Domenico De Masi

O sociólogo italiano fala de seu amigo Oscar Niemeyer e do auditório que o arquiteto projetou para a cidade de Ravello, já visto como obra-prima.

“Oscar Niemeyer é o gênio mais completo de nosso tempo sob todos os aspectos: artístico, ético, político e humano”

Escritor, jornalista, sociólogo, é um dos mais importantes personagens da cultura italiana contemporânea. Presidente da Fundação Ravello, muito ligado ao Brasil, amigo íntimo de Oscar Niemeyer, ele foi um dos principais artifices da construção, na localidade amalfitana, do auditório monumental que leva o nome do arquiteto brasileiro

Neste ano em que Brasília completa seu cinquentenário, a belíssima Ravello, na Costa Amalfitana, sul da Itália, festejou a inauguração do aguardado Auditorium Oscar Niemeyer.

Pairando sobre o Mediterrâneo numa encosta a 365 metros de altura, com a forma de uma proa de barco cortando o mar, o edifício é projeto do homenageado, que o presenteou à comunidade de Ravello pela amizade que nutre por . O proeminente sociólogo marxista italiano, autor do best-seller O Ócio Criativo (Editora Sextante) e de A Emoção e a Regra (Editora José Olympio), conversou com PLANETA enquanto admirava o azul mediterrâneo do terraço do novo complexo cultural pelo qual tanto lutou nos últimos dez anos: “Oscar não gosta de viajar, mas vieram José Sussekind (autor do projeto de engenharia e parceiro de Niemeyer em vários outros projetos) e muita gente ilustre para a inauguração. A grande estrela, porém, foi o próprio Auditorium.”

Cidadão honorário e presidente da Fundação Ravello (www.fondazioneravello. it), De Masi se divide há 20 anos entre o vilarejo amalfitano, onde é vizinho (“de muro”) do escritor norte-americano Gore Vidal, Roma, onde dirige a cátedra de sociologia da Universidade La Sapienza, e o Brasil (“minha segunda pátria”). Da janela perto da mesa do escritório de seu apartamento romano, o professor avista os telhados da capital, entre eles o da embaixada brasileira, na Piazza Navona: “O Brasil e eu temos um caso de paixão”, confessa.

Financiada pela fundação a um custo de 18,5 milhões de euros, a construção do Auditorium levou três anos, sofreu entraves burocráticos e a intervenção de um grupo verde contrário à aprovação, finalmente aprovada pela comunidade de Ravello. Espaço polivalente, o complexo do Auditorium se divide em três pisos que suportam 3.000 m2 de concreto armado de alta resistência em balanço no topo de uma rocha que cai vertiginosamente no mar. Uma grande cúpula com tratamento acústico high tech coroa o teatro de 600 lugares. O pano de fundo do palco, um gigantesco óculo de pano de vidro, emoldura a vista panorâmica para o tramonto (pôr do sol) al mare, às nove da noite no alto verão.

Com seus 18 hotéis distribuídos em vilas e palacetes, um respeitado festival de música (www.ravellofestival.com), uma população fixa de 2.500 habitantes e uma história milenar, Ravello é patrimônio mundial da Unesco e um destino da elite cultural há séculos. Nesse vilarejo, percebe-se que a comunidade tem consciência de que o conjunto de seu charme é sua maior fonte de riqueza.

A esplêndida localização, a influência bizantina, as ruelas medievais, os frutos do mar e a hospitalidade meridional são características que tornaram Ravello um destino inspirador, capaz de atrair nomes desde a Idade Média. O Decameron, de Giovanni Boccaccio, foi a primeira obra literária a registrar os encantos locais. “(…) próximo a Salerno há uma encosta que cai no mar, chamada por seus habitantes de Costa D’Amalfi. Tem vilarejos, jardins, fontes e ricos mercadores. Entre as cidadezinhas, uma se chama Ravello”, escreveu o poeta medieval. Hospedada na Villa Cimbrone, Greta Garbo viveu um tórrido caso com o maestro Leopold Stokowski. Até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o cirurgião plástico Ivo Pitanguy já foram atraídos por seus encantos milenares. O compositor Richard Wagner – que inspirou a criação, em 1953, do Festival de Ravello – compôs o segundo ato de Parsifal, sua última obra-prima, em 1880, nos jardins do século 11 da Villa Rufolo.

O que levou à construção do Auditorium Oscar Niemeyer em Ravello?

Ravello é uma cidadezinha de extraordinária beleza. Tem uma localização privilegiada e obras de arte de épocas distintas em todo canto – vários de nossos prédios e igrejas são do século 12.

