não é um erro, é realmente real e é novo.”

Mas e se já tivesse sido descoberto? “Você começa a ler a literatura, certificando-se de que ninguém o tinha visto e, felizmente, para mim, ninguém tinha visto mesmo. Então, eu pude nomeá-lo, que é a coisa mais empolgante da astrofísica. Chamei-o Nyx, a deusa grega da noite. Essa estrutura em particular é muito interessante porque teria sido muito difícil vê-la sem o aprendizado de máquina.”

O projeto exigia computação avançada em muitos estágios diferentes. As simulações Fire e Fire-2 atualizada estão entre os maiores modelos computacionais de galáxias já tentados. Cada uma das nove principais simulações – três formações de galáxias separadas, cada uma com um ponto de partida ligeiramente diferente para o Sol – levou meses para computar nos maiores e mais rápidos supercomputadores do mundo. Entre eles, o Blue Waters, no Centro Nacional de Aplicações de Supercomputação (NCSA), as instalações de computação de ponta da Nasa e, mais recentemente, o Stampede2 no Texas Advanced Computing Center (TACC).

Os pesquisadores usaram aglomerados da Universidade do Oregon (EUA) para treinar o modelo de aprendizado profundo e aplicá-lo ao maciço conjunto de dados de Gaia. Atualmente, eles estão usando o Frontera, o sistema mais rápido de qualquer universidade do mundo, para continuar o trabalho.

“Tudo sobre esse projeto é computacionalmente muito intensivo e ele não seria possível sem a computação em larga escala”, disse Necib.

Passos futuros

Necib e sua equipe planejam explorar Nyx ainda mais usando telescópios terrestres. Isso fornecerá informações sobre a composição química do fluxo e outros detalhes que os ajudarão a datar a chegada de Nyx à Via Láctea e possivelmente fornecerão pistas de onde ele veio.

O próximo lançamento de dados do Gaia, em 2021, conterá informações adicionais sobre 100 milhões de estrelas no catálogo, tornando mais provável a descoberta de aglomerados acumulados.

“Quando a missão do Gaia começou, os astrônomos sabiam que era um dos maiores conjuntos de dados que eles obteriam, com muito o que se entusiasmar”, disse Necib. “Mas precisávamos desenvolver nossas técnicas para se adaptar ao conjunto de dados. Se não mudássemos ou atualizássemos nossos métodos, estaríamos perdendo a física que está em nosso conjunto de dados.”

Os sucessos da abordagem da equipe do Caltech podem ter um impacto ainda maior. “Estamos desenvolvendo ferramentas computacionais que estarão disponíveis para muitas áreas de pesquisa e também para itens não relacionados à pesquisa”, disse ela. “É assim que empurramos a fronteira tecnológica em geral.”

Gatos já eram animais de estimação na Ásia Central há mais de mil anos

Gatos como os conhecemos hoje acompanhavam pastores no Cazaquistão há mais de mil anos. Crédito: Maike Glöckner/MLU

Gatos domésticos comuns, como os conhecemos hoje, podem ter acompanhado pastores cazaques como animais de estimação há mais de mil anos. Isso foi indicado por novas análises feitas em um esqueleto de gato quase completo encontrado durante uma escavação ao longo da antiga Rota da Seda, no sul do Cazaquistão. O estudo foi publicado na revista “Scientific Reports”.

Uma equipe de pesquisa internacional liderada pela Universidade Martin Luther Halle-Wittenberg (MLU, da Alemanha), Universidade Estadual Korkyt-Ata Kyzylorda (Cazaquistão), Universidade de Tübingen (Alemanha) e Escola Superior de Economia da Rússia reconstruiu a vida do gato, revelando ideias surpreendentes sobre a relação entre humanos e animais de estimação na época.

O gato, um macho – que foi examinado por uma equipe liderada pela drª Ashleigh Haruda, da Central Natural Science Collections da MLU – não teve uma vida fácil. “O gato teve vários ossos quebrados durante a sua vida”, disse Haruda. E, no entanto, com base em uma estimativa muito conservadora, o animal provavelmente já havia passado do primeiro ano de vida. Para Haruda e seus colegas, essa é uma indicação clara de que as pessoas cuidaram desse gato.

LEIA TAMBÉM: Cães querem mesmo resgatar seus donos do perigo

Animal enterrado

Durante uma estada de pesquisa no Cazaquistão, a cientista examinou as descobertas de uma escavação em Dzhankent, um antigo assentamento medieval no sul do país, povoado principalmente pela tribo de pastores turca oghuz. Lá, ela descobriu um esqueleto de gato muito bem preservado. Segundo Haruda, isso é bastante raro, porque normalmente apenas ossos individuais de um animal são encontrados durante uma escavação, o que impede que conclusões sistemáticas sejam tiradas sobre a vida do animal. A situação é diferente quando se trata de seres humanos, pois geralmente são encontrados esqueletos inteiros.

Ossos do gato encontrados em Dhzankent. Crédito: Ashleigh Haruda/MLU

“Um esqueleto humano é como uma biografia dessa pessoa. Os ossos fornecem uma grande quantidade de informações sobre como a pessoa viveu e o que experimentou”, disse Haruda. Nesse caso, no entanto, os pesquisadores tiveram sorte: após sua morte, o gato foi aparentemente enterrado. Portanto, todo o crânio, incluindo a mandíbula, partes da parte superior do corpo, pernas e quatro vértebras foram preservados.

Haruda trabalhou em conjunto com uma equipe internacional de arqueólogos e antigos especialistas em DNA. Um exame do esqueleto do gato revelou detalhes surpreendentes sobre sua vida. Primeiro, a equipe tirou imagens em 3D e raios X de seus ossos. “Esse gato sofreu várias fraturas, mas sobreviveu”, afirmou Haruda.

A análise isotópica de amostras de ossos também forneceu à equipe informações sobre a dieta do gato. Comparado aos cães encontrados durante a escavação e a outros gatos daquele período, a dieta desse gato era muito rica em proteínas. “Ele deve ter sido alimentado por humanos, uma vez que o animal perdeu quase todos os dentes no final de sua vida.”

Mudança cultural

As análises de DNA também provaram que o animal era realmente um gato doméstico da espécie Felis catus L. e não um gato de estepe selvagem intimamente relacionado. De acordo com Haruda, é notável que os gatos já estavam sendo mantidos como animais de estimação nessa região por volta do século 8 d.C.: “Os oghuz eram pessoas que só criavam animais quando eram essenciais para suas vidas. Os cães, por exemplo, podem vigiar os animais. Na época, eles não tinham uso óbvio para gatos”, explicou a pesquisadora.

Sítio de Dhzankent, no Cazaquistão, onde os ossos foram encontrados. Crédito: Ashleigh Haruda/MLU

O fato de as pessoas na época manterem e cuidarem de animais “exóticos” indica uma mudança cultural, que se pensava ter ocorrido muito mais tarde na Ásia Central. Pensa-se que a região demorou a fazer mudanças em relação à agricultura e à pecuária.

O assentamento de Dhzankent, onde foram encontrados os restos do gato, estava localizado ao longo da Rota da Seda, uma antiga rede de importantes rotas de caravanas que ligavam a região da Ásia Central e Oriental à região do Mediterrâneo por terra. Segundo Haruda, a descoberta também é uma indicação de intercâmbio cultural entre as regiões localizadas ao longo da Rota da Seda.

