Como vergar sem quebrar

Em situações difíceis, o conceito de resiliência ganha popularidade ajudando a capacitar pessoas e organizações a superar dificuldades e se fortalecer.

AFP

Empatia, tenacidade, mas também flexibilidade mental e otimismo. Estas são as principais características associadas à resiliência. Emprestado da física, que utiliza o conceito para designar a propriedade dos corpos elásticos de se deformarem sob ação de alguma força e retornarem à forma original quando a tensão cessa, o termo derivado do latim resilientia significa “voltar ao normal”.

No campo do comportamento humano ele remete à capacidade de superar adversidades, transformando experiências negativas em aprendizado – uma habilidade crucial em circunstâncias tão distintas quanto a ocorrência de um tsunami devastador, no Japão, em março de 2011, o atentado terrorista nos Estados Unidos, de 11 de setembro de 2001, ou a história incomum do físico Stephen Hawking, que formulou a teoria da cosmologia quântica após ser acometido por uma doença degenerativa, a esclerose lateral amiotrófica.

“Ser resiliente é ter capacidade de enfrentar crises, perdas, rupturas, transformações e desafios, elaborando as situações e recuperando-se”, explica Paulo Yazigi Sabbag, professor de gestão do conhecimento da Fundação Getulio Vargas, de São Paulo, e autor do livro Resiliência: Competência para Enfrentar Situações Extraordinárias na sua Vida Profissional.

Segundo George Barbosa, diretor da Sociedade Brasileira de Resiliência, empresa privada paulista que oferece treinamento de recursos humanos, a resiliência é o processo interativo entre o indivíduo e o contexto em que está inserido. Cientificamente pode ser descrita como o equilíbrio entre as condições de risco e as condições de proteção. “Falamos em equilíbrio, pois é a capacidade de a pessoa balancear as suas crenças na presença de perigos: quanto maior esta competência, maior a resiliência.”

Como se fosse resultado de um conjunto de habilidades em perfeito equilíbrio, a resiliência – a versatilidade de “gente-bambu” –, como denomina Sabbag, depende de uma série de fatores para se impor, entre eles dois em especial: a temperança, ou capacidade de regular as emoções em situações difíceis, mantendo a serenidade; e o otimismo aprendido como “modo de encarar o mundo de forma positiva, considerando as dificuldades como temporárias”.

A grande notícia é que tanto a temperança quanto o otimismo podem ser aprendidos. No primeiro caso, existem técnicas – a respiração diafragmática, a meditação ou exercícios de alongamento, entre outros – que permitem manter emoções arrebatadoras sob controle. No segundo, há que se prestar atenção nos “gatilhos” (adversidades) que disparam o desamparo, irmão siamês do pessimismo – isto é, a sensação de que não vale mais a pena agir.

Em São Paulo, a Sociedade Brasileira de Resiliência dá cursos para ajudar diferentes agentes públicos – motoristas de ônibus, enfermeiros, policiais e executivos, entre outros – a pensar a vida sob um prisma positivo. “O modo de fazer isso é ensinar a olhar as adversidades sob uma ótica de esperança: foco no futuro e a fé de que sempre haverá uma saída, são alguns referenciais”, relata Barbosa. Segundo ele, o resultado dessa aprendizagem é mais maturidade e qualidade de vida: “Administrar emoções não quer dizer que não haverá dor ou sofrimento. Mas a superação é mais rápida”.

Preocupação governamental

Apesar de o termo ser usado há mais de 30 anos pela psicologia, a palavra resiliência ganhou popularidade depois do ataque terrorista ao World Trade Center, nos EUA, em 11 de setembro de 2001. Depois da tragédia, o governo federal americano distribuiu cartilhas às pessoas envolvidas com o acidente para ensinálas e estimulá-las a retomar a vida normalmente, superando o trauma.

Muitas vezes confunde-se resiliência com resistência – que são características diferentes, de acordo com Ana Maria Rossi, presidente do Isma-BR, associação brasileira integrante da International Stress Management, voltada à pesquisa e ao desenvolvimento da prevenção e do tratamento de estresse no mundo. “Uma pessoa resistente é aquela que ‘segura as pontas’, resistindo a situações de pressão. Já uma pessoa resiliente, além de suportar a pressão, aprende com as dificuldades e os desafios, usando sua flexibilidade para se adaptar e sua criatividade para encontrar soluções alternativas”, explica.

