Desmate na Mata Atlântica subiu 27% entre 2018 e 2019, indica relatório

Minas Gerais, Bahia e Paraná tiveram as maiores áreas desmatadas, segundo relatório da Fundação SOS Mata Atlântica divulgado hoje

Mata Atlântica na região de Antonina, no Paraná: o estado foi o terceiro que mais desmatou esse bioma entre 2018 e 2019. Crédito: Deyvid Setti e Eloy Olindo Setti/Wikimedia

Bioma historicamente mais castigado do Brasil, a Mata Atlântica sofreu um aumento de 27% nos desmates entre 2018 e 2019. A informação está no relatório Atlas da Mata Atlântica, divulgado pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) nesta quarta-feira (27), data em que se comemora o dia do bioma.

De 1º de outubro de 2018 a 30 de setembro de 2019, registrou-se o desmatamento de 14.502 hectares. No mesmo período entre 2017 e 2018, foram 11.399 hectares desmatados. A subida reverte uma tendência de queda observada desde 2016.

O líder no corte da mata foi Minas Gerais: 4.972 hectares desmatados, segundo o estudo. (O Atlas da Mata Atlântica mapeia desmatamentos acima de 3 hectares, ou 30 mil m².) Na sequência vieram Bahia (3.532 hectares), Paraná (2.767 hectares) e Piauí (1.558 hectares). São os mesmos estados que estavam no topo do desmatamento no período anterior. Na ponta oposta, Alagoas e Rio Grande do Norte conseguiram zerar o desmatamento.

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Segundo o geógrafo Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da SOS Mata Atlântica, os estados com os piores índices na atual edição do Atlas estão historicamente associados ao desmatamento criminoso. Em Minas Gerais, onde a alta em relação ao período anterior foi de 47%, o corte pode estar relacionado à derrubada de mata nativa para o plantio de eucaliptos e à produção de ferro-gusa. Na Bahia (expansão de 78%), o desmatamento estaria ligado à atividade agropecuária na área conhecida como Matopiba, próxima à região de Cerrado. Já no Paraná, as perdas teriam relação com a obtenção de carvão vegetal.

Vale-tudo

Mantovani observa que o governo de Jair Bolsonaro tem uma relação bastante nítida com o que está acontecendo na Mata Atlântica. Ainda em campanha, o atual presidente declarou que “não aceitava” as multas ambientais. “Ele sinalizou um vale-tudo. E esse pessoal [que já desmatava antes] se sentiu inspirado”, avalia o diretor da SOS Mata Atlântica em depoimento ao site G1. “E agora, o despacho do ministro [Ricardo Salles] comprovou o que ele falava na campanha lá atrás: o ministro não entrou para cuidar do meio ambiente do Brasil. Ele entrou com o plano de acabar com o meio ambiente. Esse Atlas já sinalizou que a situação é ruim”.

Um despacho emitido pelo Ministério do Meio Ambiente em abril deste ano recomendou a órgãos ambientais do país que desconsiderassem a Lei da Mata Atlântica, de 2006, e aplicassem em seu lugar o Código Florestal. O Ministério Público Federal informou ao Ibama que descumpra essa orientação do governo, alegando que ela contraria a lei de proteção do bioma.

Mantovani já adiantou que o próximo Atlas também não trará boas notícias. “A prova maior foi a autodenúncia do ministro [Salles] naquela reunião”, afirma. Na citada reunião ministerial, de 22 de abril, Ricardo Salles defendeu “passar a boiada” e “mudar” regras ambientais enquanto a imprensa se dedicava à cobertura da epidemia de covid-19.

Segundo a SOS Mata Atlântica, apenas 12,4% da área de floresta original do bioma (correspondente a cerca de 16,3 milhões de hectares) ainda sobrevive. Um percentual abaixo de 20% representa ameaça de extinção para as espécies nativas. Mantovani também sublinha a necessidade de considerar “desmatamentos formigas”, cuja pequena extensão passa despercebida pelos registros de satélite. Esse fenômeno está associado à construção de casas em margens de rios, regiões de morros ou ampliação de terrenos particulares.

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