Casas maias revelam ligação entre desigualdade de riqueza e governos despóticos

Estados maias com governança mais coletiva tinham casas de tamanhos mais semelhantes

Escavações de casas em Uxbenká (Belize): distinções de riqueza eram mais ampliadas nos bairros com acesso a rotas de troca. Crédito: K. M. Prufer

Cada sociedade tem algum grau de desigualdade de riqueza – ao longo da história, através dos continentes, sempre parece haver algumas pessoas que têm mais do que outras. Mas a quantidade de desigualdade difere – em algumas civilizações, algumas pessoas poderosas têm quase toda a riqueza, enquanto em outras, ela é mais espalhada. Em um novo estudo publicado na revista “PLOS ONE”, arqueólogos examinaram os restos de casas em antigas cidades maias e os compararam com outras sociedades mesoamericanas. Eles descobriram que as sociedades com maior desigualdade de riqueza também eram aquelas cujos governos concentravam o poder em um número menor de pessoas.

“As diferenças no tamanho das casas são um reflexo da desigualdade de riqueza”, diz Amy Thompson, pesquisadora de pós-doutorado no Field Museum de Chicago (EUA) e autora correspondente do estudo. “Observando como o tamanho das casas varia em diferentes bairros nas cidades antigas, podemos aprender sobre a desigualdade de riqueza nas cidades maias clássicas.”

Existem milhões de maias vivos hoje, mas o período que os arqueólogos chamam de civilização maia clássica data de 250-900 d.C. A sociedade maia clássica se estendia pelo que agora é o leste do México, a Península de Yucatán, a Guatemala, Belize e o oeste de El Salvador e Honduras. Era composta de uma rede de cidades independentes. “Em vez de ser como os Estados Unidos hoje, onde temos um governo central supervisionando todos os estados, a civilização maia clássica era uma série de cidades em que cada uma tinha seu próprio governante independente”, diz Thompson.

Variedade de pistas

Em toda a Mesoamérica, esses sistemas políticos variavam. Alguns compartilhavam o poder de forma mais coletiva, enquanto outros eram mais autocráticos e concentravam o poder em um grupo menor de indivíduos. Os arqueólogos usam uma variedade de pistas para inferir o quão autocrático era um estado. “Vemos a maneira como eles representavam sua liderança. Em enterros, certos indivíduos são tratados de maneira completamente diferente de todos os outros ou as diferenças são mais discretas?”, diz Keith Prufer, coautor do estudo, da Universidade do Novo México (EUA). “Outra chave é olhar para os palácios. Quando você tem edifícios de palácio muito centralizados ou templos funerários dedicados a uma linhagem governante, o governo tende a ser mais autocrático. Em sociedades que eram menos autocráticas, é mais difícil determinar onde os governantes viviam ou mesmo quem eles eram.”

Nesse estudo, os pesquisadores queriam saber como a estrutura governamental afetava a distribuição da riqueza entre as pessoas. Eles observam que em sociedades mais autocráticas a desigualdade de riqueza é pronunciada entre diferentes grupos sociais, e também entre pessoas que vivem nas mesmas vizinhanças que antes eram consideradas economicamente iguais pelos arqueólogos. Grande parte dessa desigualdade está ligada ao acesso a bens de mercado ou redes de comércio. Para saber como a riqueza era espalhada pela comunidade, eles analisaram os restos de casas antigas.

Fatores como o tamanho da casa não dão uma imagem absoluta de riqueza. Por exemplo, um apartamento de um quarto perto do Central Park, em Nova York, pode valer mais do que um de dois quartos no bairro de Queens, na mesma cidade, ou uma casa inteira no estado rural do Kansas.

Padrão relativo

“Tudo é visto em um sentido relativo”, diz Gary Feinman, curador de antropologia do Field Museum e coautor do artigo. “Estamos comparando casas dentro de um bairro entre si e isso ainda revela um padrão. Seria como se você comparasse todas as casas em Kansas. Algumas podem ser maiores do que as casas em Manhattan. Mas esse padrão relativo de distribuição de riqueza no Kansas, em comparação com Manhattan, ainda diria algo sobre os diferenciais de riqueza em ambas as áreas.”

Para estudarem as casas maias, os pesquisadores analisaram diversas variáveis ​​além do tamanho. “Usando a arqueologia doméstica, podemos obter as interações e relacionamentos entre as pessoas”, diz Thompson. “Documentamos onde essas casas estão na paisagem, seu tamanho, onde estão localizadas em relação umas às outras e quais recursos – como água e boas terras agrícolas – estão próximos.” Para obterem mais pistas sobre a distribuição da riqueza, os pesquisadores também escavaram casas a fim de aprender sobre os tipos de cerâmica e ferramentas de pedra que as pessoas usavam.

Os pesquisadores descobriram que os padrões de desigualdade de riqueza eram bastante consistentes em diferentes bairros de duas cidades maias clássicas no sul de Belize – mesmo que um bairro fosse mais rico do que outro. No entanto, em ambos os locais, as distinções de riqueza eram mais ampliadas nos bairros com acesso a rotas de troca. “As pessoas sabem há décadas, senão séculos, que os maias clássicos eram desiguais”, diz Prufer. “Mas o que realmente podemos acrescentar é que essa desigualdade se espalhou, mesmo para os bairros. Isso não havia sido realmente bem documentado antes.”

Ligação não exclusiva

A ligação entre desigualdade de riqueza e autocracia não é exclusiva dos maias clássicos, observam os pesquisadores. “Estamos realmente tentando chegar a algumas dessas questões muito reais de como a desigualdade se forma, como se perpetua e como se manifesta nas primeiras cidades”, diz Prufer.

“Um dos maiores objetivos da arqueologia é tentar mostrar que as sociedades modernas e as sociedades antigas não são, em seus elementos fundamentais, muito diferentes umas das outras”, ele prossegue. “Há muitas semelhanças que refletem o comportamento e a engenhosidade humana e também manifestações de desigualdade humana e crueldade em diferentes níveis. Isso vem desses tipos de estudos, e nos sentimos muito bem em poder contribuir com nosso trabalho para essas discussões mais amplas sobre a desigualdade social, que são tão importantes hoje.”

Embora a desigualdade tenha atormentado a humanidade por milênios, Feinman diz que não estamos condenados como espécie. “Há uma forte interconexão entre como o poder é financiado e como o poder é exercido e monopolizado”, diz ele. “As pessoas podem e estabelecem instituições que tentam controlar o poder. Mas isso dá trabalho e exige interdependência interpessoal e o reconhecimento de que cooperamos com comunidades de pessoas além de apenas nós mesmos e nossa família.”

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