Células cancerígenas praticam canibalismo para resistir à quimioterapia

Ao devorarem células tumorais vizinhas, elas conseguem a energia necessária para sobreviver e dar origem a novos tumores quando o tratamento acaba

Tumor de mama formado em camundongos e tratado com doxorrubicina: algumas células cancerígenas (núcleos vermelhos) foram absorvidas por outras células cancerígenas (membrana celular verde). Crédito: Tonnessen-Murray et al.

Cientistas americanos descobriram que determinadas células cancerígenas sobrevivem à quimioterapia comendo as células tumorais vizinhas. Na opinião dos pesquisadores, essa ação proporciona às células canibais a energia necessária para sobreviverem e provocarem o retorno do tumor. O estudo foi publicado ontem (17 de setembro) na revista “Journal of Cell Biology”.

Drogas quimioterápicas, como a doxorrubicina, matam as células cancerígenas, danificando seu DNA. No entanto, as células que sobrevivem ao tratamento inicial podem em breve dar origem a novos tumores.

Esse é um problema típico de cânceres de mama que retêm uma cópia normal de um gene chamado TP53. Com a quimioterapia, essas células cancerígenas geralmente param de proliferar e entram em um estado dormente, mas metabolicamente ativo, denominado senescência.

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As células cancerígenas senescentes produzem grandes quantidades de moléculas inflamatórias e outros fatores que podem promover o crescimento do tumor. Pacientes com câncer de mama tratados com quimioterapia que têm genes TP53 normais são, portanto, propensos à recaída e têm baixas taxas de sobrevivência.

No estudo, Crystal Tonnessen-Murray e colegas da Universidade de Tulane afirmam ter observado o comportamento canibal não apenas nas células cancerígenas senescentes cultivadas em laboratório, mas também nos tumores que crescem em ratos. A equipe descobriu que as células de câncer de pulmão e osso também são capazes do mesmo truque.

“Compreender as propriedades dessas células cancerígenas senescentes que permitem sua sobrevivência após o tratamento quimioterápico é extremamente importante”, disse Tonnessen-Murray. Segundo os pesquisadores, encontrar uma maneira de inibir esse processo pode oferecer um novo caminho para o tratamento da doença.