Cirurgia de Identidade

No Brasil, em 2011, foram realizadas 2,5 mil cirurgias plásticas por dia. Muitas adolescentes já se submetem à cirurgia estética.A ditadura da beleza e da eterna juventude se impõe cada vez mais cedo.

No seu desfile de 1999, a escola de samba carioca do grupo especial Caprichosos de Pilares levou para a Sapucaí uma homenagem ao Dr. Ivo Pitangury, maior ícone da cirurgia plástica do Brasil e expressão mundial no campo. Curiosamente, a rainha da bateria foi Valeria Valensa, a “Globeleza”, que recorreria ao bisturi tempos depois. Naquele ano, o Brasil tinha 3,5 mil cirurgiões especializados e fazia 300 mil procedimentos – 820 por dia -, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). Desde então, a cirurgia plásticas vem “levantando”muito mais gente do que aquele desfile de Carnaval – quando a escola ficou em nono lugar.

Os últimos dados divulgados pela SBCP, este ano, referentes ao ano de 2011, mostram que o volume de cirurgias triplicou. Na média, foram realizadas 2,5 mil cirurgias plásticas por dia, somando 905 mil procedimentos. O Brasil tem hoje 5,3 mil cirurgiões especializados. Tamanho crescimento confirmou o país em segundo lugar no ranking mundial em quantidade de cirurgias e de cirurgiões plásticos – atrás apenas dos Estados Unidos (1,1milhão) e seguido, de longe, pela China (415 mil).

Outro aumento chama mais a atenção, não apenas pelo percentual atingido, mas pelo público que envolve: as cirurgias plásticas em adolescentes de 14 a 18 anos cresceram 140%, passando de 37,7 mil, em 2008, para 91 mil procedimentos, em 2012. Entre os pacientes acima dos 19 anos o aumento foi de 38,6%, nos mesmos quatro anos. Em todas as faixas etárias, o público feminino representa uma maioria de mais de 85% dos pacientes.

Embora relativo a adolescentes, o crescimento também denota a aceitação da plástica pelos adultos que autorizam, pagam e, automaticamente, endossam a prática. “Os jovens imitam quem tem prestígio, poder e sucesso e essas pessoas são as que fazem plástica. A cultura é uma pressão invisível e faz com que tomemos decisões que não tomaríamos se estivéssemos em outra comunidade”, pontua Miriam Goldenberg, antropóloga carioca que há anos desenvolve pesquisas e escreve livros relacionados com o culto ao corpo.

Para Miriam, essa vaidade precoce e crescente indica que o significado de envelhecer no Brasil ganha proporções mais assustadoras do que em outros países, porque, entre nós, o corpo é tratado como um “capital”. “Aos 30 anos, as mulheres brasileiras já estão falando de decaimento físico e de falta de homem”, diz Miriam. “Subjetivamente, o envelhecimento no Brasil acontece antes, apesar de o envelhecimento físico acontecer mais tardiamente, em termos de idade, dado que as mulheres brasileiras se cuidam muito.” A antropóloga ressalta ainda que a cirurgia plástica no Brasil não costuma ser reconstrutiva ou para “consertar um problema”,mas sim feita para conquistar um corpo absoluto em que nada seja imperfeito.

Assim, a plástica não é uma passagem para a normalidade – como eliminar uma “orelha de abano” ou outra fonte de complexos –, mas “a busca interminável de um objetivo que sempre se afasta”, define o sociólogo Alexander Edmonds, no livro Pretty Modern: Beauty, Sex and Plastic Surgery in Brazil (Duke University Press). Ao assistir à homenagem carnavalesca ao dr. Pitanguy, o sociólogo americano mudou o foco de seus estudos sobre o papel da cultura afrobrasieira na construção nacional para o “culto ao corpo”. Segundo a sua análise, a noção de que a operação estética faz bem “para a cabeça”e ajuda a “estar bem consigo mesma” – como ouviu de muitas entrevistas – contribui para dissociar a plástica da pura vaidade.

 

Sonho de consumo

Ao apoiar a autoestima no ideal de beleza física, a mulher brasileira sacramenta a cirurgia plástica como artigo de luxo e sonho de consumo. Em função disso, os consórcios para viabilizar esse tipo de operação se tornaram comuns. No Consórcio Luiza, ligado à rede Magazine Luiza, as plásticas já respondem por 6% dos consórcios de serviços, que também incluem viagens, saúde e estética, educação e festas.

?A modalidade, entretanto, é questionada pela SBCP. “Esse tipo de financiamento costuma ser uma armadilha”, argumenta o dr. José Horácio Aboudib, presidente da SBCP. Aboudib conta que muitos consórcios fazem intermediação com médicos, o que é antiético, tirando da pessoa o direito de escolher seu cirurgião. Além disso, o pré e o pós-operatório costumam ser feitos por profissionais que não são médicos. “Quando o consórcio funciona da forma correta, o mais comum é que o paciente busque a cirurgia mais barata, economizando no anestesista, por exemplo, e acabe saindo insatisfeito e prejudicado”, conta Aboudib.

