Editorial

Há pouco, visitando meus amigos Ângelo e Taís, que moram em Ilhabela, no litoral norte de São Paulo, notei que o jardim da casa deles estava infestado por enormes caramujos de cor escura e concha muito dura. Eram do tamanho do punho fechado de uma criança e, como se fossem gafanhotos, estavam simplesmente reduzindo a pó as plantas do jardim.

Se fosse só aquele jardim, seria fácil dominar a praga. Mas soube que os bichos infestaram toda a ilha e muitos outros lugares do litoral brasileiro. São caramujos gigantes africanos (Achatina fulica) e foram trazidos do Leste-Nordeste da África entre os anos 1980 e 1990 por criadores de escargots espertalhões. Estavam de olho na grana em que botariam a mão se conseguissem vender para os restaurantes um bicho que pode chegar a 15 centímetros de comprimento e 500 gramas de peso com concha e tudo. Cada um equivale a meia dúzia de escargots. Mas, sabe como é, esperto demais se atrapalha. Não só o mercado rejeitou o produto como a criação revelou-se antieconômica. São mais dispendiosos de criar do que frangos e peixes. Precisam de alimentação rica em cálcio – para formar e manter a concha – e, claro, comem por dia o correspondente a seu tamanho, o que não sai de graça.

O caramujo gigante africano infestou Ilhabela e várias outras localidades do litoral brasileiro

Abandonados pelos irresponsáveis que os trouxeram para cá, os moluscos foram tratar da vida, crescer e multiplicar-se. Para começar, são hermafroditas. Botam milhares de ovos por ano. E praticamente não têm inimigos naturais. Esses caramujos são exemplo dos estragos que pode fazer a irresponsabilidade humana, incapaz de preservar a integridade dos ecossistemas.

Neste número, na editoria de meio ambiente, produzimos uma reportagem sobre outro macroexemplo dessa mesma irresponsabilidade: a ilha Macquarie, situada entre a Austrália e a Antártida. A sucessiva introdução de ratos, coelhos e gatos – espécies exóticas para o lugar – causou transtornos que quase destruíram por completo a fauna e a flora nativas que, há milênios, conviviam de forma tranquila e equilibrada em Macquarie.

Atualmente, em Macquarie, desenvolve-se um dos maiores programas mundiais de erradicação de espécies exóticas, com vistas a trazer a ilha de volta ao seu equilibrado ecossistema original. Os resultados desse programa podem interessar muito ao Brasil, não apenas para nos ajudar a erradicar o caramujo africano, mas também várias outras espécies de animais e vegetais invasores que comprometem a integridade do nosso sistema ecológico.

 

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