Desmatamento não é desenvolvimento

Desde o século 17, países como Alemanha, França e Reino Unido passaram a estimular a silvicultura e adotar leis para regular o manejo sustentável das suas florestas.

A velha história de que os países desenvolvidos chegaram aonde estão à custa da perda das suas florestas está incorporada há séculos no imaginário coletivo brasileiro. Mas o economista Th iago Fonseca Morello, especializado em aproveitamento econômico florestal, aponta que já passou da hora de se rever essa ideia. Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Morello desenvolve atualmente uma tese de doutorado sobre a agricultura de corte e queima na Amazônia brasileira, no Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo (IPE-USP). E já defendeu um mestrado sobre o ciclo do carvão vegetal em Minas Gerais.

Como subproduto de suas pesquisas, recentemente publicou o artigo “Desmatamento e Desenvolvimento: O Que o Brasil Tem a Aprender com a História dos Países Desenvolvidos”, demonstrando que a autonomia econômica alcançada por muitos dos países ricos se deu justamente porque souberam entender a importância da conservação da sua cobertura vegetal – mesmo sem contar com tamanha biodiversidade como a brasileira. Eles investiram no reflorestamento e na exploração racional da mata nativa. Morello mostra que o caminho para o sonhado Primeiro Mundo se assemelha mais a uma trilha do que a uma rodovia sobre a floresta.

Por que a opinião pública no Brasil associa desmatamento a progresso?
Esse discurso é uma abordagem distorcida, criada pela classe política. Vem desde o início do país, quando os brasileiros tomaram as rédeas da administração pública. A preocupação era industrializar o Brasil e diversificar a produção. A selva era sinônimo de selvageria e de confusão, portanto, as florestas estavam no meio do caminho do progresso. Mas essa associação é infundada. A literatura mostra que a área florestal (incluindo florestas plantadas) está crescendo desde o século 19 na Escócia, Dinamarca, França e Suíça, e desde o século 20, na Alemanha, Coreia do Sul, Inglaterra e nos Estados Unidos, países que adotaram mecanismos indutores de reflorestamento e regeneração de mata nativa.

O bordão “eles já destruíram tudo e agora querem que preservemos” está equivocado?
Está errado. A Inglaterra conquistou poder bélico graças ao seu poderio naval. Precisou de madeira para construir navios ao mesmo tempo que a agricultura estava em expansão, e que havia guerras em curso e a construção civil crescia. Tudo isso demandavamuito das florestas, o  que fez o preço da madeira subir. O país, então, começou a tomar medidas, criando uma série de leis no século 17 para regulamentar a exploração das florestas. Leis essas que, conceitualmente, não são muito diferentes do nosso Código Florestal.

Existem lições e exemplos que possamos tomar das leis e políticas florestais dessa época?
Sim. Os países pioneiros no aprendizado do manejo de floresta, como Alemanha, Japão e França, cometeram erros mas aprenderam com eles. O Brasil também tem condições de aprender. A história da França é bem interessante. O país cabe dentro de Minas Gerais, mas nunca teve cobertura vegetal e biodiversidade como o Estado brasileiro ainda tem, mesmo depois de tanto desmatamento. Eles também tiveram problema de escassez de madeira. Os franceses não adotaram regras para proibir o uso das florestas, mas já no século 17 começaram a implantar normas para usar as florestas racionalmente, sem destruí-las. As regras surgiram para a sociedade aprender a utilizar e recompor a cobertura arbórea. Desde a metade do século 19, a área florestal francesa não sofreu mais reduções; ao contrário, aumentou. Algumas dessas leis se mantêm até hoje. A França é autossuficiente em madeira e tem, assim como os Estados Unidos, leis muito mais restritivas do que as nossas.

O sr. não mencionou o Japão, que também é um exemplo, não? Apesar da alta densidade demográfica, 69% do território do país está coberto por vegetação.
Sem dúvida se trata de um dos principais exemplos a serem seguidos, pois a industrialização japonesa não veio acompanhada de redução da área nacional de florestas, mas sim da sua expansão, graças ao estabelecimento de plantações florestais com biodiversidade não desprezível no século 18 e, depois, após a Segunda Grande Guerra. O historiador Conrad Totman, especialista em Japão, defende a tese de que a “silvicultura regenerativa” – algo próximo ao que se entende por manejo florestal de baixo impacto – foi desenvolvida no Japão independentemente da Alemanha, país ao qual se atribui a origem da silvicultura.

