Cigarras e formigas

O Brasil está crescendo com mais distribuição de renda, empregos e educação.

Marcelo Neri, economista do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas, é especialista em políticas sociais e autor do livro A Nova Classe Média: o Lado Brilhante dos Pobres (Editora Saraiva).

Nos últimos dez anos, o Brasil passou por grandes transformações e crescimento econômico contínuo que o induziu a figurar entre os países em desenvolvimento acelerado do grupo BRICS (sigla em inglês composta pelas iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Com a expansão formou-se uma nova classe média, composta por trabalhadores vindos das classes D e E. Entre 2004 e 2011, 40 milhões ascenderam à categoria de classes médias (A, B e C) e 25 milhões saíram da pobreza. Atualmente, o país possui 105 milhões de pessoascom renda mensal entre R$ 1.700 e R$ 7.400 e a tendência é que esses números cresçam nos próximos anos.

A nova classe média é formada por pessoas jovens, com expressiva fatia de afrodescendentes, dotadas de nível de escolaridade deficiente (mas em alta) e já inseridas no mercado de trabalho formal. Ela se tornou preponderante do ponto de vista econômico e eleitoral. No entanto, gente com mais poder aquisitivo, automaticamente, consome mais. Para o meio ambiente, isso significa uma frota maior de veículos nas ruas, aumento no consumo de combustíveis e agravamento dos problemas do trânsito. Também aumentam a construção civil, o preço dos imóveis, o consumo de carne, a pecuária, e, em consequência, a poluição e as emissões de gás carbono na atmosfera.

O economista carioca Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas, PhD pela Universidade de Princeton (EUA), é especialista em políticas sociais e distribuição de renda. Nesta entrevista à PLANETA, Neri analisa o impacto da nova classe média no consumo, no ambiente e na sociedade e mostra os desafios à frente dos brasileiros.

Nos últimos dez anos houve grande mobilidade social no Brasil e aumento do consumo. Como isso aconteceu?

Já temos 105 milhões de pessoas na classe média brasileira, 55% de uma população de 190 milhões. Segundo as projeções, ela chegará a 118 milhões em 2014, o que corresponderá a 60% do total. Junto com o crescimento, ocorre redução da desigualdade entre pobres e ricos, que está caindo no Brasil pelo décimo segundo ano consecutivo. Nos últimos dez anos, a renda da metade mais pobre cresceu 68%, enquanto a fatia dos mais ricos cresceu 10%. Outros países do grupo BRICS, como a China e a Índia, estão crescendo mais, é verdade, porém, a desigualdade social lá aumenta, e aqui cai. Nesses países, quem já estava na classe média se beneficiou. No Brasil, quem subiu é quem estava lá embaixo. Diminuiu a miséria.

A nova classe média ascende com demandas reprimidas de consumo.

O fenômeno é passageiro?

Não, a nova classe média veio para ficar, pois tem bases sustentáveis. O crescimento é contínuo, apesar das crises financeiras. Planos assistenciais do governo, como o Bolsa Família, e o aumento do crédito ao consumidor contribuíram. Mas o principal é que o número de trabalhadores que saíram da informalidade e passaram a ter carteira assinada dobrou desde 2004. O principal motor desse processo foi o aumento da escolaridade da população, pois, em 1990, 16% das crianças entre 7 e 14 anos estavam fora da escola e hoje esse número caiu para 2%. Com isso, mais pessoas escolarizadas chegaram ao mercado de trabalho e conseguiram emprego formal. Outro fator decisivo é que no Brasil, entre 2003 e 2009, o índice de produção cresceu 38% mais rápido que o de consumo. Nos termos da fábula de La Fontaine, esses índices sintetizam, na mesma métrica, o lado “formiga” dos brasileiros, da garra de progredir, e o lado “cigarra”, da vontade reprimida de consumir.

O senhor acha que o nosso desenvolvimento está sintonizado com a transição para uma economia de baixo carbono?

Embora a questão ambiental ainda deixe a desejar no Brasil, o desmatamento na Amazônia também caiu, nas últimas décadas. A China é a ovelha negra dos BRICS, devido à alta emissão de gás carbônico. Isso não acontece no Brasil, pois temos uma matriz energética bastante limpa, baseada em usinas hidrelétricas. Outro ponto a favor é o uso de combustíveis provenientes de fontes renováveis, como o etanol. Temos condições de sustentar um crescimento verde maior do que os outros países, graças às nossas próprias condições territoriais e naturais. Além disso, o brasileiro se identifica com a causa verde e a nossa mentalidade não é a de crescer a qualquer custo, mas crescer com qualidade, preservando o meio ambiente – uma espécie de caminho do meio entre o econômico, o social e o ambiental. O governo federal, por sua vez, instituiu o Bolsa Verde em 2011, com o objetivo de apoiar, com contrapartidas financeiras, a prestação de serviços ecológicos em áreas de preservação. Essa é uma ideia iniciada em Minas Gerais e na cidade do Rio de Janeiro que está sendo estendida a todo o país como complemento ao Bolsa Família.