Sono ruim em meio ao isolamento social: confira dicas da Fiocruz

Aparelhos como celular, TV ou rádio não devem perturbar a tranquilidade do ambiente em que se dorme. Crédito: cortesia JBSA

Sono desregulado, horário para dormir e acordar alterados, insônia, alteração de humor, ansiedade são alguns dos vários problemas que muitas pessoas estão vivendo neste momento totalmente atípico. Em 2015, a Fundação Nacional do Sono divulgou as recomendações de duração do sono segundo faixa etária; porém, atualmente, devido ao isolamento social, alguns distúrbios se intensificaram.

Por isso, o Grupo de Pesquisa Cronobiologia aplicada à saúde coletiva do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh) da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) produziu um documento com orientações a fim de que as pessoas possam desfrutar de um sono mais tranquilo, restaurador. Ele surgiu porque as principais queixas, atualmente, por conta da pandemia, segundo a pesquisadora do Cesteh Liliane Teixeira, foram as de saúde mental relacionadas ao confinamento, o que altera bastante o descanso.

Além disso, a pesquisadora explica que algo mais importante é renovado pelo sono e o “dormir pouco” ou “dormir mal” prejudicam ainda mais a saúde neste momento. “Durante o sono, há restauração energética, eliminação de radicais livres, regulação endócrina e aumento da defesa imune, por meio da consolidação da memória imunológica e das funções imunológicas pró-inflamatórias, com aumento e ativação de linfócitos T nos linfonodos. A privação, diminuição ou fragmentação do sono produz distúrbios neuroimunoendócrinos”, salienta a pesquisadora. Ela mostra ainda que a privação do sono pode ter efeitos importantes na função imune, nos marcadores inflamatórios, diminuindo também a função das células NK, linfócitos T e monócitos.

LEIA TAMBÉM: Estudos revelam como a covid-19 mudou o sono na Europa e nos EUA

Regularidade de horários

O material reúne 23 dicas para melhorar sua qualidade de sono. Conheça-as a seguir.

1) Mantenha horários regulares para deitar e acordar.

2) Descubra o melhor horário para dormir.

3) Evite cochilar durante o dia; se necessário, limite o tempo de sono para um único cochilo com duração menor que 30 minutos, e não cochile depois das 15 horas.

4) Use seu quarto somente para dormir.

5) Mantenha o quarto com temperatura agradável, ambiente silencioso, iluminação adequada (evite lâmpada com grande intensidade luminosa e da cor branca ou azul), limpo e sem umidade.

6) Mantenha tranquilidade no ambiente em que se dorme (evite TV, rádio, computador etc.).

7) Antes de dormir, evite leitura ou filmes com conteúdo estimulante (suspense ou terror).

8) Evite ir dormir com fome ou alimentado em excesso; procure fazer uma refeição leve antes de dormir, contendo leite e seus derivados.

9) Evite tomar café, chá preto, refrigerantes, chocolates e medicamentos que contenham cafeína quatro (4) horas antes de ir dormir.

10) Evite o consumo de bebidas alcoólicas à noite, de quatro (4) a seis (6) horas antes de ir dormir (pode prejudicar a qualidade do sono e piorar sintomas de depressão na manhã seguinte).

11) Evite fumar no quarto ou durante a noite.

12) Durma apenas o tempo suficiente para sentir-se bem (ou quanto você puder). Vá deitar-se apenas no momento em que estiver com sono; se não conseguir sentir sono ou dormir, saia do quarto e dedique-se a uma atividade tranquila. Retorne ao quarto quando, e somente quando, estiver com sono. Repita esse processo frequentemente; se necessário, durante todas as noites.

Atividade física e mental

13) Antes de se deitar, faça sempre a mesma preparação, como: ir ao banheiro, tomar banho morno, alimentar-se de forma leve, escovar os dentes, colocar uma roupa adequada para dormir e preparar a cama – com o(s) travesseiros, lençóis e cobertores que achar necessário –, até identificar a posição para dormir mais.

14) Atividades relaxantes em torno do horário de dormir podem diminuir a tensão e facilitar o sono. Exemplos: exercícios relaxantes, respiração profunda, meditação, etc.

15) Para auxiliar a redução do estresse e a ansiedade durante a noite, anote pensamentos e ideias antes de ir para a cama.

16) Pratique exercícios físicos regularmente até seis (6) horas antes de ir dormir.

17) Mantenha-se física e mentalmente ativo.

18) Evite que seus parentes o acordem por qualquer motivo.

19) Se for acordar mais tarde no final de semana, levante-se no máximo uma ou duas horas após o habitual; caso contrário, a sonolência será maior quando precisar retomar seu horário habitual.

20) Evite luz intensa durante a noite. Entretanto, exponha-se à luz do dia pela manhã, pois ela pode ajudar a regular seu início do sono à noite.

21) Diminua o uso de aparelhos eletrônicos duas (2) horas antes de dormir.

22) Se levantar durante a noite, procure usar lâmpadas de baixa intensidade luminosa, evitando luz branca ou azul.

23) Se após quatro (4) a seis (6) semanas, os problemas de sono persistirem, não use medicações para o sono; em vez disso, procure orientação médica.

Beleza despretensiosa no Cruzeiro do Sul

Estrelas de diversas idades salpicam o céu nesta fatia do Cruzeiro do Sul retratada pelo VLT. Crédito: ESO

Esta bonita imagem, obtida com o auxílio do instrumento FORS (FOcal Reducer and low dispersion Spectrograph) montado no Very Large Telescope (VLT) do Observatório Europeu do Sul (ESO), mostra um campo de estrelas de todas as idades – algumas em primeiro plano e outras espreitando do fundo da imagem.

Os tons vermelhos e azuis bem definidos devem-se ao uso de filtros, os quais permitem selecionar comprimentos de onda da radiação muito específicos. As imagens obtidas com filtros diferentes podem ser combinadas de modo a criar imagens coloridas compostas: atribuindo uma cor particular a cada filtro; em seguida, “pintando” as imagens de acordo com o filtro utilizado; e, finalmente, combinado as imagens individuais. O resultado é esta imagem deslumbrante que representa os vários comprimentos de onda da luz de modo colorido.

Este pedaço do céu se encontra na constelação do Cruzeiro do Sul, uma região extremamente brilhante da Via Láctea.

LEIA TAMBÉM: Telescópio do ESO vê sinais de nascimento de planeta

Esta imagem foi criada como parte do programa Joias Cósmicas do ESO, uma iniciativa que visa obter imagens de objetos interessantes, intrigantes ou visualmente atrativos, utilizando os telescópios do ESO, para efeitos de educação e divulgação científica. O programa utiliza tempo de telescópio que não pode ser usado em observações científicas. Todos os dados obtidos podem ter igualmente interesse científico. Por isso, são postos à disposição dos astrônomos através do arquivo científico do ESO.

Um “novo normal” para nos proteger de pandemias

Pangolim: uma das vítimas da exploração insustentável da natureza feita pelo ser humano. Crédito: Valerius Tygart/Mammal Diversity 2011/Wikimedia

Somos 7,8 bilhões de pessoas vivendo em um mundo globalizado. Apesar da desigualdade social abissal de nossas sociedades, somos todos iguais, compartilhamos e dependemos da mesma arca chamada Terra. Porém, o crescimento explosivo da nossa população nas últimas décadas tem provocado uma exploração insustentável da natureza. Entre as inúmeras agressões ambientais que cometemos, a degradação dos ecossistemas naturais e a caça, a captura, o aprisionamento, a venda, o uso como pets e o consumo de animais selvagens nos põem em contato com vírus e bactérias que viviam em harmonia com seus hospedeiros silvestres.

