Cartão amarelo

Por que a Copa no Brasil não será uma referência mundial em sustentabilidade

No dia 12 de junho, a bola vai rolar na Arena Corinthians, entre Brasil e Croácia, e a Copa do Mundo de 2014 vai começar. Mas quem for ao novo estádio corintiano na abertura do evento notará que falta boa parte da cobertura. Assim como em várias das arenas sedes de jogos, construções incompletas foram entregues na data limite imposta pela Fifa. O atraso generalizado nas obras de infraestrutura  põe em xeque o projeto do governo de fazer um torneio mundial referência em sustentabilidade. 

A Fifa e o COL (Comitê Organizador Local) traçaram uma estratégia ambiciosa de redução de impactos ambientais e maximização de efeitos positivos para a Copa brasileira servir de modelo para futuros eventos. Por iniciativa do governo, foi firmado o compromisso de obter certificação ambiental nas 12 arenas do campeonato como condição para o financiamento das obras pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Até o fechamento desta reportagem, só a Arena Fonte Nova (em Salvador, na Bahia) e o estádio do Castelão (em Fortaleza, no Ceará) estavam certificados pelo LEED, emitido pelo Green Building Council (GBC), uma das instituições top de certificação ambiental de construção civil. 

De acordo com Cláudio Langone, coordenador da Câmara Temática de Meio Ambiente e Sustentabilidade, vinculada ao Ministério do Esporte, a Arena Cocopa rinthians e a Arena Pantanal – as mais atrasadas – não conseguiriam entregar os relatórios para análise do GBC antes da Copa. Os demais estádios estavam em processo de avaliação, com chances de obter o selo até durante o evento. 

Para o diretor do GBC Brasil, Felipe Faria, a demora não é necessariamente um problema. “O processo de certificação independe da data do início da Copa”, afirma. O atraso das obras impactou diretamente o processo de avaliação. “Para você receber a certificação, a edificação tem que estar concluída e operando de forma a atender à performance exigida”, explica Faria. O diretor acredita que dificilmente alguma das arenas ficará sem, pelo menos, o nível básico de um dos selos LEED. “Todo o planejamento estratégico para conseguir a certificação na grande maioria dos estádios foi posto em prática”, diz.

Além do selo

Uma copa do mundo sustentável não se faz apenas com estádios com selos ambientais, mas com uma estratégia abrangente de sustentabilidade. Em 2012, o instituto Personal CO2 Zero calculou as emissões de gases de efeito estufa do evento, considerando a construção das arenas, as obras de mobilidade e a circulação de pessoas durante o campeonato. Foi estimado que o volume emitido seria de 3.017.440 toneladas de CO2 equivalente, o que corresponde ao consumo de energia de um município de 100 mil habitantes num ano. 

O relatório reforça a necessidade de medidas de mitigação, tais como estádios ecoeficientes e obras de mobilidade, como aeroportos, trens, metrôs e viadutos. Esse último setor foi o mais atrasado. De acordo com um levantamento do jornal Folha de S. Paulo, até 13 de maio só 10% dos projetos de mobilidade urbana haviam sido concluídos, muito pouco diante de um cenário no qual 60% dos gases serão liberados pelo transporte aéreo, segundo a pesquisa.

Daniel Machado, diretor da Personal CO2, acredita que ainda é possível amenizar os efeitos negativos do Mundial. “É totalmente viável tornar a copa sustentável; a diferença é que se terá que neutralizar 
uma quantidade maior de emissões porque não se teve esse cuidado no andamento das obras de infraestrutura”, diz. 

Um pouco menos otimista, o Comitê Popular da Copa critica a violação aos direitos humanos cometida em desapropriações para obras de infraestrutura e problemas estruturais na concepção dos projetos. Para construir a Arena Corinthians, por exemplo, foram atropelados diversos procedimentos padrões de licenciamento ambiental. “Há relatos de ex-funcionários da Secretaria do Meio Ambiente de que havia a ordem de aprovar o projeto do estádio a qualquer custo”, diz Vanessa dos Santos, gestora ambiental integrante do comitê.

Para ter uma Copa que se sustente além do discurso e dos selos ambientais, o jogo não deveria terminar com o apito do juiz na final do dia 13 de julho, no Maracanã. 

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