Donos do próprio dinheiro

Criados em vilas e favelas, dezenas de bancos comunitários estão imprimindo moedas próprias, movimentando o empreendedorismo local e impulsionando uma dinâmica em que todos ganham.

Denis Cardoso

Quando pensamos em bancos, imaginamos grandes empresas com agências elegantes, equipadas com caixas eletrônicos e funcionários engravatados, muita burocracia e mil procedimentos de segurança. Mas dezenas de pequenas instituições financeiras estão mudando a relação que milhares de brasileiros têm com o próprio dinheiro. São os bancos comunitários, criados em vilas e favelas, que contam com moeda e sistema de crédito próprios e fomentam as economias locais. Hoje já existem 104 dessas instituições no país, e elas estão proliferando. De 2006 a 2012, o número de bancos comunitários aumentou dez vezes, de nove para 98 agências. 

Diferentemente das agências convencionais, essas instituições não consultam o nome do cliente no Serasa ou no Serviço de Proteção ao Crédito antes de abrir uma conta. Consultam a comunidade. “Os bancos comunitários têm um olhar mais social do que financeiro; avaliam que benefícios essa pessoa traz para o local”, explica o economista iago Paiva Ferreira, que desenvolveu uma pesquisa sobre economia solidária. No ano passado, esse tipo de instituição financeira movimentou R$ 18 milhões em pequenos empréstimos em 19 Estados.

Uma das condições para a criação de um banco comunitário, como o próprio nome já dá a entender, é o envolvimento da comunidade. Isso porque o objetivo final não é o lucro, e sim o desenvolvimento da economia do entorno. Para tanto é criada uma moeda própria, que circula apenas na comunidade. Os moradores podem pegar dois tipos de empréstimo: um para produção, como reforma de uma loja ou compra de estoque, em reais e outro para consumo, compra de alimentos e outros produtos, na moeda do banco. 

Dessa forma, artigos como alimentos, roupas, sapatos e até serviços de beleza ou aulas são consumidos na comunidade, nas lojas que aceitam a nova moeda, fazendo com que o dinheiro não deixe a região e impulsione a economia local. “Na criação do nosso banco foi feito um mapeamento do consumo da região e descobriu-se que apenas 20% da renda dos moradores circulava dentro da comunidade. Era o território que era pobre. O que adianta você ter R$ 100 mil, se 80% vai para outros bairros da cidade?” – pergunta Asier Ansorena, coordenador do setor de crédito do Banco Palmas. 

Não é possível contar a história da economia solidária no Brasil sem falar do Banco Palmas. Criado em Fortaleza em 1998 para levantar a economia da comunidade de Palmeiras, somente em 2013 a instituição emprestou R$ 3 milhões em créditos para a produção e mais de R$ 700 mil em crédito para o consumo local. Muitos dos empréstimos em palmas, a moeda do banco, são de valores pequenos, de R$ 50 a R$ 300. E mesmo os créditos para a produção não chegam a cifras milionárias, mas são o suficiente para mudar a realidade, uma vez que todo o dinheiro é revertido para a comunidade.

Crescer e multiplicar

“No capitalismo, todo mundo trabalha, mas algumas instituições se apropriam desse capital. No caso dos bancos comunitários, o lucro é socializado. Os bens ficam ali mesmo. Não vão para grandes lojas ou instituições multinacionais”, avalia a especialista em gestão social e vice-presidente da cooperativa Trilha Mundos, Dora Sugimoto.

Em 2003, a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária deu um impulso decisivo às propostas da comunidade de Palmeiras. Dois anos depois, foi criado o Instituto Banco Palmas, com o objetivo de incentivar a criação de associações semelhantes em outros Estados.

Hoje, as instituições estão presentes em quilombos, comunidades de pescadores, aldeias indígenas e em favelas, como o Morro do Alemão, no Rio de Janeiro. Todas as “agências” são geridas e fiscalizadas pela comunidade. O dinheiro para iniciar os bancos comunitários também vem do local, seja de rifas, seja de vaquinhas ou de eventos de arrecadação de fundos. 

Outra fonte importante, presente em 30 das 104 instituições existentes no país, é a função de correspondente bancário. “Estabelecemos relações entre os bancos comunitários e os bancos públicos, principalmente com a Caixa Econômica Federal, e hoje eles prestam os mesmos serviços que uma lotérica presta, como pagamento de contas, depósito, etc. Por isso, eles recebem uma porcentagem por cada operação, e o lucro é remetido para a própria comunidade”, explica o coordenador-geral de Comércio Justo e Crédito da Secretaria Nacional de Economia Solidária, Haroldo Mendonça. 

Uma das instituições criadas com a ajuda do Instituto Palmas foi o Banco Comunitário Tupinambá, o primeiro do tipo na Amazônia. Situado na Baía do Sol, na ilha de Mosqueiro, no Pará, a instituição nasceu em 2009 com um lastro inicial de R$ 5 mil, pela iniciativa de um grupo de sete professores. Cinco anos e muitos percalços depois, eles já fecharam um convênio como correspondentes bancários com a Caixa, receberam intercambistas de três países e concederam cerca de R$ 560 mil em empréstimos, até agosto de 2014. 

