Documentos revelam versão diferente da história do mago Merlin

Análise de fragmentos de manuscritos medievais em francês apresenta narração de numerosas cenas diversa da versão que depois se firmaria

Imagens multiespectrais dos fragmentos na Biblioteca Central de Bristol obtidas com o espectômetro Team Pigment. Crédito: profª Leah Tether

Fragmentos de manuscritos medievais descobertos em Bristol (Reino Unido) que contam parte da história do mago Merlin, um dos personagens mais famosos da lenda arturiana, foram identificados por acadêmicos das universidades britânicas de Bristol e Durham como alguns dos primeiros exemplos sobreviventes daquela parte da narrativa.

A análise também revelou como os documentos escritos à mão acabaram em Bristol e diferenças no texto em relação às versões anteriores da história. Usando tecnologia de imagem multiespectral, os pesquisadores conseguiram ainda ler seções danificadas do texto invisíveis a olho nu e puderam até identificar o tipo de tinta usado.

Os sete fragmentos de pergaminho foram localizados por acaso no início de 2019 por Michael Richardson, da Biblioteca de Coleções Especiais da Universidade de Bristol. Eles foram colados nas encadernações de quatro volumes dos primeiros tempos modernos, publicados entre 1494-1502 e mantidos na coleção de livros raros da Biblioteca Central de Bristol.

Análise detalhada

Os fragmentos contêm uma passagem da sequência de textos do francês antigo conhecida como Ciclo da Vulgata ou Ciclo Lancelot-Graal, que data do início do século 13. Partes desse ciclo podem ter sido usadas por Sir Thomas Malory (1415-1471) como uma fonte para seu Le Morte Darthur (impresso pela primeira vez em 1485 por William Caxton), que é o texto de origem principal para muitas versões modernas da lenda arturiana em inglês.

A descoberta atraiu atenção significativa da mídia, com o Bristol Merlin, como rapidamente se tornou conhecido, fazendo manchetes em todo o mundo.

Após a descoberta, a professora Leah Tether, presidente da Sociedade Arturiana Internacional (Ramo Britânico) do Departamento de Inglês da Universidade de Bristol, seu marido, o historiador medieval e especialista em manuscritos dr. Benjamin Pohl, do Departamento de História da Universidade de Bristol, e a drª Laura Chuhan Campbell, especialista nas histórias de Merlin em francês antigo da Universidade de Durham, começassem a examinar e analisar os fragmentos em detalhes para descobrir mais sobre eles.

Estudo linguístico

Suas pesquisas e descobertas colaborativas, que incluem uma transcrição completa e tradução para o inglês do texto, foram reunidas em um novo livro, chamado The Bristol Merlin: Revealing the Secrets of a Medieval Fragment (Bristol Merlin: Revelando os Segredos de um Fragmento Medieval), publicado recentemente pela ARC Humanities Press com imagens coloridas de página inteira dos fragmentos feitas por Don Hooper, fotógrafo premiado da Universidade de Bristol.

A professora Tether disse: “Conseguimos datar o manuscrito do qual os fragmentos foram retirados até 1250-1275 por meio de uma análise paleográfica (caligrafia) e localizá-lo ao norte, possivelmente nordeste da França, por meio de um estudo linguístico. O texto em si (a Suite Vulgate du Merlin) foi escrito por volta de 1220-1225, então isso coloca o manuscrito de Bristol dentro de uma geração da autoria original da narrativa”.

Ela prosseguiu: “Também conseguimos colocar o manuscrito na Inglaterra já em 1300-1350, graças a uma anotação na margem – novamente, pudemos datar a caligrafia e identificá-la como uma caligrafia inglesa. (…) A maioria dos manuscritos do texto que se sabe ter estado na Inglaterra na Idade Média foi composta depois de 1275, então este é um exemplo especialmente antigo, tanto de manuscritos da Suite Vulgate em geral em qualquer lugar, mas especialmente daqueles que se sabe terem encontrado seu caminho para a Inglaterra da França na Idade Média”.

Imagem de um dos fragmentos que mostra danos ao texto e uma inscrição no volume em que o pedaço foi colocado. Crédito: Don Hooper
Equipamento especial

“Trabalhar com o professor Andy Beeby, do Departamento de Química da Universidade de Durham, também foi uma virada de jogo para nosso projeto, graças ao espectrômetro Raman móvel desenvolvido por ele e sua equipe, Team Pigment, especialmente para o estudo de manuscritos. Capturamos imagens de seções danificadas e, por meio de processamento digital, pudemos ler algumas partes do texto com mais clareza”, acrescentou Tether. “Esse processo também nos ajudou a estabelecer, uma vez que o texto parecia escuro sob luz infravermelha, que os dois escribas tinham de fato usado uma tinta à base de carbono – feita de fuligem e chamada de ‘negro de fumo’ – em vez da mais comum tinta ferrogálica, feita de nozes, que pareceria clara sob iluminação infravermelha. A razão para a escolha da tinta dos escribas pode ter a ver com os materiais de fabricação de tinta específicos disponíveis perto de sua oficina.”

Além de descobrir detalhes sobre a idade do manuscrito, a equipe também conseguiu desvendar como os fragmentos foram parar nos livros e como os próprios livros chegaram a Bristol.

