Comportamento

Um super-repórter chamado internauta

A mídia sou eu

A Internet, rede mundial de computadores, possibilitou o surgimento de um novo órgão divulgador de informações e notícias, um emissor que antes não existia e nem se suspeitava que viesse a existir, uma emissor tão poderoso quanto um jornal, um rádio e uma tevê. Esse novo emissor é você.

O que você acha da mídia, dos meios de comunicação? Acha que tevês, jornais, rádios e revistas cumprem uma função positiva na sociedade? Acha que deveria haver menos violência na programação? Acha o cúmulo aqueles programas de fofoca, aquelas baixarias todas? Estaria faltando mais responsabilidade social dessas empresas?

Todos nós temos algo a reclamar sobre o comportamento da mídia. Quando pensamos nisso, somos tentados a crer que grande parte dos proprietários das empresas de comunicação não possui qualquer preocupação ética, nenhum senso de responsabilidade para com a sociedade e as futuras gerações.

E então nos imaginamos no lugar deles. Ah, como seria diferente! A mídia seria algo mais ético, mais responsável…

Bem, já não precisamos mais imaginar – graças à Internet, isso está acontecendo. A rede mundial de computadores possibilitou o surgimento de um novo órgão emissor de informações e notícias, um emissor que antes não existia e nem se suspeitava que viesse a existir, um emissor tão poderoso quanto um jornal, um rádio e uma tevê. Esse novo emissor é você.

A INTERNET LEVOU o Homo sapiens a um novo degrau evolutivo: o do Homo conectadus. Estamos todos cada vez mais interligados, conectados uns aos outros por uma imensa rede de comunicação em que cada receptor é também emissor. E onde está o centro da grande rede? Não há um centro. Há os servidores de Internet, sim, mas eles são apenas suporte físico. O que se movimenta na rede são informações e elas são repassadas pelos usuários. Cada usuário, portanto, é o centro de informação da rede. O centro da Internet é você.

Novo emissor… centro da Internet…

Pois é. Em frente ao seu computador, você talvez nem perceba, mas é você a grande sensação do momento quando o assunto é informação. Um único email que você envia pode rapidamente se multiplicar em progressão geométrica, fazendo com que, em poucos dias, milhões de pessoas em todo o mundo o recebam. Em outras palavras: você deixou de ser mero receptor para ser também um poderoso emissor de informações. Mas que tipo de emissor é você?

SEGUNDO ESTIMATIVAS, circulam diariamente na rede entre 100 e 200 bilhões de e-mails. E esse número aumenta a cada dia. Se à primeira vista isso pode da a idéia que a espécie humana está se comunicando mais, de outro lado é bom saber que metade desse número é de mensagens não solicitadas: publicidade, correntes da felicidade e armadilhas de criminosos eletrônicos.

Para esse problema, parece que não há solução, pois os nossos próprios amigos deixam expostos nossos endereços em suas mensagens e, com isso, abastecem os caçadores de e-mails.

Mas ainda há outro problema tão sério quanto esse. E ele é causado pelos usuários que se comportam exatamente como os meios de comunicação que eles mesmos tanto criticam: sem senso de responsabilidade. Essas pessoas reenviam mensagens sem se certificar se as informações estão corretas ou não. Isso não é nada ético.

Ao agir assim, essas pessoas podem estar espalhando informações falsas, que se disseminam rapidamente mundo afora, sem controle, causando desinformação, confusões e até mesmo prejuízos morais, materiais e financeiros a pessoas, empresas e instituições.

Por que fazem isso? Descuido ou ingenuidade, talvez. Às vezes até pensam estar praticando uma boa ação ao repassar aquele lindo poema do fulano ou a nova crônica da beltrana. Às vezes, sentem sua consciência aliviada ao repassar a mensagem sobre a criancinha perdida, o bebê que precisa de ajuda no hospital…

Certos males se alimentam justamente da boa intenção: na Internet isso é lei. E é uma lei consolidada pelo fato de as pessoas não terem ainda percebido que agora elas também são a mídia. Antes, apenas as grandes empresas de comunicação detinham o poder de semear idéias e influenciar comportamentos rapidamente. Agora, você também detém esse poder, mesmo que não tenha ainda se dado conta.

SE CRITICAMOS a mídia por ser socialmente irresponsável, deveríamos primeiro dar o bom exemplo. O que você acharia se uma emissora de tevê divulgasse um texto como sendo de um autor quando, na verdade, é de outro? Já pensou a confusão que isso poderia causar na cabeça dos estudantes? E se um jornal noticiasse que uma criança doente precisa de ajuda em tal hospital quando, na verdade, lá não há nenhuma criança assim?

O hospital teria de contratar várias telefonistas só para desfazer o engano a quem telefonasse. E se uma rádio divulgasse que tal empresa está dando celulares para quem enviar e-mails a seus amigos e conhecidos – e isso não fosse verdade? A rádio certamente seria processada. Em todos esses casos, as empresas perderiam crédito diante de seu público e de toda a sociedade.