Como o nosso corpo não foi treinado para lidar com esses microrganismos estranhos, corremos o risco de que eles sejam bastante agressivos para nós. Vírus que atacam o aparelho respiratório e que são transmitidos de uma pessoa para outra podem ser espalhados rapidamente pelo globo terrestre por viajantes infectados. É exatamente isso que está acontecendo com o coronavírus causador da covid-19.

Assim como adoecemos ao entrarmos em contato com esses novos microrganismos, também levamos a morte para os animais silvestres quando deixamos os nossos patógenos nos ecossistemas naturais que invadimos. Esse é um sério problema, inclusive, dentro da nossa própria espécie. Indígenas que nunca tiveram contato com a maioria das nossas doenças são muito mais sensíveis do que as pessoas de nossa cultura. Infelizmente, a história da humanidade está repleta de exemplos de culturas tradicionais dizimadas ao redor do mundo por doenças levadas pelos “colonizadores”.

Nova história

A covid-19 nos ensina muitas lições. Uma delas é que a única maneira de reduzirmos o risco de novas pandemias é a construção de uma sociedade que respeite a natureza acima de tudo e na qual todo ser humano tenha uma vida digna. Como quase sempre somos os únicos responsáveis pelos nossos problemas de saúde, está na hora de vivermos um “novo normal” e escrevermos uma história que, finalmente, faça jus ao Homo sapiens (“homens sábios”).

 

* Júlio César Bicca-Marques é professor da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da PUCRS

Yuval Noah Harari: “Toda crise também é uma oportunidade”

Harari (à esquerda na foto, com o professor Ronaldo Lemos), em evento durante o lançamento do Projeto Modernizar, da presidência da Câmara dos Deputados, em 2019: o historiador israelense vê a humanidade em uma encruzilhada na abordagem da pandemia e do que a sucederá, e espera que a solidariedade e a cooperação internacional prevaleçam. Crédito: Marcos Brandão/Senado Federal/Flickr

Nesta entrevista ao “Unesco Courier”, Yuval Noah Harari, historiador israelense e autor de Homo Sapiens, Homo Deus e 21 Lições para o Século 21, analisa quais são as possíveis consequências da atual crise de saúde por coronavírus e destaca a necessidade de maior cooperação científica internacional e compartilhamento de informações entre países.

Como essa pandemia global de saúde é diferente das crises anteriores e o que isso nos diz?

Não tenho certeza se é a pior ameaça à saúde global que enfrentamos. A epidemia de gripe de 1918-1919 foi pior, a epidemia de aids provavelmente foi pior e as pandemias de épocas anteriores certamente foram muito piores. No que diz respeito às pandemias, esta é realmente leve. No início dos anos 80, se você tinha aids, você morria. A Peste Negra [a praga que devastou a Europa entre 1347 e 1351] matou entre um quarto e metade das populações afetadas. A gripe de 1918 matou mais de 10% de toda a população em alguns países. Por outro lado, a covid-19 está matando menos de 5% dos infectados e, a menos que ocorra alguma mutação perigosa, é improvável que mate mais de 1% da população de qualquer país.

Além disso, em contraste com as épocas anteriores, agora temos todo o conhecimento científico e ferramentas tecnológicas necessárias para superar essa praga. Quando a Peste Negra ocorreu, as pessoas estavam completamente desamparadas. Elas nunca descobriram o que as estava matando e o que poderia ser feito sobre isso. Em 1348, a faculdade de medicina da Universidade de Paris acreditava que a epidemia foi causada por um infortúnio astrológico – ou seja, que “uma grande conjunção de três planetas em Aquário [causou] uma corrupção mortal no ar” (citado em Rosemary Horrox, ed., The Black Death, Manchester University Press, 1994, p. 159).

LEIA TAMBÉM: Ciência e sociedade: laços em recuperação

Por outro lado, quando a covid-19 irrompeu, os cientistas levaram apenas duas semanas para identificar corretamente o vírus responsável pela epidemia, sequenciar todo o seu genoma e desenvolver testes confiáveis ​​para a doença. Sabemos o que fazer para impedir a propagação dessa epidemia. É provável que, dentro de um ano ou dois, também tenhamos uma vacina.

“Tenho menos medo do vírus do que dos demônios internos da humanidade: ódio, ganância e ignorância”

No entanto, a covid-19 não é apenas uma crise no setor de saúde. Isso também resulta em uma enorme crise econômica e política. Tenho menos medo do vírus do que dos demônios internos da humanidade: ódio, ganância e ignorância. Se as pessoas culpam a epidemia por estrangeiros e minorias; se empresas gananciosas se preocupam apenas com seus lucros; e se acreditarmos em todos os tipos de teorias da conspiração – será muito mais difícil superar essa epidemia e, mais tarde, viveremos em um mundo envenenado por esse ódio, ganância e ignorância. Por outro lado, se reagirmos à epidemia com solidariedade e generosidade global, e se confiarmos na ciência e não nas teorias da conspiração, tenho certeza de que não só poderemos superar essa crise, mas realmente sair dela muito mais fortes.

Até que ponto o distanciamento social pode se tornar a norma? Que efeito isso terá nas sociedades?

Durante a crise, é inevitável um certo distanciamento social. O vírus se espalha, explorando nossos melhores instintos humanos. Nós somos animais sociais. Gostamos de contato, especialmente em tempos difíceis. E quando parentes, amigos ou vizinhos estão doentes, nossa compaixão surge e queremos ir ajudá-los. O vírus está usando isso contra nós. É assim que se espalha. Portanto, precisamos agir com a cabeça e não com o coração e, apesar das dificuldades, reduzir nosso nível de contato. Enquanto o vírus é uma informação genética irracional, nós, humanos temos uma mente, podemos analisar a situação racionalmente e variar a maneira como nos comportamos. Acredito que, quando a crise terminar, não veremos efeitos no longo prazo em nossos instintos humanos básicos. Ainda seremos animais sociais. Ainda amaremos o contato. Ainda iremos ajudar amigos e parentes.

Veja, por exemplo, o que aconteceu com a comunidade LGBT [lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros] na sequência da aids. Era uma epidemia terrível, e os gays eram com frequência completamente abandonados pelo estado, e ainda assim a epidemia não causou a desintegração dessa comunidade. Exatamente o oposto. Já no auge da crise, os voluntários LGBT estabeleceram muitas novas organizações para ajudar pessoas doentes, espalhar informações confiáveis ​​e lutar por direitos políticos. Nos anos 90, após os piores anos da epidemia de aids, a comunidade LGBT em diversos países ficou muito mais forte do que antes.

Arte com a bandeira gay desenhada a caneta-tinteiro: após o auge da epidemia de aids, a comunidade LGBT de diversos países ganhou mais força. Crédito: SatyrTN/Wikimedia
Como você vê o estado da cooperação científica e da informação após a crise? A Unesco foi criada após a Segunda Guerra Mundial para promover a cooperação científica e intelectual através do livre fluxo de ideias. O “livre fluxo de ideias” e a cooperação entre países poderiam ser fortalecidos como resultado da crise?

