Edíficios do futuro

Conheça projetos inovadores que procuram levantar soluções para o crescimento populacional, o aquecimento global e desastres ambientais, que tendem a aumentar daqui para a frente nas áreas urbanas

Divulgação

Se mais do que “futurista”, “delirante” ou “utópico” foram seus primeiros desabafos diante das imagens destas páginas, prepare-se para mudar de ideia. “Tudo é loucura ou sonho, no começo. Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra maneira, mas já tantos sonhos se realizaram, que não temos o direito de duvidar de nenhum”, escreveu Monteiro Lobato cerca de um século atrás. É sob essa perspectiva que Beth Forbes e Silvio do Nascimento, do Studio + Arquitetura e Urbanismo, sugerem que se olhem os projetos das páginas a seguir.


Essence Skyscraper (Holanda): Um prédio com proporções aproximadas de um quarteirão foi o vencedor da competição por inserir no meio de uma grande cidade 11 diferentes cenários de ecossistemas naturais. Coletadas de uma verdadeira volta ao mundo, as paisagens incluem savana, deserto, floresta, caverna, geleira, praia e montanha, com direito a um enorme aquário de 30 metros de altura. Um respiro criado pelos holandeses Ewa Odyjas, Agnieszka Morga, Konrad Basan e Jakub Pudo para um centro urbano povoado de ruas, carros e concreto

Essas propostas foram vencedoras ou receberam menção honrosa no Skyscraper Competition eVolo, concurso internacional promovido pela revista norte-americana eVolo. Reconhecida por trazer o que há de ponta na área em material e conceito arquitetônico e urbanístico, a publicação abre aos profissionais da área, há dez anos consecutivos, essa possibilidade de pensar o futuro sem limitações financeiras, sem ter de agradar o gosto do freguês ou depender do peso de um nome já consolidado no mercado – os projetos são cadastrados por números, para que os jurados não saibam quem são os autores.

A única premissa da competição é inovar em estruturas verticais, sem restrição a proporções, locais ou criatividade. A chamada para as inscrições informa que “os participantes devem levar em consideração os avanços tecnológicos, o uso de sistemas sustentáveis e o estabelecimento de novos métodos arquitetônicos e de urbanização para resolver problemas econômicos, sociais e culturais das cidades contemporâneas, incluindo a escassez de recursos naturais e de infraestrutura e o aumento exponencial de habitantes, poluição, diferenças econômicas e o alastramento de ocupações urbanas não planejadas”. Os desafios são enormes, mas não falta engenhosidade para contorná-los. Neste ano, 480 projetos de todo o mundo foram inscritos.


Limestone Skyscrapers (Malásia): Para recuperar áreas de mineração de calcário, a proposta dos arquitetos Jethro Koi Lik Wai e Quah Zheng Wei, da Malásia (país com grande riqueza nesse material), é erguer edificações nas faces devastadas das montanhas fatiadas pelas pedreiras. Explorado para produzir materiais de construção e servir de base para rodovias, tintas e pastas de dentes, entre outras finalidades, o calcário é altamente explorado, eliminando por completo a vegetação da superfície e a permeabilidade do solo. As grandes “cavernas” abertas nas montanhas de pedra calcária receberiam estruturas de sustentação para evitar seu desabamento e passariam a acomodar os edifícios pensados para aproveitar a luz do Sol e oferecer ampla vista, além de espaço para áreas verdes

“As propostas parecem mirabolantes. Impactam mesmo a gente que está nesta área”, comenta Nascimento. Mas ele garante que todas as propostas apresentadas são factíveis e que não estão longe de algumas coisas já construídas. Tome-se como exemplo o primeiro colocado no concurso, o Essence Sky­scraper. O prédio de paredes translúcidas abrigaria, em vez de moradores e empresas, 11 ecossistemas naturais – com seu clima, geografia, fauna e flora característicos reproduzidos – dentro de uma metrópole. “Um andar de selva, outro de praia, outro de savanas. A proposta é oferecer experiências sensoriais improváveis em um espaço urbano adensado, onde ninguém tem como respirar”, traduz Beth.

