Droga psicodélica produz efeitos terapêuticos sem causar alucinações

Testes em laboratório e em animais com droga derivada da ibogaína interferem positivamente no cérebro e não provocam viagens alucinatórias nem distúrbios cardíacos

Ibogaína para consumo: um composto extraído dela consegue efeitos terapêuticos sem provocar viagens alucinatórias. Crédito: Kgjerstad/Wikimedia

Diversos estudos sugerem que drogas psicodélicas, como cogumelos mágicos, têm o potencial de tratar depressão, vício e outros problemas de saúde mental. Mas, como lembra o portal IFLScience, a imprevisibilidade das viagens alucinatórias ocasionadas com essas substâncias torna difícil seu uso médico. Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis (EUA) parecem estar no caminho para eliminar esse empecilho: eles criaram um novo psicodélico que aparentemente produz efeitos terapêuticos significativos sem causar quaisquer viagens que alterem a mente. O estudo a esse respeito foi publicado na revista “Nature”.

No artigo, os autores explicam como trabalharam para criar uma droga que oferecesse os mesmos benefícios do psicodélico ibogaína e não produzisse nenhum efeito colateral negativo. Derivada da iboga (Tabernanthe iboga), um arbusto da África Ocidental, a ibogaína é um alcaloide altamente psicoativo que elimina o desejo e a abstinência em dependentes de opioides e outras drogas.

Estudos em animais indicaram que a ibogaína aumenta a expressão de fatores-chave de crescimento em várias regiões do cérebro, permitindo a formação de novas conexões. Por exemplo, registrou-se que tanto o fator neurotrófico derivado da linha de células gliais (GDNF) quanto o fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) aumentaram significativamente após uma dose única de ibogaína. Isso acarretou um crescimento acentuado na proliferação sináptica. Pesquisadores atribuem a esse aumento na plasticidade neural a possibilidade de os usuários reconectarem seus cérebros e superar vícios.

Aumento de conexões

Por outro lado, a ibogaína produz uma viagem psicodélica extremamente intensa e duradoura. Ela também afeta a função cardíaca e tem sido associada a várias mortes.

No novo estudo, os pesquisadores californianos isolaram os principais componentes psicoplastogênicos do alcaloide da ibogaína. Com uma única reação química, eles criaram um composto que apelidaram de tabernanthalog. Tal como a ibogaína, o tabernanthalog estimulou um grande aumento em novas conexões quando aplicado a neurônios em uma placa de Petri. Isso indica que ele retém a capacidade de promover a plasticidade cerebral.

A vantagem é que os ratos que receberam o componente não apresentaram resposta de contração da cabeça. Isso sugere que eles não experimentaram alucinações. Normalmente, os roedores apresentam uma quantidade significativa de espasmos da cabeça quando recebem psicodélicos.

O tabernanthalog também mostrou grande eficácia no tratamento de vícios em roedores. Por exemplo, ratos treinados para empurrar uma alavanca em troca de heroína atenuaram esse comportamento depois de receber o composto. E os ratos que se tornaram dependentes do álcool reduziram a ingestão da substância após uma única dose da droga.

Melhora considerável

No que se refere à depressão, os roedores colocados nesse estado também exibiram uma melhora considerável após receberem tabernanthalog. Eles mostraram, por exemplo, maior motivação para nadar quando colocados na água. Os bons resultados se estenderam ainda à função cardíaca: não se observou nenhum efeito perigoso quando a droga foi administrada a camundongos, ratos ou peixe-zebra, o que implica que ela é bem mais segura do que a ibogaína.

As novidades têm o potencial de animar os profissionais da área médica que lidam com tais problemas. Mas existem aqueles que acreditam que estados alterados de consciência são fundamentais para o poder de cura dos psicodélicos. Por exemplo, vários estudos indicaram que “experiências místicas” são o principal preditor de resultados positivos em psicoterapia psicodélica assistida para pacientes com depressão e outros problemas de saúde mental.

De qualquer modo, dizem os autores do estudo, seu trabalho “demonstra que, por meio de um projeto químico cuidadoso, é possível modificar um composto psicodélico para produzir uma variante mais segura, não alucinógena com potencial terapêutico”.

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