De caçador a ecologista

Descendente de alemães, o catarinense Willy Hoffmann foi educado na tradição européia segundo a qual os homens foram feitos para caçar.

Quem entra na casa pelo escritório não acredita que está na casa de um ecologista. No chão, uma pele de zebra trazida da África. Nas paredes, várias cabeças de animais selvagens empalhadas, como aquelas que a gente vê em filme. Mas a conversa vai ser na sala. Ele espera sentado na sua poltrona de veludo bege, cobertor sobre as pernas. Uma bronquite forte, que o levou a ser internado por cinco dias em um hospital, debilitou sua saúde.

Ernesto Guilherme Hoffmann aproveitou muito bem seus 95 anos. Fez tudo o que a vida permitiu. Já esteve do Pólo Norte ao Pólo Sul. Fala das muralhas da China como quem conta da pracinha do bairro. “E então nós subimos bem no alto. Aquilo é impressionante”, lembra.

O safári na África foi uma das aventuras mais incríveis. “Os elefantes vinham em bandos, eram lindos.” A aurora boreal também foi uma experiência marcante, assim como a primeira vez que topou com uma onça ao vivo e em cores em uma das dezenas de viagens ao Pantanal. “Ficamos parados, olhando. Não deu medo. Ela estava com mais medo de nós do que o contrário”, conta.

Saudades mesmo ele sente dos tempos em que ia a Nova York, nos Estados Unidos, para ver espetáculos de música clássica, seu gênero favorito. Não se esquece das três vezes em que viu o tenor Luciano Pavarotti se apresentando na China, nos Estados Unidos e em Cingapura.

Mas nada, nada mesmo, o emociona mais do que um pedaço de terra a alguns quilômetros da sua casa. São 415 hectares – mais de quatro milhões de metros quadrados – que têm por nome Fazenda Hoffmann. Ficam em Brusque, cidade catarinense 100 quilômetros ao norte de Florianópolis.

Foi lá, numa casa perto do que hoje é a Rodovia Antônio Heil, que Hoffmann nasceu. E aprendeu a amar a natureza. No mesmo lugar, ele recebeu o apelido que tem até hoje. Em uma terra colonizada por alemães, Guilherme significa Wilhelm. Daí para Willy, é um piscar. Pronto. Assim ficou.

A área da fazenda foi uma herança do avô paterno. Heinrich Hoffmann veio da Alemanha para o Rio Grande do Sul no final do século 19. Ele não sabia, mas tinha nos Estados Unidos um parente milionário que havia morrido. As autoridades procuraram Heinrich por toda parte, já que ele era o único herdeiro do tal parente.

Quando o encontraram, ele recebeu tanto dinheiro que acabou comprando um considerável pedaço de terra onde, mais tarde, seria a cidade de Brusque.

No total, eram 12 milhões de metros quadrados. Hoje, englobaria a metade do centro mais três bairros, sempre margeando o rio Itajaí-Mirim. E ainda sobrou para emprestar a perder de vista aos “amigos”.

No sentido horário, a partir da esquerda: Willy Hoffman e sua esposa, Tina; certificado de área preservada da Chácara Hoffman (também conhecida como Chácara Edith); Willy na sala de sua casa, decorada com animais empalhados por ele.

Uma parte foi vendida e restaram dez milhões de metros quadrados, que foram destinados aos herdeiros. Entre eles, o pai de Willy, que também se chamava Heinrich. Como tinha formação em administração na Alemanha e um bom cargo na indústria têxtil do então cônsul Carlos Renaux (até hoje uma das mais importantes indústrias do setor em Santa Catarina), Heinrich filho não deu muita importância ao que herdou. Para a sorte de Willy, já que naquela época a primeira coisa que passava pela cabeça do proprietário de uma terra como aquela era explorar a madeira nobre e abundante que havia sobre ela.

Na verdade, era exatamente isso que faziam os arrendatários de partes da fazenda. Os agricultores alugavam áreas de mata virgem, derrubavam as árvores, vendiam a madeira e, depois, abriam pastagens e plantações. Até os cinco anos, Willy presenciou tudo. Com a mudança da família para outra casa, acabou se afastando um pouco. Mas sempre que podia estava lá.

Jovem, Willy foi estudar em Florianópolis. Optou por formar-se em ciências e letras, curso que mais se aproximava da sua paixão: a natureza. Mas a carreira profissional seguiu um caminho diferente. Tem um ditado que diz: se a sua vida é um limão, faça dela uma limonada. Para Willy, a receita deu certo.

