Cientistas propõem nevascas artificiais na Antártida contra subida do mar

Pine Island: uma das geleiras escolhidas para o projeto dos cientistas alemães. Foto: Nasa/Brooke Medley.

Técnica exigiria usar gigantescas quantidades de energia para fabricar neve, mas seria viável, dizem pesquisadores alemães

 

A geoengenharia entra em ação (pelo menos em nível teórico) novamente com uma proposta grandiosa para evitar o aumento do nível do mar: em artigo publicado na revista “Science Advances”, cientistas alemães propõem a criação de nevascas artificiais nas geleiras Pine Island e Thwaites, na Antártida, a fim de diminuir sua taxa de fluxo de gelo.

Segundo Johannes Feldmann e seus colegas do Instituto de Pesquisa de Impacto Climático de Potsdam, as duas geleiras, situadas na parte ocidental do continente gelado, estão fluindo cada vez mais rapidamente para o Oceano Antártico. Atualmente, elas respondem por cerca de meio milímetro para a elevação global do nível do mar por ano. Mas se seu fluxo for drasticamente aumentado, a subida poderá chegar a três metros, ameaçando cidades litorâneas como Rio de Janeiro, Nova York e Tóquio.

 

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Feldmann e seus colegas querem evitar isso por meio do bombeamento de grandes quantidades de água do mar para as encostas das geleiras. Isso aumentaria seu peso e atrasaria o avanço das geleiras rumo ao mar.

 

Tarefa possível

As dimensões da obra são gigantescas: segundo o estudo, seriam necessárias dezenas de metros de neve por ano em uma área com metade do tamanho da Islândia (ou seja, pouco menor do que a do Rio Grande do Norte). Mas os cientistas não consideram isso impossível.

Para começar, seria preciso bombear toda a água do nível do mar para cerca de 640 metros, altitude calculada como adequada para a massa extra de neve. Só essa tarefa exigiria 145 gigawatts de energia (algo como a produção de 12 mil turbinas eólicas de última geração). Também seria necessário dessalinizar a água, para impedir que o sal derreta o gelo, outra ação que demanda muita energia. E o processo de pulverização da água no ar para ela cair como neve – tecnologia comumente usada por áreas de esqui alpino em anos de precipitações fracas – requer ainda mais energia.

Como qualquer projeto de geoengenharia, este tem sido visto com desconfiança pela comunidade científica. Feldmann e seus colegas reconhecem que há muitas variáveis a serem avaliadas – uma delas, citada por eles mesmos, seria que a operação criaria muito ruído subaquático prejudicial a mamíferos marinhos e romperia ecossistemas oceânicos ao alterar o fluxo de água perto das estações de bombeamento. Mas, lembram os cientistas, a proposta é uma “prova de conceito”.