Cultura organizacional “tóxica” afeta credibilidade da Anistia Internacional

Clima de trabalho dentro da organização é de intimidação generalizada, humilhação pública, discriminação e outros abusos de poder, segundo novo relatório

Campanha por diretos humanos, sexuais e reprodutivos das pessoas LGBTI, realizada pela Anistia Internacional em 2018 no Brasil. (Crédito: AF Rodrigues/Anistia Internacional)

Um relatório de avaliação da cultura organizacional na Anistia Internacional revelou um ambiente “tóxico” e bastante contraditório ao propósito de seu trabalho, conforme publicou o jornal britânico The Guardian ontem. Realizado pelo grupo KonTerra e liderado por psicólogos, para examinar as lições aprendidas após os suicídios de dois membros da equipe ocorridos em 2018, descobriu-se que o bullying e a humilhação pública eram rotineiramente usados ​​pela gerência.

Agora esse cenário ameaça também a credibilidade da Anistia como defensora dos direitos humanos. “À medida que as falhas organizacionais e evidências de nepotismo e hipocrisia se tornam de conhecimento público, elas serão usadas pelo governo e outros oponentes do trabalho da Anistia para minar ou descartar a defesa da Anistia em todo o mundo, comprometendo fundamentalmente a missão da organização”, observa o documento.

Os consultores se basearam em uma pesquisa com 475 funcionários, 70% da força de trabalho do secretariado internacional da Anistia, com sede em Londres, e em dezenas de entrevistas. Embora muitos funcionários tenham descrito seu emprego como uma vocação ou causa de vida, os problemas de bem-estar não ficaram restrito à exposição a trauma ou sofrimento devido ao trabalho realizado. A cultura contraditória, falhas na gestão e pressões de carga de trabalho estavam entre as questões de mais peso.

“A Anistia Internacional tinha a reputação de fazer um ótimo trabalho, mas de ser um lugar difícil de se trabalhar. Em muitas entrevistas, a palavra ‘tóxico’ foi usada para descrever a cultura de trabalho da Anistia desde os anos 90.” Outros termos que apareceram com frequência muito foram: “contraditórias”, “falta de confiança” e “intimidação”.

“A Anistia não pode efetivamente se esforçar para tornar o mundo um lugar melhor enquanto perpetua uma cultura organizacional profundamente marcada pelo sigilo, desconfiança, nepotismo e outras formas de abuso de poder”, analisa o relatório.

A equipe relatou vários episódios de discriminação de raça e gênero contra mulheres, funcionários negros e LGBTQI. Alegações de abuso de poder, discriminação e tratamento injusto, que merecem mais investigações, foram consolidados em relatório privado para o secretário-geral da Anistia, Kumi Naidoo. Em um comunicado (pdf), ele disse que apresentaria um plano de reforma até o final de março.

Outros relatórios já haviam sido feitos para avaliar o peso da Anistia para o desfecho dos suicídios entre a equipe. No caso do funcionário Gaëtan Mootoo, que trabalhava havia 30 anos na organização, chegou-se à conclusão de que estresse e excesso de trabalho foram fatores determinantes para sua morte. Já as avaliações do caso da estagiária Rosalind McGregor indicaram que sua angústia era causada por “motivos pessoais” e que a Anistia não teve responsabilidade por sua morte.