Do imaginário ao real

Parece improvável? Engano seu. O arquiteto japonês Sou Fujimoto, vencedor do Pritzker 2013 (maior prêmio da área), criou um pavilhão transparente ao ser o mais jovem profissional a aceitar o convite da Serpentine Gallery, de Londres, em 2013. E para a questão polêmica de colocar vida animal e vegetal dentro dos prédios, como faz o Essence, já existe o “Bosco Verticale”, prédio assinada por Stefano Boeri, que realmente parece um “bosque vertical”, como sugere o nome em italiano (veja sobre ele no artigo da edição 506 aqui).


Shanty-Scraper (Índia): Esse arranha-céu foi pensado por Suraksha Bhatla e Sharan Sundar, da Índia, para mudar a realidade das 5 mil famílias de pescadores da cidade de Chennai, a terceira maior favela de áreas metropolitanas do país. A comunidade se reestruturaria verticalmente reutilizando materiais desperdiçados em outras obras. Mecanismos de alavancas e polias de curto alcance fariam o papel de elevadores. Na base, a estrutura de palafitas permitiria a instalação do mercado para venda de pescado

“As paredes translúcidas do Essence sugerem tirar estruturas pesadas do chão e deixar a cidade mais leve, além de o prédio levar outros tipos de vida para dentro das cidades”, afirma Beth. Para comparações mais conhecidas do público em geral, tome-se Dubai, nos Emirados Árabes, um centro de referência arquitetônica contemporânea. Ali está o prédio mais alto do mundo, o Burj Khalifa, com 828 metros. “Por ter sido construído com capital privado, ele se ergue imponente, como símbolo de poder. Já o projeto Times Squared 3015 tem o dobro da altura, mas seria mais como uma sequoia no meio de selva de concreto”, compara Nascimento.

De acordo com ele, dentro do contexto de grandes cidades, prédios altíssimos são uma resposta a problemas de mobilidade e de interação social. “O convívio que existia antes nas ruas foi enfraquecendo com as grandes distâncias a serem percorridas nas cidades”, observa Beth. Colocar habitação e serviços em um edifício multifuncional é uma tentativa de melhorar a qualidade de vida das pessoas e ainda reduzir custos de infraestrutura urbana. Diminui o tempo perdido com deslocamentos e o estresse que isso causa, por concentrar trabalho, moradia, produção agrícola e entretenimento em um mesmo local.


Re-Generator Skyscraper (EUA): Inspirado no caso de Hangzhou, na China, o arquiteto espanhol radicado nos EUA Gabriel Muñoz Moreno criou um plano para recuperar áreas pantanosas ameaçadas pelo crescimento populacional da cidade. Distribuída em células interligadas por estruturas translúcidas e permeáveis, para não bloquear a luz do Sol e a passagem da água, essa estrutura seria capaz de absorver os resíduos e transformá-los em energia e matéria-prima para a regeneração desse ecossistema

Com a estimativa de que em 2050 seremos mais de 9 bilhões de pessoas no mundo, 75% das quais vivendo em cidades, as questões levantadas pelos arquitetos tendem a se tornar cada vez mais complexas. Hoje em dia, mais de 50% já vivem em centros urbanos, enquanto há cem anos – quando Monteiro Lobato escreveu o trecho citado no início da reportagem – apenas 10% da população mundial se concentrava nas cidades. Juntamente com tamanha migração, aumentam os problemas habitacionais. Não à toa, o segundo colocado da competição, o Shanty-Scraper, está dedicado à terceira maior favela da Índia, localizada na cidade de Chennai.

Nesse país, calcula-se que 104 milhões de pessoas (9% da população nacional) vão viver em favelas dentro de dois anos. Com a falta de terreno em espaços privilegiados, a proposta é fazer a comunidade crescer verticalmente reutilizando materiais desperdiçados em outras obras. A proposta evitaria que os cidadãos de baixa renda fossem transferidos para locais a dezenas de quilômetros do centro, onde não há trabalho nem estrutura, e de onde é preciso se deslocar diariamente por horas usando sistemas precários de transporte.


