Camurça de 400 anos servirá de modelo para pesquisa de múmias de gelo

Restos mortais do animal serão estudados a fim de aprimorar as técnicas de conservação de múmias em todo o mundo

O especialista em conservação Marco Samadelli e a antropóloga Alice Paladin, da Eurac Research, com a camurça de 400 anos descoberta em Val Aurina: simulador perfeito. Crédito: Esercito Italiano – Comando Truppe Alpine

Em espécimes mumificados, o DNA frequentemente se degradou e está presente apenas em quantidades mínimas. Diante de uma nova descoberta, portanto, a primeira questão para os especialistas é como examinar a múmia continuando a preservá-la, sem danificar seu DNA antigo. Toda ação tem consequências irreversíveis nos fragmentos de DNA, o que torna impossível experimentar novas técnicas em achados humanos.

Em contraste, uma múmia animal intacta é um simulador perfeito para pesquisa. Isso é especialmente válido se suas condições forem semelhantes às de outras múmias de gelo do mundo, como o caçador dos Alpes Ötzi e a garota inca Juanita. Esse é o papel destinado a uma camurça (uma pequena cabra-antílope) de 400 anos cujo corpo mumificado foi descoberto em Val Aurina, no Tirol do Sul (norte da Itália).

“Graças aos nossos estudos anteriores, conhecemos os parâmetros físicos e químicos ideais para a preservação do ponto de vista microbiológico. No laboratório, levaremos a camurça a essas condições e nos concentraremos em seus efeitos no DNA. Com análises aprofundadas repetidas, verificaremos quais alterações o DNA sofre quando as condições externas mudam”, explica Marco Samadelli, especialista em conservação do centro de pesquisa Eurac Research. É no laboratório dessa instituição que o animal mumificado está guardado.

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Protocolo de conservação

“Nosso objetivo é usar dados científicos para desenvolver um protocolo de conservação válido globalmente para múmias de gelo. Esta é a primeira vez que uma múmia animal é usada dessa forma”, acrescenta Albert Zink, diretor do Instituto de Estudos de Múmias da Eurac Research.

Ao encontrar a camurça, Hermann Oberlechner logo percebeu a importância da descoberta. “Apenas metade do corpo do animal ficou exposta pela neve. A pele parecia couro, completamente sem pelos. Nunca tinha visto nada parecido. Imediatamente tirei uma foto e enviei para o guarda-florestal. Juntos, notificamos o Departamento de Herança cultural.”

O local da descoberta, a 3.200 metros de altitude, é intransitável. Para alcançá-lo, é preciso fazer uma caminhada de seis horas. Por isso, após a inspeção inicial, os pesquisadores decidiram pedir o apoio do Corpo do Exército Alpino italiano na recuperação do animal.

Descobertas mais frequentes

Um voo de helicóptero foi organizado em colaboração com o corpo de aviação especializado do Exército, que possui regimento próprio em Bolzano, com pilotos especificamente treinados para operar em grandes altitudes. Graças ao esforço do grupo, especialistas da Eurac Research chegaram à geleira e, com a ajuda das tropas, realizaram a operação científica necessária para recuperar a múmia.

A camurça foi então envolvida em um invólucro de material inerte feito sob medida pelo conservacionista Marco Samadelli. Os restos mortais estão agora sendo mantidos no Laboratório de Conservação de Pesquisa Eurac no NOI Techpark, em célula refrigerada a -5 °C, prontos para serem estudados.

O derretimento das geleiras está levando à descoberta cada vez mais frequente de achados, inclusive biológicos. Sob a supervisão da antropóloga Alice Paladin, da Eurac Research, o manto de neve fresca e a espessa camada de gelo que cobriam a camurça mumificada foram removidos com o uso de várias ferramentas de escavação arqueológica. A operação precisa exigiu a colaboração e o empenho de todos para evitar qualquer tipo de risco, minimizar a contaminação e garantir a preservação do achado.

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