Nossa maior vantagem sobre o vírus é nossa capacidade de cooperar efetivamente. Um vírus na China e um vírus nos Estados Unidos não podem trocar dicas sobre como infectar seres humanos. Mas a China pode ensinar aos EUA muitas lições valiosas sobre o coronavírus e como lidar com isso. Mais do que isso – a China pode realmente enviar especialistas e equipamentos para ajudar diretamente os EUA, e os EUA também podem ajudar outros países. Os vírus não podem fazer nada assim.

E de todas as formas de cooperação, o compartilhamento de informações é provavelmente o mais importante, porque você não pode fazer nada sem informações precisas. Você não pode desenvolver medicamentos e vacinas sem informações confiáveis. De fato, até o isolamento depende da informação. Se você não entende como uma doença se espalha, como você pode colocar as pessoas em quarentena contra ela?

Por exemplo, o isolamento contra a aids é muito diferente do isolamento contra a covid-19. Para se isolar contra a aids, você precisa usar preservativo durante o sexo, mas não há problema em conversar face a face com uma pessoa HIV+ – ou apertar as mãos e até abraçá-las. A covid-19 é uma história totalmente diferente. Para saber como se isolar de uma epidemia específica, primeiramente você precisa de informações confiáveis ​​sobre o que causa essa epidemia. São vírus ou bactérias? É transmitido através do sangue ou da respiração? Põe em perigo crianças ou idosos? Existe apenas uma cepa do vírus, ou várias cepas mutantes?

“A informação científica não desce do céu nem brota da mente de gênios. Depende de instituições independentes fortes”

Nos últimos anos, políticos autoritários e populistas procuraram não apenas bloquear o livre fluxo de informações, mas também minar a confiança do público na ciência. Alguns políticos descreveram os cientistas como uma elite sinistra, desconectada do “povo”. Esses políticos disseram a seus seguidores para não acreditar no que os cientistas estão dizendo sobre mudanças climáticas, ou mesmo sobre vacinas. Agora deve ser óbvio para todos o quão perigosas são essas mensagens populistas. Em tempos de crise, precisamos que as informações fluam abertamente, e precisamos que as pessoas confiem em especialistas científicos, em vez de demagogos políticos.

Felizmente, na emergência atual, a maioria das pessoas realmente se volta para a ciência. A Igreja católica instrui os fiéis a ficarem longe das igrejas. Israel fechou suas sinagogas. A República Islâmica do Irã está punindo as pessoas que vão às mesquitas. Templos e seitas de todos os tipos suspenderam cerimônias públicas. E tudo porque os cientistas fizeram alguns cálculos e recomendaram o fechamento desses lugares sagrados.

Espero que as pessoas se lembrem da importância de informações científicas confiáveis, mesmo após o término desta crise. Se queremos desfrutar de informações confiáveis da ciência ​​em um momento de emergência, precisamos investir nela em tempos normais. A informação científica não desce do céu nem brota da mente de gênios individuais. Depende de ter instituições independentes fortes, como universidades, hospitais e jornais. Instituições que não apenas pesquisam a verdade, mas também são livres para dizer às pessoas a verdade, sem medo de ser punidas por algum governo autoritário. Leva anos para construir essas instituições. Mas vale a pena. Uma sociedade que fornece aos cidadãos uma boa educação científica e é servida por fortes instituições independentes pode lidar com uma epidemia muito melhor do que uma ditadura brutal que precisa policiar constantemente uma população ignorante.

Por exemplo, como você faz milhões de pessoas lavarem as mãos com sabão todos os dias? Uma maneira de fazer isso é colocar um policial, ou talvez uma câmera, em todos os banheiros e punir as pessoas que não conseguem lavar as mãos. Outra maneira é ensinar as pessoas da escola sobre vírus e bactérias, explicar que o sabão pode remover ou matar esses patógenos e depois confiar nas pessoas para se decidirem. O que você acha, qual método é mais eficiente?

Qual é a importância de os países trabalharem juntos para disseminar informações confiáveis?

Os países precisam compartilhar informações confiáveis não apenas sobre questões médicas restritas, mas também sobre uma ampla gama de outras questões – desde o impacto econômico da crise até a condição psicológica dos cidadãos. Suponha que o país X esteja atualmente debatendo que tipo de política de quarentena adotar. É preciso levar em consideração não apenas a propagação da doença, mas também os custos econômicos e psicológicos do bloqueio. Outros países já enfrentaram esse dilema antes e tentaram políticas diferentes. Em vez de agir com base em especulações puras e repetir erros do passado, o país X pode examinar quais foram as consequências reais das diferentes políticas adotadas na China, na República da Coreia, na Suécia, na Itália e no Reino Unido. Assim, pode tomar decisões melhores.

Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia: a abordagem de seu governo à pandemia de covid-19 é uma das que devem ser analisadas na tomada de decisões. Crédito: Governor-General of New Zealand
O aumento da inteligência artificial ​​e a necessidade de soluções técnicas fizeram com que empresas privadas se colocassem à disposição. Nesse contexto, ainda é possível desenvolver princípios éticos globais e restaurar a cooperação internacional?

À medida que as empresas privadas se envolvem, torna-se ainda mais importante elaborar princípios éticos globais e restaurar a cooperação internacional. Algumas empresas privadas podem ser motivadas pela ganância mais do que pela solidariedade, por isso devem ser regulamentadas com cuidado. Mesmo aquelas que agem com benevolência não são diretamente responsáveis ​​perante o público, por isso é perigoso permitir que elas acumulem muito poder.

Isso é particularmente verdade quando se fala de vigilância. Estamos testemunhando a criação de novos sistemas de vigilância em todo o mundo, tanto por governos quanto por empresas. A crise atual pode marcar um divisor de águas importante na história da vigilância. Primeiro, porque pode legitimar e normalizar a implantação de ferramentas de vigilância em massa em países que até agora as rejeitaram. Em segundo lugar, e ainda mais importante, significa uma transição dramática da vigilância “sobre a pele” para “sob a pele”.

Antes, governos e empresas monitoravam principalmente suas ações no mundo – onde você vai, quem encontra. Agora, eles se tornaram mais interessados ​​no que está acontecendo dentro do seu corpo. Em sua condição médica, temperatura corporal, pressão arterial. Esse tipo de informação biométrica pode dizer aos governos e corporações muito mais sobre você do que nunca.

Você poderia sugerir alguns princípios éticos sobre como esses novos sistemas de vigilância podem ser regulamentados?

Idealmente, o sistema de vigilância deve ser operado por uma autoridade especial de assistência médica, e não por uma empresa privada ou pelos serviços de segurança. A autoridade de assistência à saúde deve concentrar-se estritamente na prevenção de epidemias e não deve ter outros interesses comerciais ou políticos. Fico particularmente alarmado quando ouço pessoas comparando a crise da covid-19 à guerra e pedindo que os serviços de segurança assumam o controle. Isto não é uma guerra. É uma crise de saúde. Não há inimigos humanos para matar. É tudo sobre como cuidar de pessoas. A imagem dominante na guerra é um soldado com um rifle avançando. Agora, a imagem em nossas cabeças deve ser uma enfermeira trocando lençóis em um hospital. Soldados e enfermeiros têm uma maneira muito diferente de pensar. Se você quiser colocar alguém no comando, não coloque um soldado no comando. Coloque uma enfermeira.

