Cantar sem máscara espalha covid-19 pelo ar, confirma estudo

Episódio de superdisseminação do coronavírus em ensaio de coral nos EUA mostrou como aerossóis contaminam as pessoas nessas ocasiões

Estudo de caso de superdisseminação nos EUA chegou a novas orientações para ensaios e apresentações de corais durante a pandemia. Crédito: Piqsels

Cantar em ambiente fechado sem máscara pode espalhar covid-19 rapidamente por meio de partículas microscópicas transportadas pelo ar conhecidas como aerossóis, confirma um novo estudo da Universidade do Colorado em Boulder (EUA). Os pesquisadores se debruçaram sobre um ensaio de coral em março, que se tornou um dos primeiros eventos de superdisseminação dos Estados Unidos. O artigo que trata do tema foi publicado na revista “Indoor Air”.

“Este estudo documenta detalhadamente que a única explicação plausível para esse evento de superdisseminação era a transmissão por aerossóis. O ar compartilhado é importante porque você pode inalar o que outra pessoa exalou, mesmo se ela estiver longe de você”, disse Shelly Miller, professora de engenharia mecânica na Universidade do Colorado em Boulder e autora principal do estudo.

Em 10 de março em Skagit Valley, estado de Washington, uma pessoa com sintomas leves de covid-19 compareceu a um ensaio de coral de 2,5 horas em ambiente fechado. Nas semanas seguintes, mais de 50 outras pessoas daquele ensaio contraíram a doença – quase todos os presentes. Duas morreram. Como os participantes tomaram precauções para higienização e evitaram tocar uns nos outros, os cientistas suspeitaram que a transmissão do aerossol, e não gotas maiores expelidas no ar ou superfícies infectadas, era a culpada.

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Cuidados tomados

Os membros do coral levaram a sério sua música e sua saúde naquele dia. Eles não se tocaram, tocaram poucas superfícies compartilhadas, escoraram portas abertas. Além disso, usaram desinfetante para as mãos. Poucas pessoas compartilharam o mesmo banheiro que a pessoa infectada. Mesmo assim, muitas que não usaram nenhum banheiro ficaram doentes.

Elas, entretanto, não usavam máscaras.

Os pesquisadores entrevistaram o coral por meio de um representante sobre o que havia acontecido naquele dia. A partir daí, calcularam a taxa de infecção com base nos detalhes do ensaio e no que se sabe sobre o vírus SARS-CoV-2. Eles concluíram que simplesmente não houve oportunidades suficientes para gotículas e superfícies infectadas transmitirem o vírus ao número de pessoas que adoeceram posteriormente.

Mas a ventilação insuficiente no espaço interno levou ao acúmulo de aerossóis produzidos pelos cantores. Além disso, o calor produzido pelos próprios cantores misturou o ar dentro da sala.

Também havia muitos cantores presentes e o ensaio foi longo.

“A inalação de aerossol respiratório infeccioso do ‘ar compartilhado’ foi o principal modo de transmissão”, disse Jose-Luis Jimenez, coautor do estudo, professor de química e bolsista do Instituto Cooperativo de Pesquisa em Ciências Ambientais (Cires) da Universidade do Colorado em Boulder.

Cuidados tomados

Os pesquisadores descobriram que encurtar o tempo de ensaio no evento em Skagit Valley de 2,5 horas para 30 minutos teria diminuído a taxa de infecção de 87% para 12%. A combinação de usar máscaras, melhorar a ventilação, usar purificadores de ar portáteis e ensaiar pela metade da duração programada poderia ter reduzido o número de pessoas infectadas de 52 para apenas 5, em uma análise subsequente usando uma ferramenta amplamente disponível desenvolvida por Jimenez, Miller e colegas com base no estudo.

Esse evento de superdisseminação aconteceu no início da pandemia, quando não havia casos conhecidos no condado de Skagit. As empresas estavam apenas começando a fechar nos EUA. Enquanto isso, as autoridades de saúde pública apenas começavam a debater se as máscaras eram necessárias. Aerossóis, pedaços flutuantes de fluidos corporais muito, muito menores do que gotículas, que também podem transportar o novo coronavírus, não poderiam ser responsáveis ​​pela covid-19, disseram a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os Centros de Controle de Doenças dos EUA (CDC). Lave as mãos e fique a dois metros de distância uma da outra, disseram.

Mas depois de ouvir sobre o surto no estado de Washington, Miller não se convenceu. “Sabe-se que cantar libera grandes quantidades de aerossol”, disse ela.

Desde março, Holanda, Áustria, Canadá, Alemanha, Inglaterra, Coreia do Sul, Espanha e França também abrigaram outros eventos de superdisseminação em corais.

Novas providências

O novo estudo oferece uma nova visão sobre como esses surtos ocorreram e o que pode ser feito para tornar os futuros ensaios de corais mais seguros.

Os autores recomendam a realização de práticas corais ao ar livre sempre que possível durante a pandemia de covid-19 e o gerenciamento cuidadoso de qualquer evento de canto em ambiente interno. O motivo é que o canto pode gerar grandes quantidades de vírus aerossolizados se algum dos cantores estiver infectado. A ventilação aprimorada, que atrai mais ar externo, e a purificação do ar, que remove os aerossóis contendo vírus do ar, podem ser úteis para reduzir a propagação de infecções transmitidas pelo ar em qualquer espaço interno. Mas cantar com máscaras e manter distâncias de pelo menos 2 metros são muito importantes também.

Miller e seus colegas pesquisadores submeteram seus resultados pela primeira vez em junho, mas os aerossóis ainda não estão sendo abertamente reconhecidos pela OMS e pelo CDC como uma importante via de transmissão do SARS-CoV-2.

“A pesquisa contribui para o impressionante corpo de evidências de que a transmissão por aerossol está desempenhando um papel importante na condução dessa pandemia e especialmente em eventos de superdisseminação”, disse Jimenez.

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