Capitalismo para fazer diferença

Lucro e riqueza deveriam ser metas secundárias para as empresas, defende Rajendra Sisodia, o guru do Capitalismo Consciente. Ele está convicto de que o melhor negócio é melhorar o mundo.

Em 2005, o empresário John Mackey travou um debate com o famoso economista Milton Friedman, vencedor do Prêmio Nobel, sobre a natureza do capitalismo. Mackey contestou corajosamente a máxima de Friedman, dominante no mundo dos negócios, de que o único compromisso de uma empresa era dar lucro para seus acionistas. Para ele, a principal missão das empresas é cuidar das pessoas e do planeta. Lucrar é consequência. 

Mackey é co-CEO da Whole Foods Market, uma grande empresa de alimentos orgânicos dos EUA, e não está sozinho. Mais ou menos na mesma época daquele embate ideológico com Friedman, o especialista indiano em marketing e negócios Rajendra Sisodia investigava por que a popularidade de algumas empresas caía apesar do seu alto investimento em publicidade. 

“É muito simples. A maioria das pessoas não acreditava nas propagandas”, disse à PLANETA o atual professor da Universidade de Babson, em Wellesley, Massachusetts. “Nos EUA, gasta-se mais de um trilhão de dólares por ano em publicidade e a maioria dos consumidores não acredita nos anúncios.” 

Na contramão, Sisodia descobriu companhias que pouco investiam em propaganda, mas tinham um alto conceito entre consumidores. “Outras coisas faziam a diferença, como relações boas com os fornecedores, criação de valores para a comunidade e consumidores e algo que hoje chamamos de ‘Propósito Maior’”, diz.

Esses eram os fundamentos do que mais tarde, junto com Mackey, Rajendra defi niria como os pilares do Capitalismo Consciente. No futuro, apenas terão sucesso as empresas que entenderem que em uma sociedade mais exigente o que vale mais é o bem comum. 

Resta saber se a consciência evoluída é algo tangível à maioria, se o grau de exigência vai aumentar. Considerados o atual panorama, os frequentes escândalos e a exploração de mão de obra em países emergentes, o caminho é longo pela frente. 

Evolução Positiva

Pode se dizer que o Capitalismo Consciente é uma tendência?
Não diria que é uma tendência ou um modismo, mas uma evolução. É o próximo capítulo do capitalismo. Em todos os aspectos da vida, os humanos estão evoluindo. É natural que os negócios sigam pelo mesmo caminho. 

Como é a consciência de uma empresa cuja natureza do negócio é danosa?
Uma fábrica de armas, por exemplo. Ela teria de reduzir o impacto negativo de seu negócio. Teria que saber, por exemplo, para quem está vendendo as armas. Se vender para alguém que quer se defender do mal, é uma coisa boa. Em um exemplo extremo as armas podem ser usadas contra alguém como Hitler ou Stalin. Com o tempo, pode usar suas tecnologias para propósitos mais civilizados.

Em que ponto realmente estamos nessa evolução?
Estamos em plena transformação, está acontecendo agora. Há muitas companhias sendo socialmente responsáveis e sustentáveis, mas ainda não é o sufi ciente. Não basta criar um departamento de responsabilidade social e fazer publicidade a respeito. É preciso que isso faça parte de um ‘Propósito Maior’, isto é, que integre o cerne do negócio. 

É possível pensar que no futuro o Mc Donald’s, por exemplo, se tornará uma fornecedora de alimentos saudáveis? 
Sim! O Mc Donald’s tem um poder enorme no mundo, só precisa optar por exercê-lo. Eles têm feito um pouco disso hoje oferecendo saladas orgânicas e frutas. Há cinco anos você não tinha opções saudáveis no menu. Eles ainda podem fazer muito mais, mas é um processo gradual.

Qual é a importância do lucro para uma empresa consciente?
Precisamos do lucro, é claro. Sem lucro, não há como crescer. Mas o que importa é como você faz dinheiro. Se cria valor para todos, isso é bom; se for espremendo as pessoas para ganhar mais, pode até ter algum retorno em curto prazo, mas não sobreviverá. Uma empresa que não cria valor para a sociedade é um parasita. 

Mas não é assim que funciona boa parte das empresas?
Essa é uma forma atrasada de pensar, que não motiva as pessoas e não cria inovação. Sem inovação e criatividade, uma empresa não sobrevive. Se você tem um propósito maior, você cria valor para a sociedade e opera com mais efi ciência. Todas as nossas pesquisas mostram que negócios conscientes são mais bemsucedidos. 

  

 

 

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