A autoridade de saúde deve reunir a quantidade mínima de dados necessária para a tarefa restrita de prevenção de epidemias e não deve compartilhar esses dados com nenhum outro órgão governamental – especialmente a polícia. Nem deve compartilhar os dados com empresas privadas. Ela deve garantir que os dados coletados sobre os indivíduos nunca sejam usados ​​para prejudicar ou manipular esses indivíduos – por exemplo, levando as pessoas a perder o emprego ou o seguro.

“Os próprios indivíduos devem ter liberdade para examinar seus dados pessoais e se beneficiar deles”

A autoridade de assistência à saúde pode tornar os dados acessíveis à pesquisa científica, mas apenas se os frutos dessa pesquisa forem disponibilizados gratuitamente à humanidade e se quaisquer lucros incidentais forem reinvestidos no fornecimento de melhores serviços de saúde às pessoas.

Em contraste com todas essas limitações no compartilhamento de dados, os próprios indivíduos devem ter o mesmo controle dos dados coletados sobre eles. Eles devem ter liberdade para examinar seus dados pessoais e se beneficiar deles.

Finalmente, embora esses sistemas de vigilância provavelmente tenham caráter nacional, para realmente prevenir epidemias, as diferentes autoridades de saúde teriam de cooperar entre si. Como os patógenos não respeitam as fronteiras nacionais, a menos que combinemos dados de diferentes países, será difícil identificar e impedir epidemias. Se a vigilância nacional for realizada por uma autoridade de saúde independente e isenta de interesses políticos e comerciais, seria muito mais fácil para essas autoridades nacionais cooperar globalmente.

Você falou de uma recente deterioração rápida da confiança no sistema internacional. Como vê as mudanças profundas na cooperação multilateral no futuro?

Não sei o que vai acontecer no futuro. Depende das escolhas que fazemos no presente. Os países podem optar por competir por recursos escassos e seguir uma política egoísta e isolacionista, ou podem optar por ajudar um ao outro no espírito de solidariedade global. Essa escolha moldará o curso da crise atual e o futuro do sistema internacional nos próximos anos.

A expectativa é de que, no combate à pandemia, a cooperação e a solidariedade predominem entre os países. Crédito: Governo do Estado de São Paulo/Flickr

Espero que os países escolham solidariedade e cooperação. Não podemos parar esta epidemia sem uma cooperação estreita entre países de todo o mundo. Mesmo que um país em particular consiga parar a epidemia em seu território por um tempo, enquanto a epidemia continuar a se espalhar por outros lugares, poderá retornar a todos os lugares. Pior ainda, os vírus mudam constantemente. Uma mutação no vírus em qualquer lugar do mundo pode torná-lo mais contagioso ou mais mortal, colocando em perigo toda a humanidade. A única maneira de realmente nos protegermos é ajudando a proteger todos os seres humanos.

O mesmo se aplica à crise econômica. Se todo país cuidar apenas de seus próprios interesses, o resultado será uma grave recessão global que atingirá todos. Países ricos como EUA, Alemanha e Japão vão se confundir de uma maneira ou de outra. Mas os países mais pobres da África, Ásia e América Latina podem entrar em colapso completamente. Os EUA podem pagar um pacote de resgate de US$ 2 trilhões para sua economia. Equador, Nigéria e Paquistão não têm recursos semelhantes. Precisamos de um plano de resgate econômico global.

“Esperamos que a atual epidemia ajude a humanidade a perceber o grave perigo que representa a desunião global”

Infelizmente, até agora não vemos nada como a forte liderança global de que precisamos. Os EUA, que atuaram como líderes mundiais durante a epidemia de ebola de 2014 e a crise financeira de 2008, abdicaram desse emprego. O governo Trump deixou bem claro que se importa apenas com os EUA e abandonou até seus aliados mais próximos na Europa Ocidental. Mesmo que os EUA agora apresentem algum tipo de plano global, quem confiaria nele e quem seguiria sua liderança? Você seguiria um líder cujo lema é “Eu primeiro”?

Donald Trump, presidente dos EUA, que constantemente minimiza a importância da pandemia: “Você seguiria um líder cujo lema é ‘Eu primeiro’?”, pergunta Harari. Crédito: Casa Branca/Flickr

Mas toda crise também é uma oportunidade. Esperamos que a atual epidemia ajude a humanidade a perceber o grave perigo que representa a desunião global. Se, de fato, essa epidemia eventualmente resultar em cooperação global mais estreita, será uma vitória não apenas contra o coronavírus, mas contra todos os outros perigos que ameaçam a humanidade – das mudanças climáticas à guerra nuclear.

Você fala sobre como as escolhas que fazemos agora afetarão nossas sociedades econômica, política e culturalmente nos próximos anos. Quais são essas escolhas e quem será responsável por fazê-las?

Estamos diante de muitas opções. Não é apenas a escolha entre isolacionismo nacionalista e solidariedade global. Outra questão importante é se as pessoas apoiariam a ascensão dos ditadores ou insistiriam em lidar com a emergência de maneira democrática. Quando os governos gastam bilhões em ajuda a empresas em falência, eles salvariam grandes corporações ou pequenas empresas familiares? À medida que as pessoas passam a trabalhar em casa e se comunicam on-line, isso resultará no colapso do trabalho organizado ou veríamos melhor proteção aos direitos dos trabalhadores?

Todas essas são escolhas políticas. Devemos estar cientes de que agora estamos enfrentando não apenas uma crise na saúde, mas também uma crise política. A mídia e os cidadãos não devem se deixar distrair completamente pela epidemia. É claro que é importante acompanhar as últimas notícias sobre a própria doença – quantas pessoas morreram hoje? Quantas pessoas foram infectadas? Mas é igualmente importante prestar atenção à política e pressionar os políticos a fazer a coisa certa. Os cidadãos devem pressionar os políticos a agirem no espírito de solidariedade global; cooperar com outros países em vez de culpá-los; distribuir fundos de maneira justa; preservar freios e contrapesos democráticos – mesmo em uma emergência.

A hora de fazer tudo isso é agora. Quem for eleito para o governo nos próximos anos não poderá reverter as decisões tomadas agora. Se você se tornar presidente em 2021, é como ir a uma festa quando a festa já acabou e a única coisa que resta a fazer é lavar a louça suja. Se você se tornar presidente em 2021, descobrirá que o governo anterior já distribuiu dezenas de bilhões de dólares – e você tem uma montanha de dívidas para pagar. O governo anterior já reestruturou o mercado de trabalho – e você não pode começar do zero novamente. O governo anterior já introduziu novos sistemas de vigilância – e eles não podem ser abolidos da noite para o dia. Portanto, não espere até 2021. Monitore o que os políticos estão fazendo agora.

 

As opiniões expressas nesta entrevista são do autor e não necessariamente da Unesco, e não comprometem a Organização.

Escorpião marinho gigante reinava nos mares da Austrália pré-histórica

Concepção artística do Eurypterida australiano: predador temível. Crédito: Dimitris Siskopoulos/Wikimedia Commons, CC BY-SA

Vamos voltar no tempo. Antes de a extinção derrubar os dinossauros do seu pilar, antes de a extinção do Permiano-Triássico exterminar 95% de todos os organismos, tivemos a Era Paleozoica.

Durante essa era da história da Terra, entre 541 milhões e 252 milhões de anos atrás, os artrópodes (animais com exoesqueletos, como insetos, crustáceos, escorpiões e caranguejos-ferradura) estavam explorando extremos de tamanho, de pequenos a enormes.

