Densidade populacional é sinônimo de riqueza, mostram culturas antigas

Estudo das comunidades pueblos do sudoeste dos EUA comprova os efeitos benéficos da maior interação social para a geração de riqueza e prosperidade

Pueblo de Taos, no Novo México, uma das comunidades remanescentes dos índios homônimos: confirmação da ideia de Adam Smith. Crédito: John Mackenzie Burke/Wikimedia

As cidades modernas poderiam aprender uma ou duas coisas das antigas comunidades dos índios pueblos que se estendiam pelo sudoeste dos Estados Unidos. Para iniciantes, quanto mais pessoas moram juntas, melhores os padrões de vida.

A descoberta vem de um estudo publicado na revista “Science Advances” e liderado por Scott Ortman, arqueólogo da Universidade do Colorado em Boulder (EUA). Ortman integra um grupo crescente de estudiosos de história que argumentam que o passado do mundo pode ser a chave do seu futuro. Que lições as pessoas que vivem hoje podem tirar dos sucessos e fracassos das civilizações de centenas ou milhares de anos atrás?

Recentemente, Ortman e Jose Lobo, da Universidade Estadual do Arizona (EUA), mergulharam profundamente nos dados das cidades agrícolas que pontilharam o vale do rio Grande entre os séculos 14 e 16. As metrópoles modernas devem observar: à medida que as aldeias dos pueblos se tornavam maiores e mais densas, sua produção per capita de alimentos e outros bens também parecia aumentar.

LEIA TAMBÉM: Anasazi, o povo misterioso do sudoeste dos EUA

Situação melhor

Ruas movimentadas, em outras palavras, podem levar a cidadãos em melhor situação.

“Vemos um crescente retorno à escala”, disse Ortman, professor assistente do Departamento de Antropologia, que também é afiliado ao Santa Fe Institute, no Novo México. “Quanto mais pessoas trabalham juntas, mais produzem per capita.”

Se a mesma coisa é verdadeira hoje, permanece uma questão em aberto, especialmente em meio aos impactos sem precedentes da pandemia de covid-19 nas cidades e na proximidade humana. Mas os resultados do ensolarado sudoeste americano sugerem que é uma ideia que vale a pena explorar.

“O registro arqueológico pode nos ajudar a aprender sobre questões com as quais nos preocupamos hoje, de maneira que não podemos fazer usando os dados disponíveis para as sociedades modernas”, disse Ortman.

Crescimento em civilizações diversas

A pesquisa é um desdobramento de um esforço que Ortman lidera, chamado Social Reactors Project (algo como “Projeto Reatores Sociais”). A iniciativa explorou padrões de crescimento em civilizações da Roma antiga ao mundo inca.

É uma tentativa de perseguir uma ideia proposta pela primeira vez no século 18 por Adam Smith, muitas vezes conhecido como o pai da economia moderna. Em A Riqueza das Nações, Smith defendeu os benefícios fundamentais do tamanho do mercado – que, se você facilitar o comércio de mais pessoas, a economia crescerá.

Basta olhar para qualquer cidade dos EUA, ou de vários outros países, onde se pode encontrar um salão de cabeleireiro ao lado de uma padaria, ao lado de um estabelecimento para animais de estimação.

“À medida que as pessoas interagem com mais frequência, uma pessoa pode produzir e fazer menos coisas sozinha e obter mais do que precisa de seus contatos sociais”, disse Ortman.

O problema, explicou, é que esse crescimento “impulsionado por aglomerações” é difícil de isolar nas grandes e complexas cidades de hoje. O mesmo não se aplica ao vale do rio Grande.

Comunidades complexas

Antes da chegada dos espanhóis, no século 16, centenas de aldeias se espalhavam pela região perto do que é hoje Santa Fé, no Novo México. Esses assentamentos variavam em tamanho, de algumas dezenas de moradores a até 3 mil pessoas. A maioria delas ganhava a vida cultivando produtos como milho e algodão.

Esse estilo de vida de subsistência não significava que essas comunidades eram simples.

“A visão tradicional na história antiga era de que o crescimento econômico não ocorreu até o início da Revolução Industrial”, disse Ortman.

Ele e Lobo decidiram colocar essa suposição à prova. A dupla vasculhou um banco de dados exaustivo de achados arqueológicos da região. Tudo foi avaliado, desde o número e tamanho de quartos nas comunidades pueblos até a cerâmica originária de pilhas de lixo.

Eles descobriram uma tendência clara: quando as aldeias ficavam mais populosas, seus moradores pareciam melhorar em média – exatamente como Smith previra. Os espaços de convivência aumentaram de tamanho e as famílias colecionavam mais cerâmica decorada.

“Você pode pensar nisso como mais conjuntos de pratos para compartilhar refeições juntos”, disse Ortman.

Conexão social

Esse crescimento, descobriu a equipe, também parecia seguir um padrão que os pesquisadores do Social Reactors Project viram em várias civilizações ao longo da história. Toda vez que as aldeias dobravam de tamanho, os indicadores de crescimento econômico aumentavam em média 16%.

Ortman disse que o efeito não acontece da mesma maneira em todos os lugares. Fatores como desigualdade e racismo, por exemplo, podem impedir que os moradores urbanos trabalhem juntos, mesmo quando vivem em espaços apertados.

Ortman acrescentou que essas comunidades pueblos têm uma lição importante para as sociedades modernas: quanto mais pessoas se conectam com outras pessoas, mais prósperas se tornam.

“Todas as outras coisas são iguais, a urbanização deve levar a melhorias nas condições materiais de vida das pessoas em todos os lugares”, disse ele. “Suspeitamos que é por isso que o mundo continua a se urbanizar, apesar de todos os problemas associados.”

Veja também

+ Invasão de vespas assassinas aumenta tensão com 2020 nos EUA
+ Anticoagulante reduz em 70% infecção de células pelo coronavírus
+ Assintomáticos: 5 dúvidas sobre quem pega o vírus e não tem sintomas
+ 12 dicas de como fazer jejum intermitente com segurança

COMPARTILHAR