Cérebro o órgão da alma

Não basta decifrar a estrutura cerebral para entender como esse órgão funciona.

De todos os nossos órgãos vitais, o cérebro é o mais exagerado. Ele é três vezes maior, em proporção à massa do corpo, do que o cérebro dos primatas, nossos parentes mais próximos. Requer um grande esforço para ser formado, utiliza 20% da energia do corpo quando em repouso e seu tamanho torna difícil e perigoso o momento do parto. Tem o aspecto de um grande grapefruit, um volume pouco superior a um litro, um peso entre um e dois quilos (em casos excepcionais), uma superfície enrugada como a de uma esponja e a consistência de um pudim. É suficientemente compacto para não se desmanchar dentro da caixa do crânio, mas mole o bastante para ser furado com um biscoito.

As verdadeiras surpresas desse grande “pudim”, porém, aparecem num exame ao microscópio. Na nossa cabeça se amontoam 10 bilhões de células nervosas – os neurônios -, cada qual com poucos milionésimos de metro. Todas elas são ligadas a outros milhares de terminações. As sinapses, ou seja, as ligações que permitem a transmissão de sinais elétricos entre os neurônios, existem aos milhões de bilhões. Para decodificar a estrutura do cérebro são necessários pelo menos 3.195 genes específicos, dos quase 100.000 que constituem o genoma humano. Mas o trabalho de decifrar os processos que conduzem o crescimento dos neurônios a formar uma rede incomensurável está apenas no início. De qualquer forma, conhecer o programa genético completo que leva à construção e ao funcionamento dos neurônios não seria suficiente para “construir” um cérebro verdadeiro.

O enorme labirinto de seus circuitos cresce a partir de apenas uma parte ínfima do programa codificado em seus genes. Em qualquer momento da vida do indivíduo, boa parte dos circuitos de seu cérebro mostra-se única e pessoal, pois é reflexo de sua história particular, fruto dos ambientes físicos, culturais e sociais nos quais ele viveu.

SE LEVARMOS em conta o universo inteiro, formado – pelo que se sabe – por bilhões de galáxias, o cérebro humano é o objeto mais complexo que se conhece. Ou, melhor dizendo, que o cérebro humano conhece.

O cérebro foi projetado pela evolução. Sabe-se tudo – ou quase tudo – a respeito da sua forma e da sua estrutura. Sabese, também, que foi projetado de acordo com um processo evolutivo, ao longo de 400 milhões de anos de tentativas e erros, numa seqüência praticamente ininterrupta que vai dos peixes aos anfíbios, aos répteis e aos mamíferos, até chegar aos primatas, nossos antepassados mais imediatos. Ninguém se sentou diante de uma bancada de laboratório e disse: “Agora vamos projetar o cérebro do homem, o ponto de chegada na classificação dos seres vivos.” Ao contrário. Assim como em relação aos outros órgãos de nosso corpo, o cérebro é um conjunto de peças diferentes, reunidas em uma espécie de “faça você mesmo” primitivo que parece obedecer à norma de jamais jogar nada no lixo. Parece feito de propósito para enlouquecer os biólogos ligados a uma visão estritamente utilitária da evolução, aqueles que – como afirmou Stephen Jay Gould -, assim que encontram uma estrutura em qualquer organismo, tentam descobrir sua serventia com o objetivo de determinar o processo de seleção natural responsável por sua criação.

Acima, alguns dos 10 bilhões de neurônios do cérebro. Ao lado, modernas técnicas de geração de imagem, como a tomografia por emissão de pósitrons, permitem ver o córtex em ação.

O cérebro humano conserva os traços das estruturas surgidas em etapas sucessivas nos organismos dos vertebrados: as estruturas da medula espinhal, que comandam as atividades determinadas por reflexos e funções automáticas, como a respiração e os batimentos cardíacos, a digestão e a locomoção; o paleoencéfalo, já presente nos répteis, que comanda mecanismos inatos como a fome, o comportamento sexual e a sede, os cuidados com a prole; e o neoencéfalo que contém o córtex cerebral. Aqui, na etapa conclusiva do caminho que vai dos macacos antropóides ao homem, aconteceu uma revolução, como disse o biólogo norte-americano Edward O. Wilson: “Na fase final, o cérebro foi catapultado para um nível totalmente novo, e dotado das ferramentas necessárias para produzir uma linguagem e uma cultura. Graças ao seu pedigree originário, porém, não foi possível instalá-lo numa caixa craniana vazia como se fosse um computador. O velho cérebro tinha sido ‘montado’ naquele lugar para veicular os instintos e, independentemente das novas peças acrescentadas, mantinha sua vitalidade ao ritmo dos batimentos cardíacos. O novo cérebro teve de ser equipado com os meios à disposição – dentro e ao redor daquele antigo. O resultado foi a natureza humana: a genialidade combinada com a capacidade e as emoções dos animais, a paixão política e artística aliada à racionalidade para criar um novo instrumento de sobrevivência.”