De fato, alguns artrópodes paleozoicos representavam os maiores animais da Terra na época. Se você fosse nadar nos oceanos paleozoicos, poderia ter tido a sorte (ou o azar) de encontrar um dos mais temíveis desses artrópodes extintos: os escorpiões-do-mar, Eurypterida.

LEIA TAMBÉM: Fóssil de pinguim gigante é descoberto na Nova Zelândia

Nossa nova pesquisa, publicada na revista “Gondwana Research”, é a coleção mais abrangente de informações sobre essas criaturas fascinantes que antes vagavam pelas águas australianas.

Fóssil de Eurypterus remipes. Esse escorpião marinho de mais de 400 milhões de anos atrás tinha habitualmente menos de 30 centímentros de comprimento, mas acredita-se que parentes seus tenham atingido 2,5 metros de comprimento. Crédito: H. Zell/Wikimedia Commons, CC BY-SA
Visão para contemplar

Embora os Eurypterida parecessem amplamente escorpiões (com uma forma corporal semelhante, embora construída para nadar), eles não eram. Eles eram mais parecidos com os primos dos escorpiões modernos.

Uma parte excepcional da história evolutiva dos escorpiões-do-mar é como eles se encaixam na narrativa do gigantismo paleozoico.

Os escorpiões-do-mar incluem os maiores predadores marinhos que já surgiram no registro fóssil, incluindo uma espécie que se pensa ter mais de 2,5 metros de comprimento, Jaekelopterus rhenaniae. Naquela época, alguns desses gigantes estavam efetivamente no mesmo lugar em sua cadeia alimentar que o grande tubarão-branco moderno.

Esses prováveis ​​nadadores ágeis teriam usado seus grandes membros dianteiros, armados com garras, para agarrar suas presas, que depois esmagariam entre as estruturas parecidas com os dentes das pernas (chamadas espinhos gnatobásicos).

Embora não tenhamos certeza do que exatamente esses animais comiam, é provável que peixes e artrópodes menores estivessem no cardápio. E se os humanos estivessem nadando no mar, talvez nós também!

Tamanho dos maiores escorpiões marinhos extintos em relação a um humano. Crédito: Slate Weasel/Wikimedia Commons. Modificado.
História fascinante (mas obscura)

A Austrália é famosa por sua variedade de animais curiosos, incluindo espécies modernas únicas, como o ornitorrinco. E essa singularidade se estende até o registro fóssil, com os escorpiões-do-mar sendo um exemplo disso.

Mas o registro científico e o estudo dos escorpiões-do-mar australianos têm sido irregulares. O primeiro espécime documentado, publicado em 1899, consistia em uma seção de exoesqueleto fragmentada encontrada em Melbourne.

Antes de nossa nova pesquisa examinar a abrangência do grupo na Austrália, havia cerca de dez registros – e apenas uma outra tentativa de reunir tudo. Como tal, a diversidade e disseminação desses fósseis eram bastante incertas.

Para nós, revisitar esses fósseis surpreendentes resultou em algumas viagens a diferentes museus australianos. Também recebemos amostras da Universidade da Nova Inglaterra (Austrália) para examinar pessoalmente.

Essa jornada de descoberta paleontológica descobriu muitos fósseis de escorpiões-do-mar do que nunca haviam sido observados anteriormente. Como resultado, agora temos evidências de seis possíveis grupos diferentes que existiam na Austrália.

Reunindo esses espécimes em nossa publicação mais recente, ilustramos os Pterygotidae (a família de escorpiões-do-mar que atingiam 2,5 metros de comprimento) dominando o registro fóssil australiano do grupo. Embora isso tenha sido observado antes, a abundância de material de diferentes locais e períodos de tempo, especialmente do estado de Victoria, foi inesperada.

Exemplos de fósseis de escorpião marinho australiano, seus dois grupos e o intervalo de tempo. O azul representa a família Pterygotidae; o laranja, a família Adelophthalmidae
Voltar à fonte

Além de apresentar o maior número de escorpiões do mar australianos, nosso artigo também descreve a falta geral de informações sobre esses animais.

Apesar de haver muito material fragmentado, existe apenas uma amostra (quase) completa, Adelophthalmus waterstoni, medindo apenas 5,7 cm de comprimento.

Pesquisas futuras envolverão revisitar os locais onde essas amostras foram originariamente coletadas, na esperança de encontrar amostras mais completas. Isso não apenas ajudará a documentar melhor as espécies de escorpiões marinhos australianos, como também permitirá uma compreensão mais completa dos ambientes em que viviam.

Por fim, uma coisa é clara: ainda existe muito a descobrir sobre esses titãs que nadaram pelos oceanos pré-históricos da Austrália.

 

* Russell Dean Christopher Bicknell é pesquisador de pós-doutorado em paleobiologia da Universidade da Nova Inglaterra (Austrália); Patrick Mark Smith é oficial técnico de paleontologia no Museu Australiano. Os autores agradecem a Natalie Schroeder Geoscience Australia por sua ajuda nesse projeto.

** Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original aqui.

Cientistas fazem bactérias produzir seda como a das aranhas

Aranha tecedeira de seda: o trabalho agora também pode ser feito por bactérias. Crédito: Charles J Sharp/Wikimedia

As aranhas produzem fios surpreendentemente fortes e leves, chamados linhas de arrasto, feitas a partir de proteínas da seda. Embora elas possam ser usadas ​​para fabricar uma série de materiais úteis, é difícil obter o suficiente da proteína. O motivo é simples: apenas uma pequena quantidade pode ser produzida por uma única minúscula aranha.

Em um estudo publicado na revista “Communications Biology”, uma equipe liderada por Keiji Numata no Centro de Ciência de Recursos Sustentáveis ​​(CSRS) do Instituto Riken, do Japão, informou que conseguiu produzir a seda de aranha usando bactérias fotossintéticas. Esse estudo pode iniciar uma era na qual biofábricas fotossintéticas produzem de maneira estável a maior parte da seda de aranha.

Além de serem resistentes e leves, as sedas derivadas de espécies de artrópodes são biodegradáveis ​​e biocompatíveis. Em particular, a seda de aranha é ultraleve e resistente ao aço.

LEIA TAMBÉM: Macho de viúva-negra segue rastros de rivais em busca de fêmea

“A seda de aranha tem o potencial de ser usada na fabricação de materiais duráveis ​​e de alto desempenho, como roupas resistentes a rasgos, peças de automóveis e componentes aeroespaciais”, disse Choon Pin Foong, que conduziu esse estudo. “Sua biocompatibilidade a torna segura para uso em aplicações biomédicas, como sistemas de administração de medicamentos, dispositivos de implantes e andaimes para engenharia de tecidos.”

Alteração genética

Como apenas uma quantidade mínima pode ser obtida de uma aranha e como é difícil criar um grande número de aranhas, foram feitas tentativas para produzir seda artificial de aranha em uma variedade de espécies.

A equipe do CSRS se concentrou na bactéria fotossintética marinha Rhodovulum sulfidophilum. Essa bactéria é ideal para o estabelecimento de uma biofábrica sustentável, porque cresce na água do mar, requer dióxido de carbono e nitrogênio, presentes na atmosfera, e utiliza energia solar, abundante e inesgotável.

