Coronavírus: devemos usar máscaras ou não? E qual delas?

Um especialista no assunto fala sobre os diferentes tipos de máscara (inclusive as caseiras) e o tipo de proteção que elas oferecem

Passageiros usam máscaras em estação de metrô em Hong Kong: uso em locais públicos poderá virar tendência no futuro. Crédito: Chinanews.com/China News Service/Wikimedia

Como professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Boston e geriatra no Boston Medical Center, cuidando dos mais vulneráveis ​​nessa pandemia, recebi muitas perguntas sobre a Covid-19.

Acontece que existe uma boa ciência por aí que nos ajuda a saber quais máscaras precisamos usar e quando usá-las. Dito isso, alguns dos conselhos a seguir podem mudar à medida que os cientistas aprenderem mais sobre o porquê de algumas pessoas terem um caso ruim ou até letal desse vírus, enquanto muitas outras sobrevivem a ele. Uma das áreas de maior confusão parece ser exatamente sobre máscaras.

Grande parte da decisão sobre o uso de máscaras depende de o que as empresas essenciais que permanecem abertas estão fazendo para garantir o distanciamento social e, portanto, a nossa segurança.

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O conhecimento irá protegê-lo

As orientações sobre o uso de uma máscara têm a ver com as diferentes formas como vírus como o que provoca a Covid-19 (SARS-CoV-2) se espalham de pessoa para pessoa: através do contato, gotículas e partículas transportadas pelo ar, também chamadas aerossolizadas.

As pessoas são infectadas com Covid-19 quando tocam uma superfície contaminada como uma maçaneta do metrô, ou apertam as mãos e tocam o rosto. Superfícies de aço e plástico podem abrigar vírus vivos por três dias. Em média, as pessoas tocam o rosto a cada dois minutos e meio, por isso é fácil ver como esse vírus pode se espalhar tão facilmente de uma pessoa para a outra pelo toque em superfícies.

Outra maneira de obter o vírus é por gotículas que as pessoas produzem ao tossir e espirrar. As gotas são relativamente grandes e contêm principalmente água e vírus, de modo que geralmente caem do ar a 1,8 metro (um dos motivos da regra de distanciamento social de dois metros). Dito isso, tosses vigorosas podem ir mais longe, e um forte espirro (foram medidos a uma velocidade de 50 a 100 metros por segundo) pode espalhar uma gota a 5,5 metros de distância. É por isso que as pessoas que ainda não estão usando máscara mesmo estando doentes devem tossir ou espirrar no cotovelo.

Tosses e espirros também produzem vírus em aerossol, partículas menores que flutuam no ar por muito mais tempo que gotículas e que também podem viajar mais longe. Aerossóis também são produzidos por conversa, grito e simplesmente pela respiração normal. Um grande problema é que, em salas pequenas e com pouca ventilação, o coronavírus pode ficar suspenso no ar e permanecer infeccioso por três horas. Outra coisa a saber é que dispositivos médicos comuns, como máquinas nebulizadoras para pessoas com asma e máquinas CPAP para pessoas com apneia do sono, são bons para aerossolizar o vírus.

Máscaras para escolher
À esquerda, máscara cirúrgica; à direita, a N95. Crédito: Divulgação

Existem dois tipos básicos de máscaras – máscaras cirúrgicas e máscaras de respiração N95.

As máscaras cirúrgicas são usadas para proteger os pacientes de gotículas infecciosas, se o profissional de saúde espirrar ou tossir. Alguém suspeito de estar doente ou de fato com Covid-19 também deve usar uma máscara cirúrgica para proteger qualquer pessoa ao redor deles de seus espirros ou tosse.

Quanto à proteção para o usuário, as máscaras cirúrgicas podem proteger o nariz e a boca contra respingos de fluidos corporais, como um cirurgião pode encontrar durante uma cirurgia. Mas não use uma máscara cirúrgica, ou uma máscara do tipo faça você mesmo, se achar que o protegerá do coronavírus que está suspenso no ar, digamos, em um espaço fechado e com pouca ventilação. O vírus em aerossol é tão pequeno que pode penetrar nas fendas entre a máscara e o rosto e ser inspirado através do material da máscara.

