Dose alta de vitamina D não funciona em casos mais sérios de covid-19

Ensaio clínico conduzido por pesquisadores da USP mostrou que tratamento não reduziu o tempo de internação ou a necessidade de terapia intensiva em casos moderados e graves

Vitamina D: não houve diferença significativa entre os grupos estudados. Crédito: Mx. Granger/Wikimedia Commons

Poderia uma alta dose de vitamina D administrada no momento da internação hospitalar melhorar a evolução de pacientes com covid-19 moderada ou grave? De acordo com um estudo brasileiro, publicado nesta quarta-feira (17 de fevereiro) no “Journal of the American Medical Association (Jama)”, a resposta é não.

O ensaio clínico randomizado, duplo-cego e placebo-controlado – modelo considerado padrão-ouro para avaliar a eficácia de medicamentos – foi conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) com apoio da Fapesp. Participaram 240 pacientes atendidos no Hospital das Clínicas (HC-FM-USP) e no Hospital de Campanha do Ibirapuera, entre junho e agosto de 2020.

“Estudos anteriores in vitro ou com animais mostraram que a vitamina D e seus metabólitos, em determinadas situações, podem ter efeito anti-inflamatório, antimicrobiano e modulador da resposta imune. Decidimos então investigar se uma dose alta da substância poderia ter efeito protetor no contexto de uma infecção viral aguda, seja reduzindo a inflamação ou diminuindo a carga viral”, conta à Agência Fapesp a pesquisadora Rosa Pereira, coordenadora do projeto.

Sem diferença significativa

Os voluntários foram divididos aleatoriamente em dois grupos. Parte recebeu uma única dose de 200 mil unidades (UI) de vitamina D3 diluída em óleo de amendoim. Os demais receberam apenas o óleo de amendoim. Todos os participantes foram tratados com o protocolo hospitalar padrão, que envolvia antibióticos e anti-inflamatórios.

O principal objetivo foi avaliar se a suplementação aguda teria impacto no tempo de internação dos doentes. Mas também se buscou avaliar se haveria redução do risco de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), entubação e morte.

Para nenhum dos desfechos clínicos avaliados foi observada diferença significativa entre os grupos. Pereira ressalta que o ensaio foi desenhado para avaliar principalmente o impacto no tempo de internação. Para mensurar o efeito sobre a mortalidade de forma adequada, seria necessário um número maior de voluntários.

“Até este momento, podemos dizer que não há indicação para ministrar vitamina D a pacientes que chegam ao hospital com a forma grave da covid-19”, afirma a pesquisadora.

Na avaliação de Bruno Gualano, pesquisador da FM-USP e coautor do artigo, esses achados demonstram que por enquanto não existe uma “bala de prata” para o tratamento da covid-19. “Isso não significa, contudo, que o uso continuado de vitamina D não possa exercer alguma ação benéfica”, afirma.

A dose ideal

Atualmente, Pereira coordena na FM-USP um estudo que tem como objetivo avaliar se indivíduos com níveis suficientes de vitamina D circulantes no sangue lidam melhor com a infecção pelo SARS-CoV-2 do que aqueles com níveis insuficientes do nutriente.

De acordo com a pesquisadora, o nível ideal de vitamina D no sangue e a dose diária que deve ser suplementada variam de acordo com a idade e as condições de saúde de cada indivíduo. Idosos e pacientes com doenças crônicas, entre elas a osteoporose, devem ter valores circulantes acima de 30 nanogramas por mililitro de sangue (ng/mL). Já para adultos saudáveis, valores acima de 20 ng/mL seriam aceitáveis.

“O ideal é analisar caso a caso, se necessário dosar periodicamente a substância por meio de exames de sangue e, se for o caso, repor o que falta”, orienta.

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