Os pesquisadores modificaram geneticamente a bactéria para produzir a proteína MaSp1. Trata-se do principal componente da linha de arrasto da aranha Nephila, que, acredita-se, desempenha um papel importante na resistência da seda da aranha. A otimização da sequência genética que eles inseriram no genoma da bactéria maximizou a quantidade de seda que poderia ser produzida.

Os cientistas também descobriram que uma receita simples – água do mar artificial, bicarbonato de sódio, gás nitrogênio, extrato de levedura e irradiação com luz infravermelha – permite que a R. sulfidophilum cresça bem e produza a proteína da seda com eficiência. Outras observações confirmaram que a superfície e as estruturas internas das fibras produzidas nas bactérias eram muito semelhantes às produzidas naturalmente pelas aranhas.

“Nosso estudo atual mostra a prova de conceito inicial para a produção de seda de aranha em bactérias fotossintéticas. Agora, estamos trabalhando para produzir em massa proteínas de linha de seda de aranha com pesos moleculares mais altos em nosso sistema fotossintético”, disse Numata.

Juno mostra as magníficas nuvens rodopiantes de Júpiter

Júpiter: nuvens são um espetáculo para os olhos. Crédito: imagem aprimorada por Gerald Eichstädt e Sean Doran (CC BY-NC-SA)/Nasa/JPL-Caltech/SwRI/MSSS

Uma multidão de magníficas e rodopiantes nuvens no dinâmico Cinturão Temperado Norte de Júpiter aparece nesta imagem da sonda Juno, da Nasa. Na cena figuram várias nuvens brancas “pop-up”, bem como uma tempestade anticiclônica, conhecida como oval branca. Tempestades anticiclônicas maiores são denominadas ovais vermelhas – é o caso da Grande Mancha Vermelha e da Oval BA.

Esta imagem aprimorada de cor foi tirada às 16h58 EDT de 29 de outubro de 2018, quando a sonda realizou seu 16º voo próximo de Júpiter. Na época, Juno estava a cerca de 7 mil quilômetros do topo das nuvens do planeta, a uma latitude de aproximadamente 40 graus norte.

Os cientistas cidadãos Gerald Eichstädt e Sean Doran criaram esta imagem usando dados do gerador de imagens JunoCam da sonda.

LEIA TAMBÉM: As misteriosas neblinas de Júpiter

As imagens brutas da JunoCam estão disponíveis em  www.missionjuno.swri.edu/junocam  para o público ler e processar produtos de imagem.

OMS reconhece evidências sobre transmissão da covid-19 pelo ar

OMS reconhece "evidências emergentes" de que partículas do vírus lançadas no ar por uma pessoa contaminada podem infectar outros indivíduos. Crédito: James Gathany/CDC

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu nessa terça-feira (7) “evidências emergentes” de transmissão pelo ar do novo coronavírus, depois que um grupo de cientistas cobrou do organismo a atualização de suas orientações sobre como a doença respiratória se espalha.

“Temos conversado sobre a possibilidade de transmissão pelo ar e transmissão por aerossol como uma das modalidades de transmissão da covid-19”, disse Maria Van Kerkhove, principal autoridade técnica da OMS para a pandemia de covid-19, em entrevista coletiva.

A OMS havia dito anteriormente que o vírus que causa a doença respiratória se dissemina principalmente por meio de pequenas gotículas expelidas pelo nariz e pela boca de uma pessoa infectada, que logo caem no chão.

LEIA TAMBÉM: Covid-19 se espalha dez metros ou mais pela respiração, dizem cientistas

Em carta aberta, enviada à agência sediada em Genebra e publicada na segunda-feira (6) no periódico científico “Clinical Infectious Diseases”, 239 especialistas de 32 países indicaram indícios que, segundo eles, mostram que partículas flutuantes do vírus podem infectar pessoas que as inalam.

Evidências “emergentes”

Como essas partículas menores que são exaladas podem permanecer no ar, os cientistas pediram à OMS que atualize suas diretrizes.

Em entrevista em Genebra, Benedetta Allegranzi, principal autoridade técnica em prevenção e controle de infecções da OMS, disse que há evidências emergentes de transmissão do novo coronavírus pelo ar, mas que elas não são definitivas.

“A possibilidade de transmissão pelo ar em locais públicos – especialmente em condições muito específicas, locais cheios, fechados, mal ventilados que foram descritos – não pode ser descartada. Entretanto, os indícios precisam ser reunidos e interpretados, e continuamos a apoiar isso”, afirmou.

Qualquer alteração na avaliação de risco de transmissão pela OMS pode afetar seus conselhos atuais sobre manter o distanciamento físico de um metro. Governos, que contam com a agência para definir suas políticas de orientação, também podem precisar ajustar as medidas de saúde pública destinadas a conter a propagação do vírus.

Ciclone-bomba no Sul teve precedente há quatro anos

Imagem de satélite do ciclone de 30 de junho

Miriam Prochnow estava numa teleconferência em casa quando o vendaval começou no dia 30 de junho. “Os ventos vieram do nada e muito, muito fortes. Nunca tinha visto nada nessa natureza”, afirma a ambientalista, que dirige com o marido, Wigold, a Apremavi, uma ONG dedicada à restauração florestal em Atalanta, Santa Catarina.

Duas horas depois, quando a tempestade amainou, ela recebeu uma ligação de um dos coordenadores da Apremavi: a estufa de mudas construída no ano passado havia sido destruída. Prejuízo até pequeno diante da pior tempestade já registrada em solo catarinense, o ciclone-bomba que atingiu quase 190 municípios e matou 12 pessoas. No domingo, dia 5 de julho, ainda havia 50 mil residências e comércios sem luz no estado. Na internet, viralizou um vídeo de operários num andaime sacudido pela ventania num prédio em construção em Balneário Camboriú (todos se salvaram).

Com ventos de até 130 km/h, o ciclone se formou a partir do dia 29, pelo choque entre uma frente fria muito forte e muito rápida vinda da Argentina e ar quente no sul do Brasil. Originou-se uma tempestade giratória, com queda de pressão muito rápida – ar da superfície sendo “tragado” muito velozmente para o centro da tormenta, o que causa o vendaval altamente destrutivo. Normalmente esses ciclones se formam sobre o oceano. Apenas 22% deles surgem sobre o continente, e são os mais destrutivos.

LEIA TAMBÉM: Ciclone pode mudar padrões da ocorrência de terremotos

Na taxa TNAc, que mede a potência de ciclones extratropicais (não confundir com ciclones tropicais, que são chamados de furacões no Atlântico, tufões no Pacífico e – só para atrapalhar – ciclones no Oceano Índico), o evento atingiu 1,93. Uma tempestade dessas é considerada “forte” a partir de 1,8.

Estufa de mudas da Apremavi destruída pelo ciclone-bomba. Crédito: Apremavi
Pior já registrado

O fenômeno da semana passada, pela extensão do dano e pela quantidade de cidades afetadas, já é considerado a pior tempestade a atingir Santa Catarina desde que se tem registro. Foi pior do que o furacão Catarina, um inédito ciclone tropical que se formou no oceano e tocou terra no litoral catarinense em março de 2004, destruindo 1.500 casas e matando 11 pessoas.

