Deus em paz com o diabo na Terra do sol

O fotógrafo carioca Frederico Mendes participou pela primeira vez do Encontro da Nova Consciência, durante o Carnaval, em Campina Grande, Paraíba.

No princípio não era o verbo, mas apenas a ideia. Em 1992, ano em que tudo começou, Íris Medeiros, jovem coordenadora de turismo de Campina Grande (PB), conseguiu finalmente realizar o 1° Encontro da Nova Consciência. Ela matutava sobre o evento desde 1989 porque precisava de uma solução para o esvaziamento da cidade durante o Carnaval.

Îris Medeiros, criadora e atual organizadora do Encontro da Nova Consciência, entre duas colaboradoras.

Campina Grande, um dos grandes polos universitários do Nordeste, ficava vazia naqueles dias em que os estudantes voltam para suas casas ou vão para o litoral curtir a folia. Recife, Natal e João Pessoa ficam perto, e Salvador, meca do turismo no verão, também não está longe. Apesar de Campina Grande se situar entre as belas praias paraibanas e a beleza agreste do sertão do Cariri, imortalizada no xote cantado por Luiz Gonzaga, Fagner, Gilberto Gil e por tantos outros e que diz “só deixo o meu Cariri no último pau de arara”, como competir com as atrações e seduções das capitais do litoral?

Carnaval é, por definição, tradição e, em tradução do latim, a festa da carne. Foi assim que Íris teve a visionária sacada: enquanto o Patropi estaria embutido no tal espírito do tríduo momesco, em Campina Grande aconteceria uma espécie de “Almaval”, uma festa da alma, dos espíritos e, por que não, dos corpos sãos em cucas sãs.

o monge beneditino Marcelo Barros, do Recife, um dos mais importantes intelectuais católicos do Brasil e presença assídua em Campina Grande durante os encontros.

Mas como retiros espirituais nessa época são comuns pelo Brasil afora, a proposta teria de ser diferente. Que tal um encontro de todas as tendências religiosas e sociais, à direita, ao centro, acima e à esquerda? Que tal juntar sincretismos e tradicionalismos, ecologistas e materialistas ortodoxos, psicólogos, ufólogos, monges e mães de santo; inimigos íntimos como árabes e judeus, ateus descrentes ou crentes e crédulos de todos os credos credíveis ou absurdos?

Seriam cinco dias de paz, amor, música e muitas conversas para (tentar) salvar o mundo. Woodstock sertanejo, tudo é livre no Encontro da Nova Consciência. Livre de censuras ideológicas e religiosas, assim como de ingressos e cambistas. Entra quem quer, nem que seja apenas para curtir o ar refrigerado da sala onde acontece a maior parte da programação. Neste ano, já que o espaçoso Teatro Severino Cabral (800 lugares) está em obras, alguns eventos foram transferidos para o moderno Sesc local, cujo auditório tem cerca de metade das poltronas.

CINCO DIAS DE PAZ, AMOR, MÚSICA E MUITAS CONVERSAS. WOODSTOCK SERTANEJO, TUDO É LIVRE NO ENCONTRO DA NOVA CONSCIÊNCIA. LIVRE DE CENSURAS IDEOLÓGICAS E RELIGIOSAS, ASSIM COMO DE INGRESSOS E CAMBISTAS

a partir da esquerda, dom Pelé, Íris Medeiros, Ricardo e Ivonete Gonçalves, representantes de Sai Baba.

No escurinho do teatro

Convencer prefeito, governador, o clero local, comerciantes e empresários foi uma guerra. Parecia sonho impossível ou utopia de letra imaginada por John Lennon. Mas a perseverança da paraibana pacifista, fã convicta do beatle, venceu a batalha. E, por mais incrível que parecesse 20 anos atrás, a coisa deu tão certo que já está indo para a 20ª edição em 2011. Apesar de que nem tudo dá sempre certo: no ano passado, o evento quase foi cancelado dois dias antes da abertura. Forças estranhas, não de natureza sobrenatural, mas humana, ou pior, política mesmo, se manifestaram de improviso.

