Descobertos 66 acampamentos militares de Roma na Espanha

Achados permitem saber mais sobre as estratégias de conquista da Hispânia adotadas pelos romanos, cuja presença na região era maior do que se pensava

Foto A: acampamento de Tortolondro (A), indicado pelas setas pretas. Foto B: acampamento de Quintanilla de Riofresno (B), indicado pelas setas pretas, próximo da estrada romana (setas brancas). Crédito: romanarmy.eu

A descoberta de dezenas de novos acampamentos do Exército romano na atual Espanha graças à tecnologia de sensoriamento remoto revelou mais sobre um dos conflitos mais infames do império. O estudo foi publicado na revista “Geosciences”.

A análise dos 66 acampamentos mostra que o Exército de Roma tinha uma presença maior na região do que se pensava durante a batalha de 200 anos para conquistar a Península Ibérica.

Os acampamentos eram usados para treinamento e abrigo. A descoberta dessas instalações em diferentes tamanhos permitiu que especialistas mapeassem como os soldados atacavam grupos locais a partir de diferentes direções e aprendessem mais sobre a presença militar romana na margem norte da bacia do rio Douro. Ela é ocupada hoje pelas províncias de León, Palência e Burgos e a região autônoma da Cantábria.

Traços frágeis e sutis

Os especialistas analisaram fotografias aéreas e imagens de satélite, criaram modelos tridimensionais do terreno a partir de dados Lidar e usaram drones para criar mapas detalhados dos locais. Isso incluiu recursos do Instituto Geográfico Nacional Espanhol (IGN) e geoportais como o Google Earth ou o Bing Maps. A localização exata permitiu que o trabalho de campo ocorresse.

Essas ocupações temporárias geralmente deixam traços frágeis e sutis na superfície. As valas ou as muralhas de terra e pedra que protegem essas fortificações foram preenchidas e niveladas. A combinação de diferentes imagens de sensoriamento remoto e trabalho de campo mostra a forma do perímetro dos acampamentos militares romanos temporários. Eles geralmente lembravam um retângulo, como uma carta de jogo.

Presença militar romana em León. Crédito: romanarmy.eu

Esses novos locais estão localizados no sopé da Cordilheira Cantábrica, onde o conflito entre romanos e nativos se concentrou no final do século 1 a.C. Isso sugere que os soldados cruzaram as terras baixas e altas, usando os cumes das montanhas para ficar fora do local e dar a si próprios mais proteção.

O fato de haver tantos acampamentos militares na região mostra o imenso apoio logístico que permitiu aos soldados conquistarem a área. Os locais foram usados ​​para ajudar no movimento para locais remotos e para auxiliar os soldados a permanecer na área durante os meses frios de inverno. Alguns dos campos podem ter abrigado soldados por semanas ou meses.

Recursos naturais

O objetivo da ocupação era expandir o império e poder explorar recursos naturais como estanho e ouro.

A pesquisa foi realizada pelos pesquisadores espanhóis Andrés Menéndez Blanco, Jesús García Sánchez, do Instituto de Arqueologia de Mérida, José Manuel Costa-García e Víctor Vicente García, da Universidade de Santiago de Compostela, David González-Álvarez, do Instituto de Ciências do Patrimônio, Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha, e pelo pesquisador português João Fonte, da Universidade de Exeter (Reino Unido).

O dr. Fonte disse: “Identificamos muitos locais porque usamos diferentes tipos de sensoriamento remoto. A varredura a laser aerotransportada deu bons resultados para alguns sítios em locais mais remotos porque mostrou muito bem as terraplenagens. A fotografia aérea funcionou melhor em áreas de planície para a detecção de marcas de corte”.

Ele prosseguiu: “Os restos são dos acampamentos temporários que o Exército romano montou ao se deslocar em território hostil ou ao realizar manobras em torno de suas bases permanentes. Eles revelam a intensa atividade romana na entrada da Cordilheira Cantábrica durante a última fase da conquista romana da Hispânia”.

Presença militar romana em Castela. Crédito: romanarmy.eu
Catalogação e documentação

Há uma importante concentração de 25 sítios ao longo dos vales do norte de Palência e Burgos, bem como do sul da Cantábria. Na província de León, até 41 sítios foram documentados em diferentes vales. Eles variam de pequenos fortes de algumas centenas de metros quadrados a grandes recintos fortificados de 15 hectares.

A maioria desses locais militares romanos estava localizada nas proximidades de importantes cidades romanas posteriores. Um exemplo é Sasamón. Essa aldeia em Burgos  fica nas proximidades de onde o imperador Augusto estabeleceu o seu acampamento enquanto esteve na frente de batalha.

A pesquisa continuará para que os especialistas possam examinar as relações que os romanos estabeleceram com as comunidades locais, chamadas Vaccaei, Turmogi, Cantabri, Astures e Callaeci, segundo fontes gregas e latinas.

A equipe está desenvolvendo um projeto de catalogação e documentação de todos os acampamentos romanos da província de León por meio de drones, a fim de compreender melhor as suas estruturas ou a evolução do seu estado de conservação. Os trabalhos também continuam em Burgos e em Sasamón, incluindo um estudo do povoado Cerro de Castarreño e sua conquista no século 1 a.C.

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