O que o sr. acha da crítica ao Código Florestal Nacional, de termos leis muito restritivas quanto ao uso de território?
Uma pesquisa realizada pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), de Belém, sobre legislações internacionais apontou que muitos países desenvolvidos têm leis tão ou mais rígidas do que se diz que o Brasil tem hoje, ou pretende ter com o Novo Código Florestal.

Continuar desmatando significaria seguir a lógica dos séculos antes da primeira Revolução Industrial?
Com certeza. É como se o Brasil estivesse no período medieval. O correto seria dizer que, no aspecto florestal, o Brasil não é um país em desenvolvimento, mas um país em desmatamento. Entre 2005 e 2010, o Brasil ficou no primeiro lugar do ranking da ONU (empatado com Austrália e Indonésia) em perda líquida florestal – ou seja, descontando-se todo o eucalipto plantado. Mas, se olharmos para o ranking de PIB per capita, continuamos no mesmo lugar, não evoluímos  nada. A questão é: será que esse desmatamento realmente está gerando desenvolvimento? Não está. Não nos restam mais do que 7% da Mata Atlântica e já foram embora 20% da Floresta Amazônica. O Cerrado está entre 20% e 30% do que era. Na prática, essa necessidade de desmatar para desenvolver não é verdadeira. Porque, se fosse assim, já estaríamos lá – no Primeiro Mundo.

Chegamos ao ponto em que os países desenvolvidos, lá atrás, começaram a fazer o manejo sustentável das florestas, mas não tomamos a atitude que eles tomaram.
Exato. No Brasil, a tecnologia evoluiu para florestas plantadas, mas quanto às florestas nativas a exploração continua a ser muito atrasada. O cultivo do eucalipto, aqui, nasceu da nossa escassez de madeira. Ainda predomina a exploração de alto impacto nas florestas nativas – aquele tipo de extração que, para obter uma árvore, acaba destruindo um hectare inteiro. Por outro lado, sempre existiu a ideia de que após o corte da madeira bastava deixar que a floresta se regenerasse por um período de cerca de 15 anos, e se obteria um potencial – em volume de madeira por hectare – equivalente ou não abaixo do que a floresta oferecia. Só que nunca se considerou o estrago causado na floresta. Quanto mais uma floresta fica fragmentada, menor é a sua capacidade para se regenerar. Mudar a concepção das pessoas de como explorar florestas demora. Precisa de qualificação e de mão de obra, que não é barata. Precisa de investimento em tecnologia. No início, o custo disso é maior. Produzir de maneira sustentável, hoje, é mais caro. Mas se todos os países passassem a monitorar a madeira que estão comprando esse panorama poderia melhorar.

O sr. é um crítico da ideia de que os países desenvolvidos deveriam “financiar” o desenvolvimento verde dos mais pobres, como foi defendido na Rio+20?
É um equívoco. Não se justifica pedir dinheiro porque queremos crescer sem desmatar. Isso significaria reiterar que precisamos avançar mais sobre a Amazônia e o Cerrado para nos desenvolver, o que é falso. O que precisamos mesmo é produzir melhor, com maior rendimento. E ter melhores práticas de distribuição. O desmatamento não é condição necessária ao desenvolvimento. Não é preciso depredar recursos florestais para ter desenvolvimento. Isso é mito. Primeiramente, temos de analisar se fazemos bom uso do que estamos destruindo. Se estamos destruindo, já existe algo errado, porque não é necessário. É perfeitamente possível explorar as florestas nativas de forma sustentável.

Precisamos mais de tecnologia do que de dinheiro?
Precisamos dos dois. A pesquisa científica é cara. A gente precisa entender a riqueza da Amazônia, e isso requer um esforço global. Precisamos de apoio para modificar a estrutura tecnológica e institucional que temos para que nossa economia possa andar sem precisar derrubar mais nenhuma árvore.

O sr. acredita que a fartura de vegetação e biodiversidade dificulta ao brasileiro entender o valor da preservação?
A dificuldade não é a escassez ou a abundância. A questão é que estamos longe de nos preocupar realmente com a disponibilidade de madeira (exceto a de lei), pelo bem e pelo mal. Países como os Estados Unidos e a Austrália, ricos em recursos, fazem um aproveitamento melhor. É complicado discutir o que está na cabeça das pessoas, mas acho que a diferença social no Brasil pesa muito. Temos, principalmente, dois grupos: o que dirige o trator que vai passar a corrente para derrubar a floresta e o que comanda a passagem do trator. É isso o que acontece na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal. Por mais que sejamos a sétima economia do mundo, o nosso nível de desigualdade social é comparável ao de países da África. Enquanto existir o elo maligno entre aquele que aufere o lucro e a pessoa sem opção de trabalho, isso vai continuar a acontecer.

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