Assim mesmo, aquele amontoado de peças empilhadas durante milhões de anos – combinadas meio por acaso e um pouco por necessidade – resultou, até onde sabemos, no único órgão do universo capaz de possuir a consciência imediata e subjetiva do mundo e de si mesmo. Ou seja, o único ser vivo dotado de consciência ou, como se dizia antigamente, de uma alma.

“Aquele que já foi o maior dos mistérios da biologia – o cérebro humano – está pouco a pouco revelando seus segredos”, escreveu em 1994 John Horgan, o contestado autor do polêmico livro O Fim da Ciência, editado no Brasil pela Companhia das Letras. Na origem desse interesse explosivo estão os instrumentos de pesquisa sempre mais avançados: microeletrodos que permitem identificar o mais leve movimento de um neurônio, as técnicas de geração de imagem mediante a ressonância magnética e a tomografia por emissão de pósitrons, capazes de amplificar a sinfonia que ocorre no córtex com a visão de um quadro famoso ou a percepção do aroma de uma bisteca grelhando na churrasqueira. Com essas técnicas – e muitas outras -, começou-se a entender os processos fisiológicos subordinados aos aspectos da mente, como a memória, a percepção, o aprendizado e a linguagem. Graças aos resultados das pesquisas, um número cada vez maior de cientistas ousa olhar de frente para aquele que foi, ao mesmo tempo, o mais intangível e o menos evitável dos fenômenos: a consciência.

OS RESULTADOS, até agora, são tão freqüentes quanto inconcludentes. Como escreveu Antonio R. Damasio no livro O Erro de Descartes (editado pela Companhia das Letras e, provavelmente, o mais belo livro sobre o cérebro e a mente escrito recentemente), “realmente as novas descobertas se desenvolvem num ritmo mais intenso do que nunca”. Apesar disso, faltam descrições precisas e interpretações globais que permitam afirmar que se conhece “com certeza de qual maneira o cérebro produz a mente”.

Sem dúvida, a mente não é separada do cérebro, tampouco do corpo. Não está na epífise – a glândula pineal, onde o filósofo francês René Descartes havia situado a mente “inteiramente diferente do corpo”. E não é sequer um programa, um software com o qual o cérebro comanda o hardware – o corpo -, como acreditavam os gurus da inteligência artificial. Hoje, isso está demonstrado em muitos eventos documentados na literatura médica.

O cérebro dos vertebrados evoluiu por inclusões sucessivas. Acima, as etapas que conduziram das estruturas primitivas, ainda presentes, às mais complexas.

A começar pelo caso de Phineas P. Gage, um rapaz de 25 anos, chefe de operários de uma empresa de construção que, num dia de fim de verão em 1848, teve a falta de sorte de sofrer um grave acidente. “Uma peça metálica”, conta Damasio, “penetrou na face esquerda de Gage pela base da caixa craniana, atravessou a parte frontal do cérebro e saiu de maneira rapidíssima pela parte mais alta da cabeça, impregnada de sangue e de tecido cerebral, caindo a uns 30 metros de distância”. Por algum extraordinário motivo, o acidente custou a Gage apenas a perda de visão do olho esquerdo e nada mais: a sua res extensa (matéria) permaneceu praticamente ilesa, diria Descates. Mas a sua res cogitans (a mente, a alma), que o filósofo defendia ser separada do corpo – e, portanto, da cabeça e do cérebro -, passou por uma profunda e dramática transformação.