Cássio Cunha Lima, governador do Estado, foi cassado na ocasião, e as verbas que iriam patrocinar o evento ficaram presas numa gaveta. Apesar disso, Íris e Yole, Gil, Vinícius e os vários outros abnegados que integram a ONG Nova Consciência não desistiram: fizeram o evento inteiro sem dinheiro, apenas com a prata da casa e alguns pouquíssimos colaboradores que chegaram a Campina Grande por conta própria. E foi o maior sucesso.

Simin Rabbane, da fé baha’i.

Este ano, felizmente, isso não aconteceu: o governador José Maranhão, que assumiu o cargo, não deixou de colaborar com o evento e liberou a grana das passagens e da hospedagem dos palestrantes convidados. Prova de que, coisa muito rara no Brasil, o Encontro da Nova Consciência transcende as bandeiras partidárias.

Interessante frisar que, em 2008, quando os tarólogos lançaram as cartas ao final do evento, para descobrir qual seria o tom do próximo encontro, apareceu a Torre, carta número 16, que mostra um edifício desabando. Não era para dar certo, pois esta é uma das cartas mais “negativas” do tarô. Deu certo, no entanto, para esses paraibanos que são mesmo arretados e para Íris, que é, sem dúvida, portadora do “raio da selibrina”, expressão nordestina que equivale, mais ou menos, à sulista “ter o chifre furado”.

o médium Lívio Barbosa psicografa mensagens de entidades espirituais.

Este ano, para minha sorte, já que participei do evento pela primeira vez, tudo foram flores, ainda que apenas aquelas pintadas pelos espíritos de Van Gogh, Renoir, Matisse, assim como as pombas da paz dos espanhóis Picasso e Miró, as dançarinas de Toulouse-Lautrec e as marinhas de Pancetti e Monet – alguns dos espíritos de pintores que se manifestaram no palco do evento por intermédio do médium carioca Lívio Barbosa, produzindo dezenas de telas e desenhos executados cada um deles em poucos minutos.

Em uma das mais concorridas sessões do encontro, Barbosa, com a ajuda do seu incansável amigo e colaborador André Rossi e a mãozinha de alguns grandes mestres desencarnados, pintou 30 telas em três horas. Alguns quadros eram pintados simultaneamente com ambas as mãos e sem pincéis. São exemplos de psicopictografia, ou pintura mediúnica. Todos os quadros vêm acompanhados com assinaturas bem parecidas com as dos artistas quando vivos.

Para produzir cada uma das obras, o médium levava de sete a oito minutos. Modigliani, Da Vinci, Michelangelo e a nossa Tarsila também deram suas contribuições coloridas ao evento. E as mais de 350 pessoas presentes, que assistiam deslumbradas a todos os movimentos de Barbosa amplificados em um telão, aplaudiam cada obra pintada como se estivessem em Paris, na França, nos anos 1890, vendo exibições dos pintores impressionistas, então vivos.

O cantor e compositor Arthur Pessoa durante show, acompanhado do grupo Cabruera. O terapeuta Rosenberg Silva durante sessão de taporritmia.

a norte-americana Tracy Regula, sacerdotisa do culto de Isis, no palco do auditório do Sesc em Campina Grande.

Nova teologia da libertação

Herdeira da cultura nordestina, Campina Grande mantém vivo o legado das tradições e manifestações folclóricas e populares da região da Serra da Borborema. É terra natal de Jackson do Pandeiro, Marinês e Elba Ramalho. Na cidade também acontece a maior festa de São João do mundo.

Desde o primeiro encontro, bispos, padres e outras autoridades eclesiásticas participam das atividades e mesas-redondas. O pastor presbiteriano Nehemias Marien foi um palestrante ativo e esteve em todas as edições até sua morte, em 2006. Por sinal, é muito interessante observar, em algumas cerimônias, o ecumenismo de várias religiões abraçadas na causa maior por um planeta melhor e mais limpo. Vários escritores, como a feminista Rose Marie Muraro, compareceram em outras edições, assim como líderes homossexuais e prostitutas organizadas. O que seria do vermelho se todos só gostassem do azul?