Independentemente da forma como são pagos, os procedimentos mais procurados no Brasil continuam sendo os mesmos de 1999: lipoaspiração e cirurgia de mama (aumento e diminuição). Entretanto, novas técnicas vêm abrindo espaço. “A que mais cresceu de 2009 para 2011, entre todas, foi a gluteoplastia com prótese, uma técnica desenvolvida no Brasil, destinada a remodelar o bumbum. O aumento foi de 540%, ultrapassando 21 mil cirurgias em 2011”, destaca o presidente da SBCP.

“Em termos de cirurgia plástica, o Brasil sempre foi inovador em contorno corporal. A cirurgia americana, por sua vez, está mais desenvolvida na correção facial e em tecnologia”, compara o dr. Renato Saltz, brasileiro radicado nos Estados Unidos, vice-presidente da Sociedade Americana de Cirurgia Plástica. Para ele, a população à beira-mar, com verão o ano inteiro e pacientes exigentes, contribuiu para o fenômeno brasileiro da cirurgia plástica.

Além da cultura singular que turbina o mercado de procedimentos cosméticos, a melhoria nas técnicas, a qualidade do cirurgião plástico brasileiro, a crescente independência financeira da mulher e a maior distribuição de renda multiplicaram o número de operações nos últimos anos e prometem continuar fomentando o mercado.

Bisturi célebre

Outro índice do aquecimento do mercado é a aparição de figuras como o célebre “dr. Rey”, que anunciou, recentemente, a abertura de 1 mil novas clínicas de cirurgia plástica por todo o país. O brasileiro, cujo nome é Roberto Miguel Rey Júnior, ficou famoso nos Estados Unidos por operar celebridades e integrar o reality show Dr. 90210 (uma referência ao CEP de Beverly Hills), transmitido no Brasil como Dr. Hollywood, pela RedeTV!

Apesar do consultório disputado em Los Angeles, “dr. Rey” é criticado por médicos americanos e brasileiros por seu jeito informal, beirando o desrespeitoso, de tratar as pacientes, e por não ter feito a prova de certificação para cirurgia plástica nos Estados Unidos, onde mora desde menino – embora conste que fez as especializações na área. Para atuar no Brasil ele precisará prestar outra prova. “O dr. Rey pode abrir clínicas aqui, como empresário. Mas, como não é formado por uma instituição de ensino brasileira, não pode atuar, a menos que faça o exame para revalidação do diploma”, explica Aboudib.

A glamorização da estética artificial, como vista hoje, nem sempre foi parte da história da cirurgia plástica. A disciplina ganhou impulso no pós-guerra como cirurgia reconstrutora para os soldados feridos. Por décadas, era moralmente malvista pela sociedade, principalmente para “moças de família”. Ainda que hoje muitos custem a assumir as operações que já fizeram – por quererem exibir uma eterna imagem jovem “abençoada por Deus e bonita por natureza” –, a cirurgia estética se tornou sinônimo de status. Por meio dela é possível possuir o mesmo nariz da atriz mais badalada do momento, por exemplo. Fato que provoca uma saturação de rostos parecidos, porque cada vez mais as feições de famosos são imitadas.

No consultório do dr. Saltz é comum as pacientes levarem fotos de revista. “A maioria das pacientes traz a foto de uma atriz. Elas querem o nariz ou os lábios iguais. Às vezes é preciso insistir com a cliente que ela não é a Angelina Jolie. Tem gente que acha que cirurgia plástica é mágica, e não é. A maioria subestima a fase de recuperação, que pode ser dolorosa e longa”, diz.

Para a antropóloga Miriam Goldenberg, o alento é que também está crescendo um movimento em prol da singularidade e da individualidade, contrário à ditadura estética padronizada. “Valorizar o que é único, diferente e especial é uma forma de reação a essas prisões da identidade.” Com 56 anos, sem nunca ter feito nenhum tratamento estético de qualquer espécie, ela mesma estampa, sem truques de Fotoshop, a capa da sua obra lançada em setembro, A Bela Velhice (Record),  que dedica aos velhos de hoje e de amanhã.

“Quero que os jovens pensem no capital simbólico que cultivam e no qual investem e se eles são meios eficientes para ser felizes. O que eu percebo é que as pessoas que investem muito no corpo estão mais insatisfeitas. Elas sempre encontram mais coisas para mexer e acabam se tornando viciadas em plásticas. As que priorizam outros investimentos, me parece, estão mais contentes.”

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