Cientistas da USP desvendam origem das “asas” da nebulosa da Gaivota

Equipe internacional liderada por astrônomas da USP descobre como surgiram as “asas” da nebulosa e por que estrelas estão “fugindo” nessa região

Nebulosa da Gaivota: ícone celeste cercado de mistério. Crédito: Bob Franke, htt://bb-astro.coo/ic2111/ic2111.hto

Um grupo internacional liderado pela astrônoma brasileira Beatriz Fernandes, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USP), em parceria com o Instituto de Astrofísica de Paris, desvendou finalmente a origem da nebulosa Sh 2-296, que compõe a famosa nebulosa da Gaivota. O trabalho também revelou que três estrelas “em fuga” dessa região foram ejetadas por diferentes explosões de supernovas.

A nebulosa Sh 2-296, conhecida como a nebulosa da Gaivota, é uma extensa região no céu em forma de arco, associada à região de formação estelar Canis Major OB1, composta por estrelas jovens, gás e poeira. Sua origem foi um mistério por muitos anos. Trabalhos anteriores propuseram que ela poderia ser atribuída a uma antiga explosão de supernova, que teria desencadeado a formação de estrelas nessa região. Mas o cenário é bem mais complexo: existem estrelas jovens de várias idades no berçário estelar, e também não havia sido identificada a estrutura de concha deixada pela suposta explosão de supernova.

O trabalho liderado por Fernandes mostrou que a nebulosa da Gaivota é, na verdade, parte de uma gigantesca concha estelar descoberta pela equipe, que denominou a estrutura de “CMa shell” (concha CMa), e que foi formada por sucessivas explosões de supernovas. “Ao analisarmos imagens da associação CMa OB1, vemos claramente que a nebulosa Sh 2-296 é de fato parte de uma grande estrutura, que pode ser aproximada por uma grande concha elíptica”, contou Fernandes, que é pós-doutoranda no IAG-USP.

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A equite também identificou três estrelas que estão “fugindo” dessa região, associadas a estruturas de choque em forma de arco (bow shock), com uma origem comum perto do centro da concha CMa. “Descobrimos que as estrelas fugitivas provavelmente foram ejetadas de um aglomerado de estrelas progenitor, em três sucessivas explosões de supernovas ocorridas há aproximadamente 6 milhões, 2 milhões e 1 milhão de anos atrás”, explicou a astrônoma brasileira.

Imagem mostrando a região estudada, as três estrelas fugitivas e a posição original das estrelas (início das setas) antes de serem ejetadas pelas explosões de supernova. As setas indicam a direção do movimento das estrelas fugitivas. Crédito: Beatriz Fernandes
Sem novas estrelas

A descoberta foi possível empregando dados de vários observatórios, usando diversos tipos de emissões: raios X, visível, infravermelho e rádio. Foi também importante o uso de informações do satélite europeu GAIA, que está medindo a distância e os movimentos das estrelas de nossa galáxia. Todas essas informações permitiram pela primeira vez ter uma visão geral da formação estelar nessa região.

As sucessivas explosões de supernovas nos últimos 6 milhões de anos desencadearam vários surtos de formação estelar na nebulosa Sh 2-296, mas não é esperado que mais estrelas sejam formadas nessa região. Segundo Jane Gregorio-Hetem, professora do IAG-USP, “o trabalho da drª Beatriz desvendou o mistério sobre a história da formação estelar na Associação Canis Major OB1. Ela encontrou evidências de três eventos de explosão de supernovas que induziram o nascimento de estrelas há alguns milhões de anos. E, ao que tudo indica, não vão ocorrer mais episódios de formação estelar nessa região.”

Imagem mostrando uma das estrelas fugitivas e a frente de choque. A seta amarela indica a direção do movimento da estrela fugitiva. Crédito: Beatriz Fernandes

A pesquisa sobre a história de formação estelar na associação Canis Major OB1 foi realizada com apoio das agências financiadoras brasileiras CNPq, CAPES e FAPESP.