Esse ambiente excepcional com clima mediterrâneo, aliado à simpatia do povo e às delícias de nossa cozinha, tornou o vilarejo, desde o início da Idade Média, uma meca de viajantes ilustres. Boccaccio, Wagner, Virginia Woolf, D.H. Lawrence, Gide, Mirò, Escher, Grieg, Greta Garbo, Truman Capote, Gore Vidal e tantos outros, viveram aqui e, inspirados pela beleza do local, escreveram grandes obras em Ravello.

Ravello sobrevive de seu pa trimônio cultural. Quando surgiu a ideia de construir um auditório?

Foi no final do século 19. Desde então, a comunidade já pensava em fazer uma homenagem a Wagner, que viveu e compôs aqui. A cidade vive da música desde 1953, quando criamos nosso festival de verão, com duração de 90 dias, e os músicos se apresentam a céu aberto nos jardins de vilas históricas. Em 2009, recebemos 97 mil pessoas do mundo todo. Mas, no inverno, o turismo cessa, os hotéis fecham as portas. Com o Auditorium Oscar Niemeyer podemos apresentar concertos e espetáculos, abrigar convenções e movimentar nosso turismo cultural durante o ano todo. No final deste inverno, em março, fizemos no Auditorium Oscar Niemeyer nosso primeiro Ravello Winter Festival, com seis grandes orquestras da Europa. Antes de cada concerto, houve a leitura de uma obra literária por um grande ator.

Mas a ideia de um auditório projetado por Niemeyer surgiu por quê?

No verão de 2000, o prefeito decidiu que chegara o momento. Falou comigo, na presença do jornalista Roberto d’Avila, e veio a ideia de convidar Oscar Niemeyer, grande amigo meu e de Roberto. No Rio, Roberto convidou Oscar, que aceitou, entusiasmado. Como ele não viaja de avião, fornecemos todas as informações técnicas sobre Ravello e as condições do terreno. No dia 23 de setembro de 2000, no Rio, Oscar me presenteou o projeto: a maquete, seis desenhos técnicos, o memorial descritivo e um desenho seu com uma dedicatória a mim. Foi uma emoção.

E depois?

Veio a aprovação oficial pela comunidade de Ravello e Oscar trabalhou quatro meses no detalhamento. No dia 28 de maio de 2003, no Rio, na presença do presidente Lula, o prefeito de Ravello e eu recebemos o projeto.

Qual foi a reação da comunidade de Ravello diante da proposta?

Veja só, 70 dias bastaram para esse gênio projetar uma obra-prima, mas enfrentamos dez anos de luta com a burocracia italiana para finalizá-lo… Fomos vencendo os impasses, que foram muitos, depois tudo fluiu. A construção foi aprovada pela maioria de votos porque a comunidade foi percebendo os benefícios de uma obra desse nível para a cidade e a região como um todo, mesmo aqueles que não queriam perturbar a silhueta medieval de Ravello. Deu tão certo que o prefeito que propôs a construção foi reeleito.

Mas surgiram problemas com grupos ecologistas. Na Itália, temos cinco grupos importantes que lutam pelo meio ambiente. Três foram favoráveis, um foi indiferente e o outro foi completamente contrário ao projeto.

No passado, esse grupo impediu a aprovação de dois projetos em Veneza: um de Le Corbusier e outro de Frank Lloyd Wright. Eles recorreram para bloquear o projeto de Niemeyer, fizeram o impossível para impedir, retardando sua realização.

O que pesou a favor do projeto de Niemeyer? Afinal, a Itália tem grandes arquitetos. É verdade, a Itália tem grandes arquitetos, sou amigo da maioria deles. Mas somos por tradição um país aberto à contribuição dos gênios da humanidade. Temos projetos belíssimos do francês Jean Nouvel, do espanhol Santiago Calatrava, do inglês Norman Forster, do norte-americano Richard Meyer, da iraniana Zaha Hadid.

Niemeyer é respeitado no mundo todo e tem importantes projetos em Milão e em Turim. Distribuí uma petição entre os maiores arquitetos italianos e eles assinaram a favor da aprovação.

O sr. pode descrever o projeto?

O complexo é uma síntese da criatividade inesgotável desse brasileiro, que o desenhou aos 92 anos! Está jogado sobre o Mediterrâneo, preso ao topo de uma escarpa que cai vertiginosamente sobre o mar a 365 metros de altura. Parece levitar! Tem uma área total de 3.000 m2, que consiste de três elementos: o auditório curvo como um instrumento musical, uma ampla praça de onde se contempla o Mediterrâneo e uma construção destinada ao bar e à livraria. Os materiais utilizados foram basicamente três: cimento armado, cimento de alta resistência e vidro.

