A Academia Brasileira de Ciências (ABC) publicou ontem uma nota conjunta com a Academia Nacional de Medicina (ANM) sobre o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19 (COV-SARS2). Carta assinada em 12/4 pelos presidentes das duas casas conclui que a experiência já demonstrou que o uso precipitado de um medicamento baseado apenas em resultados preliminares pode trazer consequências graves e irreparáveis.

Confira a seguir a íntegra da nota:

 

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Academia Nacional de Medicina (ANM) manifestam-se publicamente sobre o uso da cloroquina (CQ) e da hidroxicloroquina (HCQ) no tratamento de pacientes portadores da covid-19 (COV-SARS2). Com o surgimento da pandemia mundial da covid-19 que contaminou centenas de milhares de pessoas, levando a óbito parte importante da população contaminada, cientistas de muitos países, incluindo do Brasil, têm desenvolvido projetos de pesquisa básica e pesquisa clínica na busca de medicamentos ou do desenvolvimento de vacinas, na tentativa de controlar esta pandemia de enormes consequências para a saúde pública e também para a economia mundial.

Uma estratégia adotada por muitos grupos de pesquisa em todo o mundo para controlar a pandemia da covid-19 foi testar medicamentos, já utilizados na clínica, para verificar sua capacidade em melhorar o prognóstico da covid-19. Esta estratégia, denominada reposicionamento de fármacos, utiliza medicamentos já aprovados pelas agências reguladoras mundiais. Entre dezenas de medicamentos testados que mostraram resultados promissores em experimentos in vitro (teste de laboratório utilizando cultura de células) encontram-se a CQ e a HCQ.

A partir dessas descobertas in vitro, têm sido desenvolvidos estudos clínicos (em pacientes portadores da covid-19), inicialmente na China e posteriormente em outros países, com o objetivo de confirmar se as evidências promissoras observadas nos testes em laboratório poderiam ser confirmadas em pacientes portadores da covid-19. Alguns desses estudos, testando poucos pacientes, encontram-se publicados até este momento e são, portanto, preliminares. Os resultados desses estudos preliminares são controversos. Alguns estudos sugerem boa eficácia em alguns parâmetros clínicos (nenhum deles indicam a melhora de sobrevida) e outros sugerem inclusive risco à saúde dos pacientes com covid-19 que usaram a medicação. Não há, portanto, qualquer evidência comprovada clinicamente de benefício do uso de CQ ou HCQ e há relatos de efeitos colaterais potencialmente significativos. Como ocorre com todos os medicamentos usados atualmente na clínica, a CQ e a HCQ não são isentas de efeitos adversos importantes, incluindo arritmias cardíacas – podendo causar parada cardíaca –, toxicidade hepática e problemas de visão, entre outros.

Em medicina, busca-se a sempre a demonstração inequívoca da segurança e da eficácia, por meio de estudos utilizando boas práticas de pesquisa clínica, que resultam em protocolos recomendados internacionalmente e endossados por todas as agências regulatórias, inclusive a Anvisa. Estudos com boas práticas clínicas são indispensáveis para a confirmação da eficácia e segurança de qualquer medicamento. Além da necessidade de prova científica da eficácia clínica da CQ e HCQ no tratamento da covid-19, questões importantes como o esquema de tratamento e o período do ciclo da doença onde esses dois medicamentos deveriam ser empregados permanecem ainda sem resposta. Atualmente, com apoio da Organização Mundial da Saúde, das indústrias farmacêuticas e de organizações da sociedade civil, dezenas de estudos clínicos estão sendo conduzidos em todo o mundo, utilizando dezenas de milhares de pacientes para confirmar se esses dois medicamentos têm ou não eficácia no tratamento da covid-19 e quando seriam benéficos no decorrer da doença. É importante ressaltar que o esforço mundial e brasileiro para estudar os efeitos da CQ e HCQ não tem precedentes na história mundial, tanto em termos de engajamento das agências de financiamento como da comunidade científica e médica.

Pelas razões mencionadas acima, a ABC e a ANM alertam que o uso indiscriminado da CQ e HCQ, no atual momento, não está apoiado em achados científicos robustos e publicados nas melhores revistas cientificas mundiais. Assim, enquanto não estiverem disponíveis os resultados dos estudos clínicos que estão sendo conduzidos em todo o mundo com esses dois medicamentos, testando número adequado de pacientes, de acordo com as melhores práticas cientificas, seus usos no tratamento de pacientes portadores da covid-19 devem ser restritos a recomendações de especialistas com consentimento do paciente ou de sua família e cuidadoso acompanhamento médico.

A experiência cientifica já demonstrou, mais de uma vez, que o uso precipitado de um medicamento baseado apenas em resultados preliminares, na intuição ou no simples desejo de ajudar as pessoas, em grande parcela da população, sem a devida comprovação experimental da sua eficácia e sem esquema de tratamento e segurança, pode trazer consequências graves e irreparáveis para a população. Além disso, o uso generalizado de uma medicação com efeitos não claramente estabelecidos pode impactar negativamente no avanço e teste de outros compostos eventualmente mais eficazes.

A ciência definitivamente não caminha na mesma velocidade de atitudes precipitadas que recomendam o uso de medicamentos, ainda não estudados cientificamente, para tratar pacientes portadores de uma pandemia pouco conhecida e, sobretudo, complexa como é o caso da covid-19. No entanto, é o único caminho para desenvolver estratégias eficazes para sua prevenção e tratamento.

 

Rio de Janeiro, 12 de abril de 2020

 

Luiz Davidovich

Presidente

Academia Brasileira de Ciências

http://www.abc.org.br

Rubens Belfort Mattos Junior

Presidente

Academia Nacional de Medicina

http://www.anm.org.br