Cientistas descobrem vírus “do bem” na pele humana

Os chamados HPVs de baixo risco ajudam a evitar que seus portadores desenvolvam câncer de pele

O câncer de pele inicial, colonizado por um papilomavírus comensal, parece uma verruga para o sistema imunológico e é efetivamente eliminado. Crédito: Jon Messerschmidt

Os vírus têm má reputação como potenciais causadores de câncer, mas pelo menos uma classe desses microrganismos que geralmente vive na pele humana – os papilomavírus humanos (HPVs, na sigla em inglês) de “baixo risco” – parece desempenhar um papel involuntário na proteção contra o câncer de pele. A descoberta foi divulgada na revista “Nature”.

Existem mais de 100 cepas conhecidas de HPV, das quais apenas 12 são classificadas como de alto risco. Entre elas estão alguns tipos associados ao risco de câncer de colo do útero, vagina, pênis e ânus, e outros relacionados a cânceres de cabeça, pescoço e cavidade oral. Outros tipos são “caronas” comuns no corpo humano e apresentam risco baixo de causar doenças graves.

Pacientes cujos sistemas imunológicos foram suprimidos por doenças ou terapia médica têm um risco muito maior de câncer relacionado a infecções virais, principalmente o carcinoma espinocelular (CEC, na sigla em inglês) da pele. Embora vários estudos tenham tentado revelar uma ligação entre infecções por HPV e CEC, nenhum conseguiu mostrar que os HPVs realmente impulsionam o desenvolvimento desses cânceres de pele comuns, afirmam Shawn Demehri, pesquisador do departamento de Dermatologia e do Centro de Câncer do Hospital Geral de Massachusetts (MGH), e seus colegas.

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Trabalhando com modelos experimentais e amostras de tecido de câncer de pele humano, a equipe descobriu que a presença de papilomavírus “comensais” (formas de baixo risco do HPV que habitam a pele da grande maioria das pessoas) parece ter um efeito protetor indireto contra o CEC, em vez de originar efeitos nocivos.

Primeira evidência

“Esta é a primeira evidência de que os vírus comensais podem ter efeitos benéficos à saúde, tanto em modelos experimentais quanto em humanos, e acontece que esse efeito benéfico tem a ver com a proteção contra o câncer. O papel desses vírus comensais, neste caso os vírus do papiloma, é induzir imunidade que protege os pacientes de câncer de pele”, diz Demehri.

Em pacientes com sistema imunológico suprimido, a perda de imunidade, em vez dos efeitos causadores de câncer dos HPVs, é a razão do aumento de mais de 100 vezes no risco de câncer de pele, dizem os pesquisadores. Suas descobertas sugerem um novo método para prevenir o câncer de pele usando uma vacina baseada em células T, as células essenciais do sistema imunológico que identificam outras células como anormais ou estranhas e as marcam para destruição.

“As vacinas baseadas em células T contra HPVs comensais podem fornecer uma abordagem inovadora para aumentar essa imunidade antiviral na pele e ajudar a prevenir verrugas e cânceres de pele em populações de alto risco”, escrevem os pesquisadores.