"Ciganos", as outras grandes vítimas do genocídio nazista

Em 2 de agosto de 1944, 4.300 membros de etnias nômades foram assassinados no campo de Auschwitz-Birkenau. A data é Dia Memorial do Holocausto para os Sinti e Roma. Mas só recordar suas terríveis histórias não basta.”Banetla querida”, escrevia Margarete Bamberger a sua irmã em Berlim. “Tenho que te comunicar que meus dois filhos menores morreram.” A carta foi mandada em 1943, escondida, a partir do assim chamado “campo dos ciganos” em Auschwitz-Birkenau, onde a signatária estava confinada com o marido e os filhos.

Na carta, ela pedia óleo de fígado de bacalhau, xarope para tosse, vitamina C, sabão em pó e um remédio contra sarna, “e mesmo que seja coisa pequena, aqui nos ajuda muito”. O real horror da situação está contido numa mensagem em código: “Saudações especiais de Baro Nasslepin, Elenta e Marepin” – grande moléstia, miséria e assassinato, no idioma romani. O casal sobreviveu, todos os seus filhos morreram.

Essa carta é um dos 60 testemunhos que se pode ler, em alemão, inglês e romani, no portal online Voices of the Victims. Sob a coordenação da historiadora Karola Fings, pesquisadores europeus coletaram correspondência e declarações de perseguidos das etnias nômades sinti e roma, durante e após a Segunda Guerra Mundial.

O diferencial do portal, frisa Fings, é que quem tem a palavra não são os criminosos, mas sim os próprios representantes da minoria, originários de 20 países: Alemanha, Áustria, Croácia, Belarus, Bélgica, Bósnia e Herzegovina, Eslováquia, Estônia, França, Holanda, Hungria, Itália, Letônia, Polônia, República Tcheca, Romênia, Rússia, Sérvia, Suíça e Ucrânia.

Os textos datam da época da perseguição ou de pouco depois, quando as vítimas puderam depor sobre os crimes de que foram alvo e testemunhas, e tentaram levar os perpetradores ao tribunal, explica a pesquisadora do anticiganismo da Universidade de Heidelberg, na Alemanha.

Sem piedade pelas crianças

Assim como os filhos de Margarete Bamberger, a grande maioria dos internos de Auschwitz-Birkenau sucumbiu à fome, doenças e violência. A noite de 2 para 3 de agosto de 1944 constituiu o “pavoroso clímax” da campanha racista contra os sinti e roma, relata Fings: é quando a força paramilitar nazista SS dissolve o campo das famílias e mata com gás tóxico 4.300 mulheres, homens e crianças, em meio a seus gritos e choro.

Entre estes estava Gretel, filha de Zilli Schmidt, assassinada aos 4 anos de idade, juntamente com os avós e a tia – esta, por sua vez, acompanhada de seus seis filhos. Zilli fora transportada pouco antes para outro campo, assim como outros presos aptos a trabalhar.

Quando ela tentou deixar o trem para se juntar a sua família, o médico da SS Josef Mengele lhe deu uma bofetada e a forçou a voltar. “Ele salvou a minha vida, mas com isso não me fez nenhum favor”, lamenta a sobrevivente. Hoje, quase centenária, Zilli Schmidt é reconhecida por seu trabalho pela memória dos sinti e roma.

Por sua vez, quatro dos filhos de Franziska Kurz foram colocados no lar para crianças católico Sankt Josefspflege, e de lá, deportados. Em 1946, a mãe contava numa carta à madre superiora do asilo que a polícia lhe comunicara verbalmente “que meus quatro filhos se encontravam em Auschwitz”.

“O que o senhor ainda quer com as minhas pobres crianças?”, ela perguntou. A resposta sumária: “Exterminar.” Além disso, a advertiram para “ficar quieta”, senão também ela e sua filha mais nova, Maria, poderiam parar num campo de concentração.

