Culturas como soja e laranja põem segurança alimentar global em risco

Plantação de laranja em São Paulo: cultivo oferece pouco alimento a insetos polinizadores. Foto: José Reynaldo da Fonseca/Wikimedia

Cultivos pobres em alimento para insetos polinizadores ameaçam a sobrevivência destes últimos e reduzem o potencial das safras

 

O interesse ocidental por monoculturas de produtos como soja, café, laranja e outras frutas cítricas está ameaçando a segurança alimentar global, de acordo com um estudo internacional que analisou 40 anos de informações. A pesquisa, publicada na revista “Global Change Biology”, é abordada pelo jornal “The Independent”.

Foram analisados dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) sobre o cultivo no campo entre 1961 e 2016. Os pesquisadores descobriram que uma menor quantidade de insetos polinizadores – cuja população está em rápido declínio – pode significar colheitas bem menores ou uma safra totalmente perdida.

A diversidade global diminui à medida que monoculturas de vegetais como soja, canola e palma ampliam suas áreas. Essas culturas só fornecem nutrição para polinizadores durante uma janela muito limitada quando estão em floração. Isso as torna uma fonte instável de alimento para insetos, cuja tendência de encolhimento populacional tem sido intensificada pelo uso disseminado de fertilizantes.

 

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“Os agricultores estão cultivando mais culturas que requerem polinização, como frutas, nozes e sementes oleaginosas, porque há uma demanda crescente e por elas terem um valor de mercado mais alto”, afirma David Inouye, da Universidade de Maryland (EUA), coautor da pesquisa. “O estudo aponta que as tendências atuais não são boas para os insetos polinizadores, e os países que diversificam suas culturas agrícolas vão se beneficiar mais do que aqueles que se expandem com apenas um subconjunto limitado de culturas.”

Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia abriram muitas terras para a plantação de soja, à custa de desmatamento. “A produção de soja aumentou cerca de 30% por década no mundo”, afirma Marcelo Aizen, do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Tecnológicas (Conicet), da Argentina, que liderou o estudo. “Isso é problemático, porque numerosos habitats naturais e seminaturais, incluindo florestas tropicais e subtropicais e prados, foram destruídos para dar lugar a campos de soja.”

 

Desmatamento prejudicial

A agricultura de palma na Malásia e na Indonésia está tendo o mesmo efeito, de acordo com o estudo. Os pesquisadores notaram ainda uma redução na área de plantio de culturas que não dependem de polinizadores, como trigo e arroz.

Embora o problema seja mais acentuado em países do Terceiro Mundo, os desenvolvidos tampouco escapam desse cenário. Em países da Europa como Reino Unido, Alemanha, França, Áustria, Dinamarca e Finlândia, por exemplo, áreas agrícolas estão cedendo espaço para o desenvolvimento urbano.

“Esse trabalho deve soar um alarme para os formuladores de políticas que precisam pensar sobre como vão proteger e estimular as populações de polinizadores que podem apoiar a crescente necessidade dos serviços que fornecem às culturas que exigem polinização”, afirma Inouye. “A questão é que, se você está aumentando as plantações de polinizadores, também precisa diversificar as plantações e implementar um manejo amigável a eles.”