Cientistas encontram mesquita das primeiras décadas do Islã em Israel

Templo escavado em Tiberíades indica que líderes muçulmanos da época praticavam a tolerância em relação a outras religiões

Sítio arqueológico em Tiberíades onde os vestígios na mesquita foram encontrados. Crédito: Universidade Hebraica de Jerusalém

Arqueólogos descobriram em Tiberíades (Israel) vestígios de uma mesquita construída por volta de 670 d.C., de acordo com publicações como os jornais “The Guardian” e “The Times of Israel”. As fundações dessa mesquita, escavadas ao sul do Mar da Galileia pela Universidade Hebraica de Jerusalém, sugerem que ela foi construída cerca de uma geração após a morte do profeta Maomé. Isso faz dela um dos primeiros templos muçulmanos a serem estudados por arqueólogos.

A descoberta foi anunciada em uma conferência virtual no fim de janeiro por Katia Cytryn-Silverman, especialista em arqueologia islâmica da Universidade Hebraica que chefia a escavação. O achado foi resultado de 11 anos de trabalho dos arqueólogos.

Outras mesquitas erguidas na mesma época, como a Mesquita do Profeta, em Medina, a Grande Mesquita de Damasco e a mesquita Al-Aqsa, de Jerusalém, ainda estão em uso hoje e não podem ser adulteradas por arqueólogos. Por isso, salientou Cytryn-Silverman, escavar a mesquita de Tiberíades permite uma rara chance de estudar a arquitetura das casas de orações muçulmanas em sua etapa inicial e indica que os primeiros líderes islâmicos tinham uma prática de tolerância em relação a outras religiões.

Passado pouco conhecido

Antes da mesquita de Tiberíades, os vestígios mais antigos de templo islâmico descobertos haviam sido encontrados a leste de Bagdá (Iraque), na antiga cidade de Wasit, e datados de 703 d.C.

Na época de construção da mesquita, Tiberíades foi governada por muçulmanos por algumas décadas. Batizada em homenagem ao segundo imperador de Roma por volta de 20 d.C., a cidade foi um importante centro da vida e da cultura judaica por quase cinco séculos. Antes de exércitos muçulmanos a tomarem, em 635, a cidade bizantina abrigava uma constelação de locais sagrados cristãos ao longo do litoral do Mar da Galileia.

Sob o domínio muçulmano, Tiberíades se tornou uma capital provincial no início do império islâmico e cresceu em importância. Os primeiros califas construíram palácios em seus arredores ao longo da margem do lago. Mas, até recentemente, pouco se sabia sobre o passado muçulmano da cidade.

Gideon Avni, arqueólogo-chefe da Autoridade de Antiguidades de Israel, que não esteve envolvido na escavação, disse que a descoberta ajuda a resolver um debate acadêmico sobre quando as mesquitas começaram a padronizar seu desenho, voltadas para Meca. “Nos achados arqueológicos, era muito raro encontrar as primeiras mesquitas”, disse ele.

Fundações da mesquita do século 7 descoberta em Tiberíades. Crédito: Universidade Hebraica de Jerusalém
Semelhanças com mesquitas da época

As escavações arqueológicas em torno de Tiberíades ocorreram aos poucos durante o século passado. Nas últimas décadas, a cidade antiga começou a revelar outros edifícios monumentais de seu passado. Entre eles estão um teatro romano de tamanho considerável, com vista para o lago, e uma igreja bizantina.

Desde o início de 2020, a pandemia de coronavírus interrompeu as escavações e uma vegetação rasteira cresceu sobre as ruínas. A Universidade Hebraica e seus parceiros, do Instituto Protestante Alemão de Arqueologia, planejam reiniciar a escavação este mês.

As escavações iniciais do local, nos anos 1950, levaram os arqueólogos a acreditar que o edifício era um mercado bizantino, mais tarde usado como mesquita. Mas as escavações de Cytryn-Silverman e sua equipe aprofundaram-se sob o solo. Moedas e cerâmicas aninhadas na base das fundações ajudaram a datá-las por volta de 660-680 d.C., apenas uma geração após a captura da cidade. As dimensões do edifício, a planta baixa com pilares e a qibla, ou nicho de oração, eram muito semelhantes às de outras mesquitas do período.

Avni disse que por muito tempo os acadêmicos não tinham certeza do que acontecera com as cidades do Levante e da Mesopotâmia conquistadas pelos muçulmanos no início do século 7. “Opiniões anteriores diziam que havia um processo de conquista, destruição e devastação”, disse ele. Hoje, disse ele, os arqueólogos entendem que houve um “processo bastante gradual, e em Tiberíades você vê isso”.

Tolerância e coexistência

A primeira mesquita construída na cidade recém-conquistada estava lado a lado com as sinagogas locais e a igreja bizantina que dominava o horizonte. Essa fase inicial da mesquita era “mais humilde” do que uma estrutura maior e mais grandiosa que a substituiu meio século depois, disse Cytryn-Silverman. “Pelo menos até a monumental mesquita ser erguida no século 8, a igreja continuou a ser o edifício principal em Tiberíades”, acrescentou ela.

A arqueóloga diz que isso apoia a ideia de que os primeiros governantes muçulmanos – que governavam uma população predominantemente não muçulmana – adotaram uma abordagem tolerante em relação a outras religiões, permitindo uma “era de ouro” de coexistência. “Você vê que o início do domínio islâmico aqui respeitou muito a população que era a principal da cidade: cristãos, judeus, samaritanos”, disse Cytryn-Silverman. “Eles não tinham pressa em fazer sua presença expressa em edifícios. Eles não estavam destruindo as casas de orações dos outros, mas, na verdade, estavam se encaixando nas sociedades das quais agora eram líderes.”

Há suspeitas de que a mesquita de Tiberíades teria sido fundada por Shurahbil ibn Hasana, comandante do exército muçulmano que conquistou a área. “Não podemos dizer com certeza que era de Shurahbil”, disse Cytryn-Silverman. “Mas temos fontes históricas que dizem que ele fundou uma mesquita em Tiberíades quando a conquistou em 635.”

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