O PAI O FEZ continuar a carreira iniciada por ele. Tanto que, quando completou 70 anos, Heinrich se aposentou e passou a faixa para o filho. A solução para conciliar emprego e paixão foi trabalhar, juntar dinheiro e comprar as áreas dos tais herdeiros que haviam repartido com seu pai as terras que eram do seu avô. Assim, conseguiu chegar aos 415 hectares que hoje são um oásis verde no meio do deserto de concreto.

Mas a dedicação ao lugar começou muito antes disso. Aos 12 anos, cansado de ver os colonos maltratando a floresta dentro da qual nasceu, Willy pediu ao pai que não arrendasse mais a fazenda. “Eles derrubavam as árvores para vender às fábricas, que utilizavam a madeira nas caldeiras”, recorda. Como o pai não se interessava pela terra nem por negócios agrícolas, acatou o pedido do filho. O corte de madeira foi encerrado definitivamente em 1930. Portanto, há quase 80 anos não se mexe mais na Fazenda Hoffmann.

Animais silvestres como o cachorrodo- mato (alto, esquerda), o caxinguelê (acima) e o quati (esquerda) encontram refúgio na Fazenda Hoffman. Abaixo, imagens das matas da propriedade, hoje reconhecida pela Unesco como Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.

O resultado são títulos ambientais e árvores que precisam de dúzias de homens para abraçá-las. Animais silvestres, obviamente vários em risco de extinção, como o macaco bugio, a jaguatirica, o gato-maracajá e a saíra- de-sete-cores, encontram ali um refúgio. E, de quebra, arrancam lágrimas comovidas de um homem que, aos 95 anos, tem como único sonho viver mais um pouco. Os outros, ele já realizou.

Apesar de seguir a profissão do pai, Willy sempre dedicou o tempo livre para estudar animais e plantas. Durante décadas, uma das atividades que lhe renderam algum destaque no Brasil e no exterior foi a taxidermia, uma das mais antigas técnicas utilizadas pela zoologia para o estudo de animais. Mortos, os bichos recebem um tratamento e são empalhados com o intuito de preservar algumas de suas características e até hábitos.

A idéia começou a partir de um livro que ensinava a técnica. Willy trocava informações com um amigo, o padre Luiz Gaertner, que também era taxidermista amador. Juntos, os dois faziam suas experiências. Os produtos químicos eram artesanais e as carcaças eram preenchidas com palha e pedaços de madeira para respeitar o formato original do animal. Parte do acervo está exposto no Colégio Cônsul Carlos Renaux, em Brusque, e na sala de sua casa. Em 1946, Willy taxidermizou um exemplar do picapau Dryocopus galeatus, que foi doado ao Museu Nacional do Rio de Janeiro, em 1980.

Para poder desenvolver tais estudos, porém, Willy precisava caçar, já que coletava os animais na natureza. “No começo tinha bastante e eu os caçava para estudar. Depois a caça foi proibida, então, parei”, diz. No final das contas, ele acabou mesmo foi assumindo um cargo voluntário no falecido Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF).

Biodiversidade protegida

Em 2001, os biólogos Lúcia Sevegnani, Lauro Eduardo Bacca e Noêmia Bohn, da Universidade Regional de Blumenau (SC), fizeram um levantamento e classificaram a Fazenda Hoffmann em estágio avançado de recuperação. A parte mais recente da floresta que cobre a fazenda tem entre 30 e 50 anos e algumas árvores chegam a 25 metros de altura.

Nesse mesmo ano, a Fazenda Hoffmann, também chamada de Chácara Edith, foi nomeada Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Trata-se de uma modalidade de Unidade de Conservação em que seus donos não abrem mão do direito de propriedade, mas comprometemse a preservar a área.

Em abril do ano passado, Wilson Moreli, genro de Willy e atual responsável pela reserva, conseguiu mais um importante avanço. A fazenda foi reconhecida pela Unesco como Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Para obter um título como esse, a área tem de estar com sua biodiversidade protegida e é necessário promover o desenvolvimento sustentável e o conhecimento científico no local. O que já acontece há quase 80 anos.

MAIS TARDE, esteve presente no ato de fundação da Fatma, órgão estadual que atua em defesa do meio ambiente em Santa Catarina. Willy mudou definitivamente de lado. Em vez de extrair animais da floresta, passou a repovoá- la com animais silvestres reproduzidos em cativeiro.

Há dez anos Willy abriu mão oficialmente da fazenda. Oficialmente. Em inventário, ela está agora sob os cuidados de seu genro, Wilson Moreli. “Está em muito boas mãos”, afirma o sogro, tranqüilo. Moreli abraçou a causa da família Hoffmann com vigor. Dedica tempo e dinheiro à área que adotou como seu lar. Teve papel fundamental na sua preservação, especialmente na última década, e acabou se envolvendo de corpo e alma na questão ambiental. Hoje, ele faz parte do Comitê Estadual da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.