A quase 500 quilômetros de Atalanta, em Porto Alegre, um outro casal já viu – e estudou – algo dessa mesma natureza. A geógrafa Venisse Schossler e o climatologista Francisco Aquino, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), publicaram com mais dois colegas em maio deste ano uma análise de dois ciclones-bomba que aconteceram quase ao mesmo tempo em 2016: um no sul do Brasil e um na Austrália. E fizeram a primeira caracterização climatológica do evento da semana passada, mostrando como a pressão do ar na tempestade despencou 28 milibares (unidade de pressão atmosférica) em 24 horas – o que deu ao ciclone seu caráter explosivo.

Eles veem uma série de semelhanças preocupantes entre os eventos de 2016 e de 2020.

“Na sua fase de frente fria avançando rapidamente sobre Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o ciclone de 2016 gerou muitos danos, porém agora, infelizmente, em 2020 superamos. Em 2016, o sistema frontal gerou vendaval e rajadas de até uns 100 km/h ou 110 km/h. O atual evento teve um sistema frontal muito mais robusto, intenso e com avanço rápido, o que amplia muito os danos”, conta Aquino. O de então atingira apenas 1,71 na TNAc.

Anos muito quentes

Mas as duas bombas se formaram em anos excepcionalmente quentes. O de 2016 entraria para os registros como ano mais quente desde o início das medições globais, em 1880. E 2020 caminha para ser o segundo mais quente.

Em Santa Catarina, o inverno chegou com temperaturas altas, após uma estiagem incomum que se estendia desde o fim do ano passado. “Na entrada do inverno, todos os nossos ipês amarelos estavam florindo” diz Prochnow.

Outro paralelo entre os ciclones explosivos de 2016 e de 2020 foi que em ambos os casos frentes frias vigorosas vindas da Antártida estão na origem dos eventos. Em 2016, o fenômeno tinha ligação direta com o SAM (Modo Anular do Hemisfério Sul), uma espécie de “campo de força” de ventos que circunda o continente austral. O SAM oscila entre fases positiva e negativa. A negativa facilita a injeção de ar polar, ultrafrio, nas latitudes mais baixas. Em 2016 o SAM estava negativo.

Segundo os pesquisadores gaúchos, o SAM tem estado positivo neste ano, mas passou para negativo a partir de 27 de junho – três dias antes do ciclone-bomba.

Com o aquecimento da Terra, o contraste de temperatura entre a Antártida e a região tropical pode favorecer ciclones mais intensos, embora o número dessas tempestades não tenha variado muito desde a década de 1980.

É bom a população catarinense “já ir” se acostumando. “Tivemos alguns alertas, mas foram poucos”, diz Miriam Prochnow. “Precisamos levar isso a sério. Ninguém foi alertado para não subir em andaimes, como aconteceu em Balneário Camboriú, ou para não andar em estradas.”

Estrelas moribundas dão vida à Terra, revela estudo

O aglomerado estelar NGC 7789, a cerca de 8 mil anos-luz de distância na direção da constelação de Cassiopeia, abriga algumas estrelas anãs brancas de massa extraordinariamente alta analisadas no estudo. Crédito: Guillaume Seigneuret e Nasa

Enquanto dão seus últimos suspiros de vida, as estrelas moribundas gentilmente jogam suas cinzas no cosmos através das magníficas nebulosas planetárias. Essas cinzas, espalhadas por ventos estelares, são enriquecidas com muitos elementos químicos diferentes, incluindo carbono. Um estudo internacional publicado na revista “Nature Astronomy” mostra que os suspiros finais dessas estrelas moribundas, chamadas anãs brancas, lançam luz sobre a origem do carbono na Via Láctea.

“As descobertas colocam novas e rigorosas restrições sobre como e quando o carbono foi produzido pelas estrelas da nossa galáxia, terminando na matéria-prima da qual o Sol e seu sistema planetário foram formados 4,6 bilhões de anos atrás”, disse Jeffrey Cummings, cientista pesquisador associado do Departamento de Física e Astronomia da Universidade Johns Hopkins (EUA) e um dos autores do artigo.

A origem do carbono – um elemento essencial à vida na Terra – na Via Láctea ainda é debatida entre os astrofísicos. Alguns são a favor de estrelas de baixa massa cujos envoltórios ricos em carbono foram levados para longe por ventos estelares e se tornaram anãs brancas. Outros colocam o principal local da síntese de carbono nos ventos de estrelas massivas que posteriormente explodiram como supernovas.

LEIA TAMBÉM: Impactos de asteroides criaram ingredientes da vida na Terra e em Marte

Relação crescente

Usando dados do Observatório Keck, perto do cume do vulcão Mauna Kea, no Havaí, coletados entre agosto e setembro de 2018, os pesquisadores analisaram anãs brancas pertencentes aos aglomerados estelares abertos da Via Láctea. Esses aglomerados são grupos de até alguns milhares de estrelas mantidos juntos por atração gravitacional mútua.

A partir dessa análise, a equipe de pesquisa mediu as massas das anãs brancas e, usando a teoria da evolução estelar, também calculou suas massas ao nascer.

A conexão entre as massas de nascimento e as massas finais de anãs brancas é chamada de relação de massa inicial-final, um diagnóstico fundamental em astrofísica que contém todo o ciclo de vida das estrelas. Pesquisas anteriores sempre encontraram uma relação linear crescente: quanto mais maciça a estrela no nascimento, mais maciça a anã branca chegava à sua morte.

Mas quando Cummings e seus colegas calcularam a relação de massa inicial-final, ficaram chocados ao descobrir que as anãs brancas desse grupo de aglomerados abertos tinham massas maiores do que os astrofísicos acreditavam anteriormente. Segundo eles, essa descoberta quebrou a tendência linear que outros estudos sempre encontraram. Em outras palavras, as estrelas nascidas há cerca de um bilhão de anos na Via Láctea não produziram anãs brancas com cerca de 0,60-0,65 massa solar, como se pensava, mas morreram deixando para trás restos mais maciços de 0,7 a 0,75 massa solar.

Assinatura do carbono

Os pesquisadores dizem que essa diferença explica como o carbono de estrelas de baixa massa chegou à Via Láctea. Nas últimas fases de suas vidas, estrelas duas vezes mais massivas que o nosso Sol produziram novos átomos de carbono em seus interiores quentes, transportaram-nos para a superfície e finalmente os espalharam pelo ambiente interestelar circundante através de ventos estelares suaves. Os modelos estelares da equipe de pesquisa indicam que a remoção do manto externo rico em carbono ocorreu devagar o suficiente para permitir que os núcleos centrais dessas estrelas, as futuras anãs brancas, crescessem consideravelmente em massa.

A equipe calculou que as estrelas deveriam ter pelo menos 1,5 massa solar para espalhar suas cinzas ricas em carbono após a morte.

As descobertas, de acordo com Paola Marigo, professora de física e astronomia da Universidade de Pádua (Itália) e primeira autora do estudo, ajudam os cientistas a entender as propriedades das galáxias no universo. Ao combinarem as teorias da cosmologia e da evolução estelar, os pesquisadores esperam que estrelas brilhantes e ricas em carbono próximas à sua morte, como as progenitoras das anãs brancas analisadas nesse estudo, estejam atualmente contribuindo para a luz emitida por galáxias muito distantes. Essa luz, que carrega a assinatura do carbono recém-produzido, é rotineiramente coletada pelos grandes telescópios do espaço e da Terra para sondar a evolução das estruturas cósmicas. Portanto, esse novo entendimento de como o carbono é sintetizado nas estrelas também significa ter um intérprete mais confiável da luz do universo distante.

REPORTAGENS

Destaques

ENTREVISTAS

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.

X