Cientista místico

Em entrevista a PLANETA em 1995, o americano Edgar Mitchell, sexto homem a pisar na Lua, sublinhava a urgência de a humanidade aprender a conviver em harmonia com a natureza

Edgar Mitchell no Brasil, em 1995: pisar na Lua levou-o a repensar as questões fundamentais da filosofia
Edgar Mitchell no Brasil, em 1995: pisar na Lua levou-o a repensar as questões fundamentais da filosofia

Falecido em fevereiro, o astronauta americano Edgar Mitchell aliou com habilidade as visões científica e espiritual da existência. Uma amostra desse conhecimento de síntese está na entrevista concedida em 1995 a Inês Castilho, publicada no nº 280 de PLANETA e da qual se extraiu o excerto a seguir.

O que o sr. sentiu ao pisar na Lua?
Senti que a Terra é nosso berço e o cosmos, nosso lar. Ao ver a Terra do espaço, percebi que precisávamos repensar aquelas perguntas fundamentais que os filósofos sempre formularam: quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Graças à ciên­cia, podemos agora observar que há 400 milhões de anos as primeiras criaturas do mar se arrastaram até a terra; há 200 milhões de anos as primeiras criaturas voa­doras se lançaram ao ar; e que nossa geração deixou completamente a terra. A maioria de nós, eu inclusive, está tão ocupada com o cotidiano que raramente temos oportunidade de pensar sobre isso. Mas, agora que nossa civilização está em perigo, chegou a hora de refletir sobre essa perspectiva mais ampla.

Que perigos corre o nosso planeta?
Primeiramente, não sabemos se a Terra pode suportar a população que estamos impondo a ela. É praticamente certo que não podemos aguentar o aquecimento global resultante do efeito estufa provocado pela atividade industrial. A extinção de espécies ocorre em ritmo alarmante. A desertificação e a derrubada das florestas tropicais serão devastadoras para nossa vida. A poluição e o lixo que estamos produzindo, sem o manejo adequado, em breve vão nos sufocar. Para solucionarmos esses problemas, que são solucionáveis, temos de aprender a viver em harmonia com a natureza, sem nos sentirmos superiores a ela.

Qual é o modelo científico que o sr. desenvolve no livro The Way of the Explorer?
O modelo é muito próximo do budismo tibetano. Baseia-se em energia e informação, ou, dito de outra forma, em existência e conhecimento. Sabemos pela ciência que toda matéria é energia organizada. A outra face do nosso universo é que nós o conhecemos, temos consciência dele. Isso se dá porque todos os padrões de energia criam informação. Nosso conhecimento se baseia na consciência, e aquilo de que temos consciência é a informação, que são padrões de energia. Essa consciência é fundamental no universo. Os místicos sempre souberam disso, mas os cientistas, não. Estou certo de que a natureza tem tido consciência através de toda a sua história. Os povos primitivos sempre estiveram conscientes desse fato. Em outras palavras, toda matéria é, em certo grau, matéria consciente. Isso é óbvio em sistemas vivos, mas não parece tão óbvio em sistemas não vivos.

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