“Foi realizada uma pesquisa aqui na comunidade e ficou constatado que, se antes apenas 2% do consumo dos moradores era feito na região, depois da abertura do banco comunitário esse valor passou para 73%. Agora temos três novas panificadoras, cinco novos frigoríficos e 13 novos pontos de comércio”, conta, orgulhosa, uma das fundadoras do Banco Tupinambá, Maria Ivoneide do Vale, detentora do prêmio nacional de Consultora Natura Inspiradora por seu papel na criação e gestão da instituição. 

As mulheres são uma forte presença nos bancos comunitários, seja por seu papel de liderança, seja pelo seu envolvimento com a economia doméstica. Tanto que o Instituto Banco Palmas criou em 2010 o Projeto Elas, voltado especificamente para mulheres beneficiárias do Bolsa Família. “Começamos com um programa de microcrédito, com empréstimos de R$ 50 a R$ 150, mas quando olhamos a parte social, vimos que elas estavam completamente isoladas, algumas sozinhas, cuidando de três, quatro filhos. Elas moravam em Fortaleza e a maioria nem sequer tinha ido à praia”, diz Asier Ansonarena, do Banco Palmas.

Uma das primeiras providências do Projeto Elas foi, então, convocar uma reunião com as mulheres, é claro, na praia. A partir daí foram desenvolvidas linhas de microsseguro e poupança específicas para elas, que começaram a ter oficinas de capacitação profissional, economia doméstica e a criar grupos de apoio. A filosofia já era adotada com muitos outros moradores da região, que tinham à disposição não apenas a possibilidade de um empréstimo a juros baixos, mas a chance de realmente aprender a gerenciar melhor o seu dinheiro. No Banco Tupinambá, do Pará, inclusive, quem pretende pegar um empréstimo para produção tem que obrigatoriamente passar, primeiro, pela oficina de educação financeira. 

Hoje as mulheres que participaram daquela primeira reunião na praia de Fortaleza já formaram outro grupo, que se chama Emancipadas. Não poderia ser um retrato melhor do que os bancos comunitários pretendem fazer pelos seus “clientes”.

 

Comunidade emancipada

O surgimento do Banco Palmas está intimamente ligado com a comunidade de Palmeiras, na periferia de Fortaleza (CE). A favela surgiu em 1973, com uma série de remoções realizadas pela prefeitura. No lugar não havia nenhuma infraestrutura, apenas mato. Com a ideia de trazer saneamento básico e asfaltamento para a região, os moradores criaram uma associação em 1981. Com mobilização forte, conseguiram levar não só esgoto e asfalto, mas luz, escola e transporte para as crianças.

Entretanto, a melhoria de vida no local também gerou problemas. “As pessoas começaram a se ver obrigadas a sair, porque não tinham como pagar tantas contas, de água, de luz e os serviços que conquistaram. Precisavam vender as casas para morar em lugares piores, porque a região não gerava emprego e renda”, conta A,nsier Ansorena, um espanhol que veio passar seis meses em Fortaleza estudando a comunidade e nunca mais saiu.

Como resolviam tudo em assembleias, a associação convocou uma discussão. Surgiu, então, a pergunta: “Por que somos pobres?” “A resposta óbvia seria porque não temos dinheiro”, ri Ansorena. Mas, na verdade, pesquisas feitas pelos moradores revelaram que dinheiro havia, mas acabava indo para as lojas do centro. Foi então que os moradores decidiram criar um projeto para estimular a economia local. Depois de 90 reuniões, chegaram ao projeto final do Banco Comunitário Palmas e sua relação com o dinheiro nunca mais foi a mesma.

 

De baleiro a empresário

Uma das pessoas que contaram com a ajuda do Banco Tupinambá foi Nelson Silva Júnior, 28 anos. Pequeno comerciante da ilha de Mosqueiro, no Pará, ele começou seu negócio com um carrinho de balas na frente de um colégio. “Eu fi cava debaixo da barraca de uma senhora, porque aqui chove muito, e aí fica complicado”, conta o comerciante. Quando a mulher resolveu vender a barraca, a situação de Nelson Silva se complicou de vez, mas, graças ao banco comunitário, acabou melhorando.

“Peguei um empréstimo de R$ 1,5 mil e comprei a barraca. Fui trabalhando e fi z melhorias, coloquei estruturas de alvenaria, teto e tudo mais”, conta Nelson Silva. Hoje, ele vende pizza, hambúrgueres e sorvetes na lanchonete “Fé em Deus”. O ganho diário, que antes girava em torno de R$ 80 por dia, hoje chega a R$ 250. Com o dinheiro ganho adquiriu um carro e fez melhorias na sua casa. Além, é claro, de quitar o empréstimo com o Banco Tupinambá.

Nelson Júnior montou o Fé em Deus, no Pará, com a ajuda do Banco Tupinambá. No detalhe, a moeda da instituição.

 

 

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