Aquele que havia sido até então um funcionário modelo, gentil, educado e destinado a uma carreira brilhante, tornou- se um personagem bizarro, insolente, capaz das piores grosserias. “Uma criança em suas manifestações e capacidade intelectual, mas com as paixões animalescas de um adulto robusto”, descreveu seu médico, John Harlow, autor do primeiro relatório detalhado e analítico sobre o caso.

QUAL É O SIGNIFICADO do caso Gage? “A resposta é simples”, escreveu Damasio. “Enquanto outros episódios de danos neurológicos ocorridos na mesma época revelam que o cérebro era a base da linguagem, da percepção e das funções motoras, a história de Gage revelava um fato impressionante: embora não seja possível precisar em que medida, havia, no cérebro humano, mais sistemas responsáveis pelo raciocínio do que por outras funções. E, principalmente, pelas dimensões pessoais e sociais do raciocínio.” Ou seja, o exemplo de Gage “indicava que o interior do cérebro estava relacionado especificamente com propriedades peculiarmente humanas, entre as quais a capacidade de antecipar o futuro e de planejar – com base nessa antecipação – um ambiente social complexo; o senso de responsabilidade com relação a si mesmo e aos outros; a capacidade de predispor da própria sobrevivência de maneira deliberada, de acordo com o próprio livrearbítrio”.

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Mas onde fica essa “coisa”? Aí está o problema. Claro, a consciência – ou seja qual for o nome que se deseja utilizar para denominar as faculdades que comandam o raciocínio, a inteligência, o comportamento presente e futuro, a certeza de ser uma pessoa que “pensa o mundo” – não está localizada em uma área específica do cérebro, em uma glândula particular, em um neurônio determinado. Essas faculdades “emergem” do conjunto de neurônios, da infinidade de ligações que podem ser criadas entre eles, e que “ligam e desligam” com uma rapidez extraordinária. Para citar Damasio novamente, “no espaço de um segundo na vida da mente o cérebro produz milhares de operações elétricas por meio de uma ampla variedade de circuitos distribuídos nas suas variadas regiões”.

AS PROVAS ESTÃO em muitas pesquisas que conseguiram “fotografar” o interior do cérebro em atividade. Uma delas é a que foi publicada em agosto de 1996 pelo Instituto Weizmann de Rehovot (Israel), de acordo com a qual “o cérebro age como um dinâmico chefe de pessoal, determinando o tempo todo novas funções aos próprios ‘neurônios operários’ para enfrentar exigências que mudam continuamente”. A pesquisa israelense desmente a opinião de que os neurônios formam “mapas” permanentes. Ao contrário, “demonstra que os neurônios podem formar um grande número de mapas diferentes e modificar seu traçado momentâneo com base na tarefa que eles irão desenvolver”. (www.weizmann.ac.il)

Outro estudo, conduzido pelo centro de geriatria Baycrest, da Universidade de Toronto, no Canadá (www.baycrest.org), utilizou técnicas refinadas de visualização PET (abreviatura em inglês de tomografia por emissão de pósitrons) para “fotografar” os cérebros de um grupo de estudantes empenhados em uma atividade de aprendizado no computador. Os resultados da experiência permitiram ver claramente que as funções de aprendizado e consciência não dependem apenas da atividade dos neurônios situados no córtex pré-frontal, como se supunha. Envolvem muitas outras regiões – até bem distantes a essa área – e estão ligadas especialmente à elaboração de informações acústicas e visuais. Um dos pesquisadores disse que é “como se uma lampadinha se acendesse, conforme se vê nas histórias em quadrinhos quando um personagem entendeu alguma coisa, mas com a diferença que as lâmpadas são numerosas e estão espalhadas por várias regiões do cérebro”.

Para finalizar – e mencionando mais uma vez Antonio Damasio -, tudo o que está sendo descoberto confirma sempre mais que “as raízes da mente humana se encontram em um organismo biologicamente complexo, frágil, finito e único… Talvez a coisa verdadeiramente indispensável que nós, como seres humanos, podemos fazer é lembrar a nós mesmos e aos outros, todos os dias, a nossa complexidade, fragilidade, finitude e unicidade. E o mais difícil: jamais mover o espírito de seu pedestal, preservando sua dignidade e importância, mas reconhecer sua vulnerabilidade, sua origem humilde e, assim mesmo, continuar pedindo que nos guie”.

Pesquisa: Equipe Planeta

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