Alguns países estão exigindo que todos usem uma máscara cirúrgica pelo menos em espaços fechados potencialmente densos. Por exemplo, o governo austríaco agora exige que supermercados e farmácias entreguem máscaras cirúrgicas a todos os clientes que precisam usá-las na loja. O objetivo das máscaras é impedir que o usuário espalhe o vírus para outras pessoas por tosse ou espirros. Se os mercados e outras empresas e nossos meios de transporte não conseguem impor um bom distanciamento social e até mesmo algumas pessoas que estão tossindo ou espirrando não usam máscaras quando se aventuram neles, os Estados Unidos e outros países podem ter que seguir o exemplo.

Vários funcionários do governo dos EUA sugeriram que o uso público difundido de máscaras ajudará. O comissário da FDA [agência governamental americana que regula alimentos e remédios], Scott Gottlieb, argumentou que uma máscara pode ser “uma camada adicional de proteção para quem precisa sair”. Para ficar claro, máscaras e lenços cirúrgicos ou caseiros são usados ​​principalmente para proteger os outros, impedindo a propagação de gotículas. As pessoas não devem ser levadas a uma falsa sensação de segurança ao pensar que esses tipos de máscaras as protegerão de vírus aerossolizados no ar, por exemplo, em espaços mal ventilados e frequentados por outros. A melhor coisa a fazer é evitar esses espaços e ficar em casa o máximo possível.

Uma máscara respiratória N95 (na Europa, é chamada de FFP2) protege o usuário de respirar o coronavírus se for usada corretamente, para que haja uma boa vedação ao redor do rosto. Se você é um cuidador que trabalha para alguém que tenha ou possa ter a Covid-19, use a N95 para se proteger. Ou seja, supondo que existam o suficiente dessas máscaras para ir além das necessárias pelos prestadores de cuidados nas linhas de frente dos hospitais. Se você não tiver uma N95, abra uma janela no quarto do paciente e talvez até use um ventilador se tiver um para diminuir a quantidade de vírus flutuando. É claro que você deve fornecer muitos cobertores para manter os pacientes aquecidos!

O ponto principal

Na minha opinião, você não precisa de uma máscara com um bom distanciamento social (a pelo menos 1,8 metro de distância dos outros) quando estiver ao ar livre. Mesmo em uma sala grande e bem ventilada, onde as empresas estão fazendo um bom trabalho em manter a densidade de pessoas pequena e você fica lá o menor tempo possível, eu não sentiria a necessidade de uma máscara. Mas se aqueles que espirram ou tossem não usam máscaras e se o distanciamento social não parece retardar a propagação da Covid-19 com rapidez suficiente, americanos e outros provavelmente precisarão seguir os passos da Áustria, com máscaras obrigatórias dentro de edifícios, e aprofundá-los, incluindo qualquer serviço de transporte público, táxi e compartilhamento de carona.

Se você tossir ou espirrar e, portanto, produzir gotículas que podem contaminar outras pessoas ou superfícies, use uma máscara cirúrgica para proteger outras pessoas. Mesmo que você pense que é apenas um resfriado, use uma máscara ou, se você não tiver uma, use um lenço. Em breve, todos nós seremos convidados a usá-los quando formos a locais públicos, mesmo sem tossir ou espirrar, se algumas pessoas não levarem essa responsabilidade muito a sério.

Uma máscara N95 deve ser usada por pessoas que cuidam de pessoas suspeitas ou infectadas com Covid-19 que, quando usadas adequadamente, podem proteger contra vírus transportados pelo ar. Como os profissionais de saúde estão cuidando de muitos pacientes com Covid-19, eles devem ter máscaras N95. Se houver o suficiente, os cuidadores assintomáticos dos pacientes com Covid-19 que estão em casa também devem usá-las.

 

* Thomas Perls é professor de medicina da Universidade de Boston (EUA)

** Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original aqui.

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