Desde o primeiro encontro, bispos, padres e outras autoridades eclesiásticas participam das atividades e mesas-redondas. O pastor presbiteriano Nehemias Marien foi um palestrante ativo e esteve em todas as edições até sua morte, em 2006. Por sinal, é muito interessante observar, em algumas cerimônias, o ecumenismo de várias religiões abraçadas na causa maior por um planeta melhor e mais limpo. Vários escritores, como a feminista Rose Marie Muraro, compareceram em outras edições, assim como líderes homossexuais e prostitutas organizadas. O que seria do vermelho se todos só gostassem do azul?

O MÉDIUM CARIOCA LÍVIO BARBOSA DEU UM SHOW DE PINTURA MEDIÚNICA, CANALIZANDO VÁRIOS PINTORES FAMOSOS, ENTRE ELES PICASSO E VAN GOGH

Neste ano, a palavra e o discurso de dom José Maria Pires, arcebispo emérito da Paraíba – mais conhecido como dom Pelé, talvez por sua pele morena e cabelo sarará –, fizeram a plateia pegar fogo e ele foi aplaudido de pé. O tema escolhido por dom Pelé foi “Ecologia e Religião”. No discurso, o arcebispo condenou severamente os destruidores da natureza, não importando a qual religião pertençam.

Em época de censura mais branda, de governantes mais à esquerda, o resgate de grandes bandeiras libertárias herdadas de maio de 1968, de Paris, de Hanói ou da USP, e desfraldadas aqui no Nordeste, onde o MST manda e desmanda, surgiu como um sopro de vida e de renovação. E dom Pelé, do alto dos seus 92 anos de idade, apareceu como um avatar de dom Helder Câmara, de quem foi amigo próximo. Dom Helder, se vivo fosse, estaria por certo empunhando as mesmas palavras contra aqueles que destroem a vida, os ares, os mares e as matas. Não à toa, durante o tradicional ato ecumênico levado a cabo em praça pública no domingo de Carnaval, o arcebispo emérito foi saudado mais de uma vez com o brado “Saravá, dom Pelé”. O povo sabe o que diz.

a cantora indiana Ratnaba

Na geleia geral da aldeia global

Para acompanhar toda a programação, palestras, debates e embates só mesmo tendo o dom da ubiquidade – a faculdade de estar em diversos lugares ao mesmo tempo. Ou da onipresença típica dos deuses, dos santos e do Papai Noel. Apesar de Campina Grande, com seus 380 mil habitantes, ser relativamente pequena, quase tudo acontece ao mesmo tempo nos cinco dias. O evento é comparável a uma olimpíada em que é preciso se desdobrar para ver todas as modalidades esportivas. Essa dura tarefa vai de sol a quase sol, começando pela manhã até a madrugada. E tudo isso sob a sempre gentil vigilância das recepcionistas e dos organizadores.

o citarista Diego Hauptman

A qualquer momento, durante o encontro, há sempre alguma palestra inusitada acontecendo. Os títulos delas às vezes são tão interessantes quanto as próprias. Em 2010, algumas delas foram: “Econsciências nas caatingas”, por Daniel Duarte, professor da UFPB; “Sustentabilidade e espiritualidade: a permacultura como nova consciência”, pelo xamã Marcos Ninguém; “Ame e ame-se com os óleos essenciais”, da terapeuta pernambucana Goretthi Moura; “Mãe-Terra de todos nós: deusa como natureza vivente e a sustentabilidade do planeta através da perspectiva pagã”, pelo sacerdote wiccano Claudiney Prieto e pela sacerdotisa norte-americana Tracy Regula, vinda da Califórnia para o evento.

ALI EM CAMPINA GRANDE DA PARAÍBA, COMO EM UM VELHO COMERCIAL, NOS ENCONTROS DA NOVA CONSCIÊNCIA SEMPRE CABE MAIS UM, SEMPRE CABEM MAIS CEM OU MAIS MIL

a xamã Yatamalo em meio a crianças indígenas potiguares.

dom Pelé, Yatamalo, e a pajé Potiguara.