Fazenda atrai pesquisadores

Estudiosos brasileiros e estrangeiros visitam a Fazenda Hoffmann desde 1930. Dezenove anos depois, a área foi nomeada sede de pesquisas para a erradicação da malária no sul do Brasil.

Até 1953, os pesquisadores Henrique Pimenta Veloso, do Instituto Osvaldo Cruz, e Roberto Miguel Klein, do Herbário Barbosa Rodrigues, desenvolveram diversos estudos na Fazenda Hoffmann. O material nela coletado foi enviado para classificação e identificação nos Estados Unidos, Inglaterra, Suécia, Alemanha, Argentina, Chile, Uruguai, Indonésia e Holanda.

Vários livros importantes que têm sido lançados estão baseados em pesquisas realizadas na reserva. Um de seus pesquisadores mais assíduos era o padre Raulino Reitz, botânico reconhecido mundialmente e apelidado de “padre das bromélias”. Helmut Sick, um dos mais importantes ornitólogos do Brasil, também fez vários estudos na fazenda.

Em 1976, o local foi nomeado pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal como Refúgio de Animais Silvestres.

Willy Hoffmann recebeu do governo catarinense, em 1982, o mais alto título ambiental concedido a uma pessoa: o Troféu Fritz Müller. A homenagem lhe foi feita “pela relevância em defesa do patrimônio ambiental em Santa Catarina”.

Em 2000, o Ibama concedeu o certificado de Criadouro de Espécies da Fauna Silvestre Brasileira para Fins Conservacionistas. Entre os animais de maior destaque encontram-se cisnes, jacutingas e veados.

O mais recente título conquistado pela propriedade veio da Unesco. Graças ao seu estágio de conservação, às ações de recuperação e ao trabalho que vem sendo desenvolvido pelo seu atual proprietário, Wilson Moreli, a fazenda agora é um Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.

SOMANDO O ENTORNO, o maciço verde que engloba a Fazenda Hoffmann ultrapassa um milhão de hectares. Coisa rara de se encontrar tão próximo a áreas urbanas. E, justamente por isso, apesar de ter sido transformado em Reserva Particular do Patrimônio Natural e, depois, em Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica pela Unesco, ainda assim o local é alvo de agressões. O mais grave é que, algumas vezes, elas ocorrem por parte do Poder Público.

A vigilância constante e os investimentos em segurança não são suficientes para impedir a ação de caçadores e ladrões de palmito. Algumas regiões muito próximas à fazenda são ocupadas por moradores de baixa renda que freqüentemente invadem o mato em busca do vegetal para comércio ilegal.

A floresta abriga animais silvestres e outros que antes viviam em cativeiro. Entre as espécies encontradas ali estão (no sentido horário, a partir da esquerda, alto) o pseudocamaleão, a coruja murucututu, o irará e a capivara.

A FAZENDA HOFFMANN tem vários e importantes mananciais que alimentam a bacia hidrográfica da região de Brusque. Invadido por moradores vindos de outros estados em busca de trabalho, o bairro Poço Fundo – que faz divisa com a fazenda – hoje abriga casas sem a menor estrutura e seus moradores jogam lixo e esgoto em ribeirões que cortam a reserva. Muitos desses moradores foram trazidos à cidade pelo poder público com promessas de emprego em troca de votos.

Essa mesma gestão tentou incluir a fazenda no IPTU e abrir uma rua bem no meio da área preservada, sob o argumento de ligar dois bairros e trazer o progresso à cidade. A luta se intensificou. As famílias Hoffmann e Moreli uniram forças e, depois de muito incômodo e dor de cabeça, conseguiram transformá-la em uma reserva.

Willy já não acompanha mais de perto tudo o que acontece por lá. Chora, e muito, por isso. Cada árvore, cada animal, os riachos. Tudo o emociona quando o assunto é a fazenda. Ao menos ele tem a certeza do seu legado. “Essa é uma obra que tem de ficar para a humanidade. Não dá para dizer o valor que tem. E nem estou falando em dinheiro, porque não tem dinheiro que pague”, diz, enquanto a garganta engasgada o deixa falar.

Lágrimas em silêncio. O filme da vida, começada em uma casa com varanda de madeira, vem à tona. Mas são lembranças felizes, do tempo em que sumia no mato, longe das vistas da mãe. Do tempo em que Guilherme era sempre Wilhelm para os mais velhos. E, surpreendentemente, Wilhelm, em alemão antigo, quer dizer “protetor valoroso”.

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