Noah Oasis (China): Como o nome sugere, os “oásis de Noé” dos chineses Ma Yidong, Zhu Zhonghui, Qin Zhengyu e Jiang Zhe sugerem transformar plataformas de petróleo – contando que a exploração desse recurso tende a cair em desuso – em espaços de preservação da flora e fauna marinhas, assim como de área de observação, estudo e recreação para o ser humano. Boias distribuídas pelas redondezas serviriam para recolher qualquer perda de petróleo. Os canos levariam o líquido para um processador central e funcionariam como base para o desenvolvimento dos recifes. O mecanismo serviria para recuperar a água e fabricar o material plástico usado na estrutura aérea. A vegetação que cresceria nela atrairia as aves migratórias

Autofagia sustentável

“Neste século, a arquitetura extrapola seu caráter estético e começa a ter protagonismo para desenhar a cidade. Cada nova construção afeta e compõe o tecido urbano. Já não se pode mais ignorar o entorno e a sustentabilidade”, afirma Beth. Além das tendências de revitalização de espaços públicos, retrofit (revitalização de edifícios) e reúso de materiais, conceitos já mais conhecidos do público em geral, o “metabolismo” aparece com força nos projetos selecionados pela eVolo.
Maior exemplo disso são os “oásis” projetados para ocupar plataformas de petróleo na proposta Noah’s Oasis.

Pensadas para suportar as alterações no nível dos mares, as plataformas se manteriam à superfície e serviriam como habitat para a flora e a fauna marinhas, além de espaço de descompressão e estudo para o ser humano. Boias ligadas a elas por cabos recolheriam qualquer derramamento de petróleo nas águas e também serviriam como base para o desenvolvimento de recifes de corais. O material coletado seria transportado para um processador central, acoplado à plataforma, que produziria plástico para impressão em 3D de mais estrutura para os corais e as plantas aéreas.


Cloud Capture (Coreia do Sul): Reforçando a fama tecnológica da Coreia do Sul, Taehan Kim, Seoung Ji Lee e Yujin Ha imaginaram uma forma de redistribuir as chuvas para evitar alagamentos e secas, que prometem castigar cada vez mais paisagens, cidades e pessoas. Os excessos de vapor suspenso no ar seriam capturados por meio de uma estrutura parecida a um balão. Ela abriria suas “pétalas” feitas de membrana sensível à umidade para recolher as nuvens de uma região, e as manteria fechadas até chegar ao ponto onde fosse interessante deixar cair gotas de água para contrabalançar a escassez de chuvas

Estas atrairiam aves migratórias e criariam, assim, um espaço agradável para as pessoas viverem, estudarem o meio e se divertirem. Mais um caso emblemático de metabolismo foi inspirado pelo caso de Hangzhou, na China. O projeto prevê a recuperação das áreas pantanosas ameaçadas pelo crescimento populacional da cidade. Suas estruturas estão desenhadas para absorver os resí­duos e transformá-los em energia e matéria-prima destinadas à regeneração desse ecossistema. Autonomia e autossustentabilidade são, ainda, as marcas da Tower of Refuge (em tradução livre, Torre de Refúgio).

Funcionaria como uma Arca de Noé para preservar espécies animais e vegetais ameaçadas, ou não, de extinção. E poderia prover conforto ambiental e energia para seu próprio funcionamento, por meio de mecanismos de filtragem da água e do ar, direcionamento da luz solar e transformação dela em eletricidade. Outros projetos procuraram encontrar soluções para redistribuir as chuvas (Cloud Capture), controlar e estudar o ar (Air Monument) e explorar novas fronteiras (Exploring Arctic).


Bio-Pyramid (EUA): A equipe formada por David Sepulveda, Wagdy Moussa, Ishaan Kumar, Wesley Townsend, Colin Joyce, Arianna Armelli e Salvador Juarez, dos Estados Unidos, propõe a mudança da paisagem turística de cidades como o Cairo e Gizé, no Egito. As estruturas piramidais acopladas às pirâmides originais daquele país serviriam como grandes estufas destinadas a reverter a desertificação, que já ocupa 30% da superfície terrestre e deve se expandir com as mudanças climáticas

Diante do aquecimento global e da superpopulação, sempre são bem-vindas ideias que proponham novas formas de viver, preservar, recuperar e repensar a interação entre os humanos e os outros seres do planeta. No Brasil, porém, esse tipo de exercício democrático em forma de concurso mal tem chance de sair da prancheta dos arquitetos e urbanistas. “No último ano aconteceram 12 experiências do tipo (dos quais o Studio + Arquitetura participou em oito), enquanto a França somou 600 competições no mesmo estilo”, lamenta Nascimento.

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