Otto, Sonja, Albert e Thomas foram assassinados em Auschwitz. Das 39 crianças em Sankt Josefspflege, apenas quatro sobreviveram, a Igreja Católica não as protegeu.

Igreja Católica se esquiva

Não se trata de um caso isolado. Em maio de 1943, quando pairava a ameaça de deportação e esterilização compulsória, Oskar Rose escreveu ao arcebispo de Breslau (hoje Wroclaw, Polônia): “Se a nossa Igreja Católica não nos tomar sob sua proteção, estamos expostos a uma medida que, tanto do ponto de vista moral quanto legal, é um escárnio a toda noção de humanidade.” Tratava-se de “14 mil membros da Igreja Católica Romana”, sublinhou.

Nem este nem outros pedidos de socorro surtiram efeito. Em contraste, conta Karola Fings, há exemplos na Iugoslávia e na União Soviética ocupadas, “em que comunidades muçulmanas protegeram os roma, não os entregando”.

Onde quer que os nacional-socialistas avançassem, na Europa, os sinti e roma eram perseguidos e tinham que lutar pela própria vida. Muitos foram assassinados nos campos ou em fuzilamentos em massa: “Variava de acordo com a política de ocupação e os parceiros de aliança”, explica Fings.

Na Polônia ocupada, além dos campos de extermínio, sabe-se de cerca de 180 locais de massacres. Também na Iugoslávia e URSS, “a maioria das vítimas não foi assassinada em campos, mas sim fuzilada imediatamente”.

Na Boêmia e Morávia (hoje República Tcheca) ocupadas, os de etnia nômade eram confinados nos campos de Lety e Hodonin, antes da deportação para Auschwitz. Na Croácia, Jasenovac era “um campo especialmente cruel, em que muitos foram espancados até a morte”.

Croácia: “Trazidos aqui para morrer”

Josip Joka Nikolic era músico: “Desde que nasci até 1942, vivi com a minha família na localidade de Predavec”, relata. Até que gendarmes e membros do pró-fascista Ustasa – Movimento Revolucionário Croata invadiram a casa, levando embora sua família e outras, supostamente a fim de realocá-las, “do homem mais velho até a criança mais nova”.

Nikolic, sua esposa e a filha de oito meses, seus pais, os irmãos com as respectivas famílias, são todos colocados num vagão de gado e transportados para o campo de concentração de Jasenovac. Aí o croata compreendeu: “Nos trouxeram aqui para morrer.”

Ele foi separado violentamente da mulher e da filha, e pouco depois levado para execução, com outros homens, porém conseguiu fugir e unir-se ao movimento de resistência. Toda sua família morreu no campo de concentração. Em 1952, depôs no processo contra o ministro do Interior do Estado Independente da Croácia (USK), que, no entanto, fugira para os Estados Unidos.

Sérvia: “Meu filho morreu porque eu não podia amamentar”

Milena Stankovic relata como, em 1941, os alemães cercaram seu bairro em Belgrado e “dois agentes e dois gendarmes da segurança estatal sérvia invadiram a nossa residência”. O marido e um irmão eram funcionários da administração municipal, seu enteado, músico, um outro irmão, pedreiro. Todos tinham filhos e a cidadania sérvia.

Os homens foram parar no campo de concentração, do mesmo modo que um total de 1.500 roma. Alguns dias mais tarde, foram fuzilados fora da cidade. Um mês depois os ocupadores nacional-socialistas e as autoridades sérvias colocaram também as mulheres e seus filhos em caminhões e os levaram para um campo de concentração, sob frio e fome extremos. “Meu filhinho mais novo faleceu, porque eu não podia mais amamentar”, relata Mirkovic.

Quem podia comprovar residência fixa foi liberado mais tarde, alguns vizinhos se empenharam nesse sentido. Outros presos foram assassinados, possivelmente junto com detentos judeus. Em agosto de 1942, o chefe da administração militar alemã na Sérvia declarava que este era o único país onde “a questão judaica e cigana” estava “resolvida”.

