Cérebro tende a descartar ideias contrárias, mesmo se bem fundamentadas

Estudo britânico mostrou que, quando há discordância, o cérebro não registra a força da ideia contrária, o que dá à pessoa menos motivos para mudar de opinião

Donald Trump: republicanos aceitavam bem pesquisas que indicavam sua vitória nas eleições de 2016, mesmo com a maioria delas indicando vitória de Hillary Clinton. Crédito: Gage Skidmore/Wikimedia

O cérebro rejeita uma informação que contradiz aquilo que já sabemos, o que, na maioria dos casos, significa que funciona bem, porque a princípio essa informação está correta. No entanto, quando um argumento contrário é bom, o cérebro leva isso em consideração? Um grupo de cientistas estudou uma área do cérebro que pode influenciar a forma como assimilamos opiniões contrárias.

A neurocientista Tali Sharot, da University College London, fez uma investigação para tentar responder às perguntas como “por que desenvolvemos um cérebro que descarta informações válidas quando essas informações não se encaixam na visão do mundo? Será uma falha na evolução humana?”.

Tentando responder a essas questões, Sharot realizou um conjunto de experiências para mostrar que o cérebro se recusa a aceitar a opinião de alguém que o contradiga, por mais convincente e válida que esta possa ser.

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No estudo, a pesquisadora colocou os participantes para jogar um game show do tipo do programa inglês “The Price is Right”, com o valor de vários imóveis, em que estes recebiam um preço e quem jogava precisava decidir se é mais alto ou mais baixo e determinar se apostaria um valor mais alto ou mais baixo, entre um e 60 centavos.

Força não registrada

O objetivo seria avaliar o grau de confiança das decisões de cada um. Em seguida, foram mostradas as decisões dos companheiros do jogo e era dada a opção de mudar a quantia apostada.

Para os cientistas, os resultados não foram surpresa. Quando um sujeito dava razão, o outro aumentava a aposta. E, se existisse alguém muito seguro da aposta que fez, então havia muito mais apostas a serem alteradas.

O mesmo não acontecia quando alguém apostava o contrário. “Descobrimos que quando as pessoas discordam, os cérebros não conseguem registrar a força da opinião da outra pessoa, o que lhes dá menos motivos para mudarem de opinião”, contou Andreas Kappes, investigador da Universidade de Londres e coautor do estudo.

“As nossas descobertas sugerem que mesmo que os argumentos sejam muito elaborados do outro lado, não vão convencer as pessoas mais motivadas, porque a discordância é suficiente para rejeitá-la. O não cumprimento da qualidade do argumento torna menos provável a mudança de pensamento”, acrescenta Kappes. Citada pelo jornal “El País”, Tali Sharot afirma que os cientistas deram um grande passo na compreensão do funcionamento do cérebro.

Estímulo à polarização

A equipe de cientistas, liderada por Sharot, observou a atividade cerebral dos participantes recorrendo a ressonâncias magnéticas. A área estudada foi concentrada na região do córtex pré-frontal, que é ativada quando se fala em confiança ou qualidade dos argumentos apresentados, o que nos pode levar a mudar de opinião ou de crenças.

Kappes explica que, se um indivíduo ouvir um médico muito confiante sugerir um tratamento, o córtex pré-frontal rastreia a confiança do médico e leva o indivíduo a ajustar a sua opinião de acordo com a crença que tem em relação à forma como se deve tratar.

O cientista afirma que o estudo ainda não está completo, uma vez que ainda não foi possível perceber por que motivo “as pessoas discordam e o cérebro não, dando às pessoas poucas razões para mudarem de ideias”.

“A tendência comportamental de descartar informações discrepantes tem implicações significativas para os indivíduos e para a sociedade, porque pode gerar a polarização e facilitar a manutenção de falsas crenças”, conclui Kappes.

Susana Martínez-Conde, especialista em autoenganos da mente, contou a “El País” que “esse estudo é um bom primeiro passo para estudar os mecanismos de viés de confirmação, porque eles encontram uma correlação com as diferenças dessa região do cérebro, mas isso ainda não explica a discrepância entre a nossa opinião e as evidências que nos contradizem.”

Trump como caso de estudo

Em relação ao estudo realizado por Sharot, Susana Martínez-Conde disse: “Ouvimos o que queremos ouvir e não aquilo que realmente ouvimos. Não damos o mesmo peso às opiniões que nos contradizem. O problema do viés de confirmação é muito mais amplo e profundo que as posições ideológicas”.

Os investigadores da Universidade de Londres estudaram um caso envolvendo a disposição para aceitar dados que nos contradizem, quando esses mesmo dados suportam aquilo em que queremos acreditar.

Em agosto de 2016, cidadãos norte-americanos foram questionados sobre quem venceria as eleições desse ano, e a maioria apostava em Hillary Clinton. Quando era mostrada uma pesquisa que apoiava essa mesma ideia, não existiam grandes alterações de opinião. No entanto, ao ser apresentada uma pesquisa em que Donald Trump aparecia como vencedor das eleições, os republicanos estavam dispostos a mudar de opinião. Embora acreditassem que Clinton seria a eleita, o seu desejo era que Trump vencesse.

Nesse caso, o cérebro recebeu bem os argumentos contrários às suas convicções.

 

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