Resiliência também é uma palavra muito usada no mercado de trabalho. Cada vez mais empresas buscam funcionários resilientes, isto é, que suportem bem a pressão, que sejam flexíveise usem a criatividade para resolver problemas. Mas as empresas não procuram apenas funcionários resilientes, elas mesmas buscam ser organizações resilientes, capazes de enfrentar crises e de sair renovadas e fortalecidas.

“Uma organização resiliente é uma corporação inteligente, reflexiva, onde as pessoas podem exercitar sua inteligência, liberdade de expressão e responsabilidade pelos atos e ideias”, explica Débora Patrícia Nemer Pinheiro, psicanalista do Hospital das Clínicas de Curitiba e professora de psicologia da Universidade Positivo, no Paraná.

De acordo com Sabbag, para uma organização se tornar resiliente, ela precisa primeiramente trabalhar a resiliência de seus funcionários – especialmente dos seus dirigentes. “Se as pessoas que tomam as decisões são pessoas resilientes, elas conseguem guiar a empresa em épocas de crise, pois aprendem com os erros e conseguem superar os problemas. E ainda servem de modelo aos funcionários”, diz.

Para alguns, a resiliência é uma característica de nascença. “Algumas pessoas já nascem mais resilientes, assim como outras nascem mais agressivas ou mais passivas. Elas já têm uma capacidade de se reestruturar e se transformar dependendo do desafio”, diz Ana Maria Rossi. No entanto, essa capacidade pode ser aprendida em qualquer fase da vida.

A resiliência não é bem uma característica que você possui ou não: há graus variados de como uma pessoa consegue lidar com o estresse. “A resiliência é o resultado de fatores internos (sua subjetividade e sua estruturação psíquica) e externos (circunstâncias sociais, econômicas, ambientais) e o produto disso é a criação de um sentido para a própria vida por meio do estabelecimento de um rumo, uma direção que perpasse os objetivos e projetos na vida de uma pessoa”, explica Débora Nemer Pinheiro. Uma química de vida.

Desta forma, é possível tanto aprender a ser resiliente como aumentar o grau de resiliência. Para se tornar uma pessoa resiliente, é preciso muita força de vontade e trabalhar com um profissional. A terapia pode ajudar a conquistar mais tolerância a mudanças, a definir objetivos de vida, a ser mais otimista, a respeitar seu próprio comportamento e a fortalecer a estrutura emocional diante da adversidade.

Além disso, é importante contar com o apoio do grupo em que se está inserido e com  o amor das pessoas que nos cercam. A resiliência é uma dança bem-sucedida na música da vida, mas não uma dança com bailarinos solitários: ela pede parcerias, empatia, encontros. Fala de amor.

Tylenol envenenado

Setembro de 1982. Sete pessoas morrem nos Estados Unidos depois de tomar o mais popular remédio contra dor de cabeça, o Tylenol. Diante das primeiras denúncias de que o medicamento continha cianeto na sua formulação, um porta-voz da Johnson & Johnson vem a público desmentir a afirmação. Mas, pouco depois, fica sabendo que o veneno era de fato empregado em testes de qualidade, realizados não no ambiente de produção. As autoridades focam as investigações na McNeil, uma das empresas do grupo, e, pela primeira vez, o mercado farmacêutico norteamericano vê-se vítima de uma sabotagem interna: a embalagem dos comprimidos fabricados em unidades instaladas no Texas e na Pensilvânia tinha sido violada e o produto fora substituído por veneno.

Como conduzir a crise sem arranhar a credibilidade da empresa e sem opô-la às suas parceiras? O que fazer diante do cataclisma institucional que derrubou as ações da Johnson & Johnson de US$ 38 para US$ 6? Fugir do problema ou enfrentá-lo? Atualmente, os especialistas diriam que as principais iniciativas adotadas pela corporação dependem de uma mesma qualidade: resiliência.

Mesmo sob pressão, afirma Paulo Sabbag, a reação resiliente da companhia foi capaz de corrigir publicamente a afirmação inicial do porta-voz – numa demonstração de ética e de empatia com a angústia do mercado consumidor. Em seguida, todo Tylenol em circulação foi recolhido. As cápsulas foram trocadas por tabletes e uma linha telefônica 0800 foi colocada à disposição do público.

Para essa operação, estimada em US$ 100 milhões, a empresa não mediu esforços, prova de tenacidade e próatividade. Por fim, o CEO James Burke foi à tevê reafirmar os valores institucionais da empresa e apreço pelos seus funcionários – inclusive os da sabotada subsidiária McNeil –, transmitindo confiança e otimismo.

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