Hungria: “Arrancado da barriga a tiros de metralhadora”

Angela Lakatos estava nos últimos dias de gravidez, com cãimbras, quando 30 a 40 gendarmes entraram em seu assentamento roma no oeste da Hungria e a expulsaram. Quando ela grita por socorro, um dos agentes comenta: “Vocês têm é que se acabar.” Num celeiro, são trancafiados 120 moradores. Quem pede água para as crianças é espancado.

Primeiro foram levados embora os homens, depois as mulheres mais jovens. Uma outra grávida não conseguia mais andar, um gendarme a golpeou, outro “atirou de metralhadora na barriga dela até o bebê cair para fora”. Lakatos e os demais foram levados até uma vala: “Lá eu vi o meu pai caído, morto, e os meus dois irmãos. Eu mesma meio saltei, meio caí dentro do buraco.”

Ela cobre o rosto com o lenço “para não ver o que estava vindo; mas aí começam a chover tiros”, e recebe oito disparos, no braço, na perna, no ventre. Outros caem por cima dela, seus corpos aparam as balas. Horas mais tarde, ela rasteja para fora da fossa.

Angela Lakatos sobreviveu gravemente ferida, tendo perdido toda a família e o filho ainda por nascer. Após o fim da guerra, ela depôs como testemunha contra o comandante József Pintér, enfatizando o procedimento metódico. O réu foi condenado como criminoso de guerra e, em 1948, executado, como um dos poucos a pagarem por crimes de homicídio contra os roma.

Rússia: “Tocados a chicote, que nem gado”

Lidija Nikiticna Krylova relata o “crime de pesadelo” que invasores alemães cometeram na aldeia de Aleksandrovka”, em abril de 1942, “contra cidadãos soviéticos amantes da paz, os membros do kolkhoz nacional roma”. Um oficial nazista leu um a um os nomes dos moradores numa lista, os não ciganos foram mandados para casa.

As famílias roma, por sua vez, são “tocadas que nem gado”, a chicotadas, têm que se despir e se postar ao longo de uma vala. Os filhos mais velhos são mortos diante dos olhos das mães, os bebês são depois arrancados de seus braços e lançados fossa abaixo.

Mas “nem só as crianças são atiradas vivas no buraco”, relata a sobrevivente, os alemães também empurram uma idosa doente. Krylova e outros escapam no último momento de serem fuzilados. Mais tarde, deporão nas investigações soviéticas sobre os crimes de guerra nazistas.

Excluídos das reparações de guerra

O Parlamento Europeu declarou o 2 de agosto Dia Memorial Europeu do Holocausto para os Sinti e Roma. No entanto, em muitos países do continente até hoje há pouca consciência de que, assim como os judeus, também as etnias nômades foram objeto de um genocídio sistemático, aponta Karola Fings.

Na Alemanha, o genocídio foi negado durante décadas. Criminosos na polícia deram continuidade à mentalidade racista ao cuidar dos dossiês dos nazistas, impedindo o reconhecimento da perseguição. Isso, segundo a historiadora responsável pelo portal Voices of the Victims, constitui mais um trauma para os sobreviventes que segue pesando sobre a segunda e a terceira gerações.

Fings integrou a Comissão Independente Anticiganismo, instituída em 2019 pelo Ministério do Interior da Alemanha. Além do reconhecimento inequívoco do genocídio dos sinti e roma e do esclarecimento por uma Comissão da Verdade, ela reivindica que haja também compensação material, e não só na Alemanha.

“Isso se aplica àqueles que vivem em outros países, sobretudo do Leste Europeu, que depois de 1945 foram totalmente excluídos de uma indenização:” Além disso, a Comissão exige que – como no caso dos judeus perseguidos pelo regime nacional-socialista e seus descendentes – a Alemanha assuma a responsabilidade para que “homens e mulheres roma sejam reconhecidos como grupo especialmente necessitado de proteção”.

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