Uma única cúpula “suspensa” no vazio cobre parte da praça, o auditório e o foyer. É belíssimo! Tudo é muito inteligente. O serviço está concentrado no piso inferior. Na parte inferior à livraria, temos o escritório. Embaixo da praça há dois andares de estacionamento. Abaixo do auditório estão os camarins, o depósito, a sala de imprensa e a máquina de ar-condicionado.

Fale sobre o auditório. Ele é curvo, como “as curvas da mulher amada”, como sempre diz Niemeyer sobre suas obras. Cada fileira de poltrona possui uma tonalidade de azul, em alusão a uma onda do mar. Tudo foi projetado com a mais alta tecnologia. A cúpula possui um revestimento acústico de última geração. As poltronas foram desenhadas de forma a absorver o som, como faz o corpo humano, eliminando os ruídos e equalizando o som. A acústica tem uma distribuição perfeita e leva em conta a variação de público.

Para distribuição do ar e eliminação do ruído do ar-condicionado foram desenvolvidos 400 difusores com saídas localizadas em cada uma das poltronas. O auditório tem 400 poltronas, podendo ser acrescidas mais 200, totalizando 600 lugares. O piso é de madeira certificada, com tratamento especial. O palco possui cinco plataformas móveis que permitem variações.

Qual o significado desse projeto pa ra Ravello?

Agora, mesmo no inverno, poderemos ter apresentações de música sinfônica, de câmara, dança, música popular, jazz, seminários, convenções, exposições de arte, mostras de vídeo, cinema e até exibições esportivas, como ginástica artística. O Auditorium é um passo significativo no futuro da nossa comunidade, que até o ano passado ficava sem turismo no inverno. Um projeto bem pensado, de arquitetura de grande qualidade, tem uma influência na economia local que ultrapassa sua área construída. O de Ravello é uma joia para as futuras gerações que pisarem as pedras do seu terraço para admirar o azul do mar e ouvir a música imortal dos grandes mestres.

O contraste entre a linha curva e a linha reta, o amor pela música, o respeito pelo meio ambiente estão plasmados no projeto. A longevidade existencial e criativa de suas linhas, a simplicidade e a surpresa, a complexidade e a maturidade estrutural são características que desde o começo estiveram presentes na obra de Niemeyer. Estão ligadas à sua maneira de ser, agir, criar. O poeta John Keats dizia que uma obra de arte é uma joia que será usufruída pelos tempos que estão por vir. O Auditorium é uma síntese da arquitetura de Niemeyer.

Tem formas puras, linhas limpas e a capacidade de exaltar a beleza natural da vista panorâmica sobre o Mediterrâneo. Servirá como uma ponte da cultura latina entre a Itália e o Brasil. Nossos países têm traços em comum como a sensualidade, a alegria, a hospitalidade, a beleza, a musicalidade. No Auditorium, a música irá compor um futuro mais belo, mais justo.

 

Quando o sr. conheceu Oscar Niemeyer?

Queria muito conhecê-lo e um dia pedi ao meu editor brasileiro, José Olympio, para marcar o encontro. Fui ao seu estúdio, na Avenida Atlântica, e ficamos bons amigos. Isso foi em 1999.

Desde então, quando vou ao Rio, almoçamos juntos, ficamos horas conversando e admirando o mar de Copacabana.

Seu laço com o Brasil surgiu nesse encontro?

Não, foi um pouco antes. Nos anos 1990, a jornalista Monica Falcone me entrevistou na minha casa em Roma para a revista Veja e a partir daí comecei a receber convites. Desde então, perdi a conta de quantas vezes estive no País. Meus livros começaram a ser publicados em português e iniciou-se meu namoro com o Brasil. Considero-o minha segunda pátria.

O que representa Oscar Niemeyer para o sr.?

Tenho a sorte de ser amigo de indivíduos criativos, geniais, mas ninguém me fascina como Oscar, um menino de uma certa idade. É o gênio mais completo de nosso tempo sob todos os aspectos: artístico, ético, político e humano. Compartilhamos a mesma visão social, o amor pela beleza, a indignação diante da injustiça. Ele diz: “Eu me envergonharia se fosse um homem rico.” Eu também, se fosse rico, me envergonharia. Oscar Niemeyer é um presente que o Brasil deu ao mundo. E este nosso mundo nunca lhe será grato o suficiente.

SERVIÇO

Info – www.ravellofestival.com

www.fondazioneravello.it

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