O sertão vai virar mar

Como na antiga e profética canção de Sergio Ricardo, imortalizada na cena final de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, uma visita à Pedra do Ingá é significativa e intrigante. O sítio arqueológico fica a 40 quilômetros distante de Campina Grande e vale a visita. Até hoje nenhum arqueólogo, estudioso ou curioso conseguiu decifrar os estranhos desenhos esculpidos nas pedras. Uns dizem que são trabalho de culto de indígenas pré-colombianos. Outros afirmam que os desenhos foram produzidos por exploradores fenícios, egípcios ou da lendária Atlântida em passado longínquo. Outros ainda afirmam que os desenhos em forma de constelações, frutas, figuras humanas e animais foram feitos por extraterrestres. O certo mesmo é que aquela região um dia já foi mar, fato comprovado pelas conchas e fósseis marinhos encontrados no local.

Quem vai ao Ingá volta a ele, com certeza, e para tanto nem precisa jogar três tostões nas águas escuras do Açude Velho, uma Fontana de Trevi da caatinga, sem Fellini, Anita, gato e Marcello. No sertão paraibano, a fome de cultura é maior que a necessidade. Lá, o sonho não acabou e continua gostoso nas padarias das vidas passadas, presentes e reencarnadas. E a cada ano novos padeiros, ou melhor, novos doceiros são arregimentados, conquistados e abduzidos para sempre pelo evento da Nova Consciência.

o xamã Claudiney Prieto; à direita, Pedro Camargo, mestre de cerimônias do encontro.

Não sei se é o gosto do bolo de macaxeira ou da vitamina do suco natural de acerola servido nas refeições, se é o som doce da flauta de Waldemar Falcão e do sitar de Marsicano e de Diego Hauptman, os batuques dos índios, os embalos dos mantras da indiana Ratnabali ou os cânticos dos hare krishnas, ou o forró doido de Biliu de Campina Grande ou o da Cabruêra que fez o povo inteiro dançar; se é o som do violão esferográfico de Arthur Pessoa – ele enfia literalmente uma caneta esferográfica entre as cordas no orifício do instrumento, em um movimento quase sexual, quase explícito.

E o som lembra uma rabeca tocada por um Paganini viajandão. Me lembrei de Jimi Hendrix tocando guitarra com os dentes em 1966, fazendo sexo oral em sua Fender, cantada, gemida e tocada enquanto pegava fogo. Não sei se é o perfume rosa chá da xamã Yatamalo, que também é a psicóloga paraibana Marise Dantas. Ou se é a expressão incrédula mas terna no rosto da mulher que amo e que me acompanhou nessa viagem.

Talvez seja Marshall McLuhan e sua aldeia global, cada vez mais real. O meio é a mensagem, nos dizia ele, ou só uma massagem holística, nos diria o xamã de plantão apto a nos curar dores de corpo e alma, passadas e futuras. Também não sei se é essa tal sustentabilidade, ou talvez a biodiversidade, ou a diversidade, não sei se é a cidade, se é a idade, ou se é a felicidade, a simpatia, a beleza indiscreta e o xote das meninas da ONG que organizam tudo na mais perfeita ordem. É interessante notar que, na verdade, talvez em homenagem à mãe Gaia, a organização do evento é quase toda feminina.

Ali em Campina Grande, nos Encontros da Nova Consciência sempre cabe mais um, sempre cabem mais cem ou mais mil. É só saber querer chegar. O sol nasce para todos, mas é na Paraíba que ele nasce primeiro quando chega ao Brasil. “Here comes the sun”, já nos avisava George Harrison, 41 anos atrás. Pois que venha logo esse segundo Sol junto com os ventos, alinhamentos e benesses de uma nova era aquariana. E que o já tão falado 2012 seja apenas uma folhinha na parede que anteceda 2013, 2014, 2020 e assim até o fim dos tempos. Nova consciência é a utopia de Lennon realizada. Paz e amor

 

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