Com base nas encadernações dos livros em que os fragmentos são agora encadernados como guardas (uma cópia em quatro volumes das obras do filósofo francês Jean Gerson, impressa em 1494-1502), a equipe conseguiu deduzir que os fragmentos, e o manuscrito do qual eles vieram, tornou-se “lixo” em Oxford ou Cambridge, e foram então reciclados, para seu pergaminho, em vez de seu conteúdo, como materiais de encadernação nos livros em que agora foram encontrados. Isso provavelmente aconteceu antes de 1520.

Pistas sobre a trajetória

A razão para o manuscrito ser descartado é desconhecida, mas pode ter a ver com novas versões em inglês da lenda arturiana que se tornaram disponíveis por um novo meio de impressão (como Le Morte Darthur, de Malory).

Com base na proveniência conhecida de outros livros da coleção de Bristol, o caminho provável para os livros em Bristol era por meio de Tobias Matthew, arcebispo de York (1606-28). Antes dessa função, Matthew havia sido reitor e bispo de Durham e colecionou diversos livros pertencentes aos monges, muitos dos quais tinham encadernações de Oxford em particular, porque muitos dos monges de Durham estudaram no Durham College, na Universidade de Oxford (agora Trinity College).

Matthew, que nasceu em Bristol, mais tarde, em 1613, cofundou a Biblioteca Pública de Bristol e doou um grande número de seus livros para a fundação da biblioteca – alguns dos quais chegaram postumamente. Os livros contendo os fragmentos de Merlin provavelmente estavam entre seu legado.

Diferenças significativas

Além disso, a equipe descobriu que os fragmentos de Bristol contêm evidências de diferenças sutis, mas significativas, da narrativa das histórias encontradas nas edições modernas.

Havia descrições mais longas e detalhadas das ações de vários personagens em certas seções – particularmente em relação a ações de batalha. Um exemplo disso é onde Merlin dá instruções para quem vai liderar cada uma das quatro divisões das forças de Artur: os personagens encarregados de cada divisão são diferentes da versão mais conhecida da narrativa.

Às vezes, apenas pequenos detalhes foram alterados. Por exemplo, o rei Claudas é ferido nas coxas na versão encontrada nas edições modernas. Nos fragmentos, a natureza da ferida não é dita, o que pode levar a diferentes interpretações do texto, porque coxa ferida muitas vezes era usada como metáfora para impotência ou castração.

Imagem do texto mostrando as mãos dos dois escribas. Crédito: Don Hooper
Cenas de batalha

Outro exemplo é um relato ligeiramente atenuado, em comparação com outras versões, do encontro sexual de Merlin com a feiticeira Viviane, mais conhecida pelos leitores de Malory como a Dama do Lago.

As sete folhas representam uma sequência contínua da narrativa da Vulgata Merlin (embora estivessem “fora da ordem cronológica”) – especificamente uma passagem da seção conhecida como Suite Vulgate du Merlin (Continuação da Vulgata de Merlin).

Os eventos começam com Artur, Merlin, Gawain e vários outros cavaleiros, incluindo o rei Ban e o rei Bohors, se preparando para a batalha em Trebes contra o rei Claudas e seus seguidores.

Merlin traça a melhor estratégia de ataque. Segue-se uma longa descrição da batalha. Em um ponto, as forças de Artur parecem sitiadas, mas um discurso de Merlin exortando os combatentes a evitar a covardia os leva a lutar novamente. Merlin lidera o ataque usando o estandarte de dragão especial de Sir Kay que o mago dera a Artur, o qual respira fogo de verdade.

No final, as forças de Artur triunfam. Os reis Artur, Ban e Bohors e os outros cavaleiros estão acomodados no Castelo de Trebes.

Encontro com a Dama do Lago

Naquela noite, Ban e sua esposa, a rainha Elaine, concebem um filho. Elaine então tem um sonho estranho com um leão e um leopardo, o último dos quais parece prefigurar o filho ainda por nascer de Elaine. Ban também tem um sonho terrível em que ouve uma voz. Ele acorda e vai para a igreja.

Ficamos sabendo que durante a estada de Artur no reino de Benoic pelo mês seguinte, Ban e Bohors podem continuar a lutar e derrotar Claudas. Depois que Artur sai para cuidar dos assuntos em suas próprias terras, no entanto, Claudas aparece mais uma vez triunfante.

A narrativa então se move para a explicação parcial de Merlin sobre os sonhos de Ban e Elaine. Em seguida, Merlin encontra Viviane, que deseja saber como fazer as pessoas dormirem (ela quer fazer isso com seus pais). Merlin fica com Viviane por uma semana, aparentemente se apaixonando por ela, mas resiste a dormir com a feiticeira. Ele então retorna a Benoic para se juntar a Artur e seus companheiros.

A professora Tether afirmou: “Além das conclusões empolgantes, uma coisa que este estudo de edição e tradução do Bristol Merlin revelou é o valor incomensurável da colaboração interdisciplinar e transinstitucional, que em nosso caso forjou um modelo holístico e abrangente para estudar fragmentos de manuscritos medievais que esperamos irão informar e encorajar futuros trabalhos no campo. (Ele) Também nos mostrou o grande potencial de manuscritos locais e coleções de livros raros em Bristol, particularmente na Biblioteca Central, onde há muitos mais fragmentos de manuscritos não identificados aguardando descoberta.”

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