Em tempo de Rio+20, como o país poderia estimular a transição para uma economia de baixo carbono, na indústria e no setor energético? Coreia do Sul e China estão adiantados nessa agenda, mas o Brasil parece se concentrar só no controle do desmatamento.

O Brasil possui uma invejável plataforma de políticas públicas, a começar pelo Cadastro Social Único e o Bolsa Família, que são provas de eficiência e de protagonismo. Tenho participado do desenho de programas integrados nos três níveis de governo do Rio de Janeiro e vejo resultados surpreendentes. Quando se atacam os problemas de maneira integrada nesse novo federalismo social, nas vertentes econômica, social e ambiental, ou ainda juntando atores diversos como alunos, pais e professores, no caso da educação, o resultado total é maior do que a soma das partes. Temos meios para chegar a fins comuns superiores por intermédio de sinergias em que a internet e as redes sociais podem desempenhar papéis centrais. É preciso mobilizar a sociedade na linha do “um por todos e todos por um”.

O aumento crescente da frota de carros, o consumo de carne e a expansão da construção civil contribuem para um desenvolvimento sustentável?

Um dos efeitos colaterais da ascensão da nova classe média é a pressão sobre a infraestrutura do país. Embora o trânsito tenha piorado no Rio e em São Paulo, não é tão grave quanto em Moscou, Nova Délhi e Xangai, por exemplo. Mas pode piorar mais: se cada um buscar a sua solução individual, ficaremos todos engarrafados em nossos veículos. O uso do Bilhete Único e outras conquistas no transporte coletivo, como linhas exclusivas de ônibus e o diesel verde, são indícios de que essa mentalidade está começando a mudar. Mas ainda é cedo para se fazer

Como seria um modelo de economia verde?

Acho que deveria ser um modelo de desenvolvimento inclusivo e sustentável. Inclusivo no sentido de incluir economicamente a população na sociedade democrática, sob o ponto de vista político e institucional. Sustentável no sentido de levar em conta o uso e a preservação dos recursos naturais, que existem em abundância em nosso país, mas não devem ser utilizados de maneira predatória.

A nova classe média está preparada para o consumo consciente

Não tanto quanto eu gostaria. As pessoas que ascenderam apresentam demandas básicas muito reprimidas, como alimentação, por exemplo. Por isso está ocorrendo um visível aumento no peso dos brasileiros. São pessoas que nunca tiveram muito dinheiro para se alimentar. Há todo um aprendizado a ser vivido e existem desafios grandes. Um dos nossos adversários é o excesso de otimismo do brasileiro, a mania de achar que tudo irá se resolver por si.

Apesar dos avanços e da diminuição da desigualdade, existem problemas crônicos no país, como transporte precário e deficiência na educação e na saúde públicas. Dá para resolver?

Somos muito individualistas. Os grandes problemas do Brasil são coletivos e exigem ações de toda a sociedade. Assim aconteceram as conquistas da democracia, da estabilização econômica e da maior formalidade no trabalho da década passada. Ainda falta revolver questões graves como corrupção, crimes, iniquidades na educação e no meio ambiente. O saneamento, por exemplo, integra a chamada agenda ambiental verde e marrom, menos charmosa que a “agenda verde pura”. Se falta água ou luz, o indivíduo reclama. Já com a falta de esgoto coletado e tratado é problema dos outros. Quando se aumenta a renda dos pobres, eles não contratam serviços de esgoto. A carência é grande. Entretanto, vejo positivamente as chances de o Brasil melhorar por meio de um ciclo virtuoso de conquistas já obtidas e pela ampliação da nossa plataforma de políticas públicas. Para isso, desenvolvemos projetos baseados no modelo Ouput Based Aid, que remunera as empresas de saneamento na medida em que elas oferecem serviços efetivos à população mais pobre.

A expansão da construção civil também encarece o preço dos imóveis.

O que podemos esperar para os próximos anos?

O Brasil está numa trajetória correta, com bom desempenho na economia, especialmente se comparado com o resto do mundo no período recente. É claro que temos muitos desafios pela frente. A nossa expectativa é de incorporar mais 12 milhões de pessoas à classe C e mais 7 milhões às classes A e B até 2014. A desigualdade deve seguir em queda, mas é preciso implantar uma agenda mais protagonista com ações para o meio ambiente, a redução da criminalidade e o saneamento, entre outras prioridades coletivas.

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