A mídia sou eu

É exatamente isso que as pessoas estão fazendo agora que possuem o poder de mídia. Fazem justamente aquilo com o qual jamais concordariam se a mídia fizesse. Algumas se justificam, alegando que checar a veracidade da informação dá muito trabalho. Bem, se dá trabalho, então deveriam ao menos não contribuir para a disseminação de algo que não sabem se é ou não verdadeiro. Isso é responsabilidade social. Isso é fazer a nossa parte. O passarinho que leva uma gota de água para apagar o incêndio na floresta certamente não conseguirá apagá-lo sozinho – mas ele está fazendo o que pode fazer.

Outro dia, intrigado com uma mensagem que recebi, liguei para uma empresa de cosméticos e perguntei se era mesmo verdade que um tal xampu continha uma certa substância altamente nociva à saúde e que podia até matar, conforme dizia a mensagem. Alguém do setor de comunicação da empresa me informou que tudo não passava de boato e que já haviam denunciado o caso à polícia. Fiquei satisfeito por não ter repassado uma informação falsa. Se a empresa localizasse e processasse o boateiro por calúnia, eu acharia ótimo, bem feito. Mas… e os que repassaram o boato? Não seriam tão culpados quanto quem o criou? Aliás, no projeto de lei sobre crimes cibernéticos que está para ser votado no Congresso, há um tópico justamente sobre a responsabilidade do usuário, onde ela começa e até onde vai.

Produtos ruins, mau atendimento naquele restaurante da moda, assalto no shopping… Muitas dessas mensagens que parecem ser de utilidade pública são criadas por pessoas que deliberadamente inventam mentiras e as usam em e-mails para prejudicar pessoas e empresas. Elas fazem isso porque sabem que há usuários de Internet que repassam informações sem ter certeza de sua veracidade.

E aqueles poemas bonitos ou crônicas maravilhosas que recebemos. Por melhores que sejam certos textos, você pode estar fazendo papel de bobo ao repassá- los pois a autoria dele pode estar incorreta ou o próprio texto pode estar adulterado.

Geralmente são os amigos os primeiros a sofrer com a falta de noção dos que repassam tudo que lhes chega, desde falsas informações travestidas de utilidade pública a correntes da felicidade. Então, deveriam ser os amigos os primeiros a alertar para esse tipo de comportamento. Talvez não seja nada simpático chamar a atenção sobre isso, mas é o tipo de atitude que beneficia toda a sociedade.

A tecnologia já nos permite exibir filmes em nosso site pessoal ou em nosso blog, assim como retransmitir notícias em tempo real. O usuário de Internet cada vez mais adquire status de emissor ou retransmissor, o que aumenta ainda mais a responsabilidade de cada um. Pode estar próximo o dia que cada cidadão comum – como eu e você – poderá montar na Internet a sua própria rede de tevê e de notícias, escolhendo aquilo que achar mais conveniente exibir e transmitir ou até mesmo gerando a notícia em primeira mão. Se isso realmente acontecer, será ótimo começarmos a aperfeiçoar, agora mesmo, as nossas noções de ética e responsabilidade nos e-mails que enviamos.

É, o mundo mudou. Com a Internet, o cidadão não é mais um mero coadjuvante dos acontecimentos do mundo nem apenas um passivo consumidor de informações. Agora, todos nós somos peças fundamentais, pois podemos, mesmo sem sair de casa, influenciar idéias e atitudes no mundo inteiro.

Mas, para isso, precisamos entender que agora nós também somos a mídia. E que, para criticar o comportamento dos meios de comunicação, devemos primeiro fazer a nossa parte. Sim, nossa parte representa apenas uma gota de água. Mas é justamente por conta de uma gota que o copo transborda.

Ricardo Kelmer é escritor e roteirista e mora em São Paulo – www.ricardokelmer.net

A revolução do milênio

Ao longo da história, o poder da escrita separava as castas superiores e inferiores da sociedade. A Idade Média é exemplo disso: nela existia um abismo entre os escribas dos poderosos e do clero e os reles vassalos desses mesmos potentados. O alcance desse poderoso instrumento aumentou por volta de 1450, quando um alemão de sobrenome Gutemberg inventou a imprensa e os primeiros tipos móveis. A ferramenta amplificou como nunca a força da palavra escrita, culminando com o surgimento de um novo poder: a mídia.

Historicamente, porém, o poder da comunicação sempre foi privilégio de poucos. Hoje, no entanto, a Internet abre uma possibilidade até há pouco impensável: a democratização da informação. Os grandes conglomerados econômicos, políticos e de informação já perceberam isso e, com preocupação, estão de olho nesse mundo novo.

Vivemos, em matéria de comunicação, um momento de transição, no qual podemos consumir, produzir, transformar e informar qualquer tipo de conteúdo. Isso representa uma quebra de valores muito forte. O modelo de comunicação de massa, no qual um transmitia para muitos, vem sendo substituído por outro, no qual qualquer um tem acesso ao mesmo microfone, compartilhando idéias. Assim, entramos numa era em que todos transmitem para todos. Uma era em que não se precisa mais depender dos veículos convencionais – jornal, rádio e televisão – para se gritar ao mundo uma mensagem e fazer com que ela se multiplique ad infinitum. As conseqüências dessa revolução no mundo da comunicação ainda não podem ser avaliadas. Mas é certo que o mundo e a sociedade nunca mais serão os mesmos depois dela.

COMPARTILHAR