Cientistas criam embrião com células humanas e de macaco

Equipe de pesquisadores reacende debate ético ao injetar células-tronco humanas em blastocistos de macaco. Embrião conseguiu sobreviver por três semanas

Cientistas da China e dos Estados Unidos acabam de registrar um marco no campo da pesquisa com células-tronco: eles injetaram células-tronco humanas em blastocistos (estruturas iniciais do desenvolvimento embrionário em mamíferos) de macaco. No experimento, a equipe liderada por Juan Carlos Izpisua Belmonte conseguiu manter vivos alguns dos embriões compostos de dois materiais genéticos diferentes por até 20 dias. Tais organismos “mistos” também são conhecidos como quiméricos ou quimeras interespécie.

Izpisua Belmonte e sua equipe do Instituto Salk de Estudos Biológicos da Califórnia cooperaram com um grupo de pesquisadores chineses liderados por Weizhi Ji na Universidade de Ciência e Tecnologia de Kunming em Yunnan. O estudo sobre embriões quiméricos de humanos e primatas foi publicado nesta quinta-feira (15/04) na renomada revista científica “Cell”.

Quimeras de mamíferos têm sido feitas desde a década de 1970 para estudar os primeiros processos de desenvolvimento. A diferença é que, naquela época, os cientistas usavam roedores, e os organismos interespécies geralmente não sobreviviam por muito tempo. O grande passo que tornou o novo estudo possível veio no ano passado, quando a equipe chinesa da Universidade de Kunming desenvolveu uma tecnologia que permitiu que embriões de macaco permanecessem vivos e crescessem fora do corpo por um longo período de tempo.

“Historicamente, a geração de quimeras entre humanos e outros animais tem sido prejudicada por uma baixa eficiência e integração de células humanas na espécie hospedeira”, disse Izpisua Belmonte. Os avanços agora publicados na “Cell” ajudarão os cientistas a entender melhor como funcionam as quimeras e, por sua vez, como melhorá-las para pesquisas futuras.

Experimento bem-sucedido – mas com que fim?

Misturar células-tronco humanas com material genético de animais é uma intervenção significativa no curso da natureza. Os pesquisadores dizem, porém, ter boas razões para isso.

“Como não podemos conduzir certos tipos de experimentos em humanos, é essencial que tenhamos melhores modelos para estudar e compreender com mais precisão a biologia e as doenças humanas”, explicou Izpisu Belmonte.

Na “Cell”, os autores do estudo explicam ainda que seu trabalho de gerar quimeras com células-tronco humanas “pode constituir uma estratégia promissora para várias aplicações da medicina regenerativa, incluindo a geração de órgãos e tecidos para transplante.”

Contudo, o trabalho de Izpisu Belmonte e seus colegas também foi duramente criticado.

“Acho que a pesquisa é de uma qualidade muito baixa”, disse Alfonso Martinez Arias, professor afiliado do departamento de genética da Universidade de Cambridge, em um comentário sobre o estudo fornecido ao órgão independente Science Media Center, do Reino Unido. Com base nos dados fornecidos pelos pesquisadores, disse Martinez Arias, “é impossível ver o que eles dizem que está lá.”

“Cell” é um periódico revisado por pares. Isso significa que cada estudo publicado passa por um processo rigoroso no qual um painel de cientistas analisa o material e os resultados fornecidos pelos autores do estudo. O fato de o trabalho de Izpisu Belmonte ter sido publicado na “Cell” significa que nenhum dos especialistas que o revisaram compartilhou das preocupações de Martinez Arias.

O que é um ser humano?

O experimento também levanta questões éticas. No estudo atual, os embriões não sobreviveram aos 20 dias. Mas o que acontece quando a ciência finalmente chegar ao ponto em que quimeras como essas se transformarem em seres totalmente desenvolvidos?

“Esta pesquisa abre a caixa de Pandora para quimeras humano-não-humanas”, disse Julian Savulescu, diretor do Centro Uehiro para Ética Prática da Universidade de Oxford, em seu comentário ao Science Media Center. Para ele, a questão ética fundamental diz respeito a que tipo de criaturas seriam essas quimeras. Até que ponto elas podem pensar e sentir? Seria aceitável retirar destes seres órgãos que foram cultivados para fins de transplante?

“Qual é o status moral dessas novas criaturas?” questiona Savulescu. “Antes de qualquer experimento ser realizado em quimeras nascidas vivas, ou de extraírem seus órgãos, é essencial que suas vidas e capacidades mentais sejam avaliadas adequadamente.”

Anna Smajdor, professora associada de Filosofia Prática na Universidade de Oslo, foi mais longe:

“Essa descoberta reforça um fato cada vez mais inegável: as categorias biológicas não são fixas – elas são fluidas”, disse ela em seu comentário ao Science Media Center. “Os cientistas por trás dessa pesquisa afirmam que os embriões quiméricos oferecem novas oportunidades, porque ‘não somos capazes de conduzir certos tipos de experimentos em humanos’. Mas se esses embriões são humanos ou não é uma questão em aberto.”

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