Arqueólogos e antropólogos estão descobrindo as práticas da cultura pré-histórica mais antiga do país na Lapa do Santo.

 

Não há no continente americano, atualmente, um sítio arqueológico como a Lapa do Santo. A gruta de 1,3 mil metros quadrados, localizada dentro de uma fazenda em Matozinhos, a 35 quilômetros de Belo Horizonte, em Minas Gerais, tem revelado, em quantidades incomparáveis, esqueletos de grande antiguidade e muito bem preservados.

Debruçada sobre esse solo, uma equipe de 20 profissionais, liderada pelo jovem antropólogo e arqueólogo paulista André Strauss, 30 anos, avança, como nenhuma outra expedição arqueológica, na descoberta dos hábitos culturais dos primeiros habitantes das terras brasileiras. Sua missão vai muito além do estudo dos fósseis humanos extraídos ali, que, desde 2001, já revelaram 35 sepultamentos. 

Lapa do Santo é uma das várias grutas existentes na unidade de conservação federal Área de Proteção Ambiental (APA) Lagoa Santa. Berço da arqueologia, da paleontologia e da espeleologia brasileiras, os sítios da APA são objetos de pesquisas há pelo menos 170 anos. Foi em outra das suas grutas, a Lapa Vermelha, que, em 1975, a missão franco-brasileira coordenada por Annette Emperaire encontrou o crânio de Luzia, um dos mais antigos esqueletos humanos das Américas, datado de aproximadamente 11 mil anos atrás.

Dezenas de equipes brasileiras, dinamarquesas, norte-americanas, francesas e britânicas já realizaram escavações na área, focadas na morfologia craniana do povo de Luzia e na coexistência do homem com a megafauna – o conjunto de animais de grandes proporções como tigredente- de-sabre e preguiça-gigante, por exemplo.

Strauss resolveu focar a lupa no material arqueológico que essa turma revolveu, mas ao qual não deu muita atenção: os rituais funerários dos brasileiros do início do Holoceno, período que compreende aproximadamente os últimos dez milênios.

Foi por meio da análise das práticas mortuárias desse grupo de caçadores-coletores, anteriores aos adventos da cerâmica e da agricultura, que a equipe do pesquisador brasileiro está derrubando teorias, como a que apregoava ser exclusividade dos povos que viveram nos Andes (referência quando se fala de pré-história na América do Sul) a manipulação do corpo no ato do sepultamento. 

“A Lapa do Santo tem revelado que aquele grupo pré-histórico tido como simples e homogêneo, na verdade, era sofisticado”, diz Strauss, cujo projeto “As Práticas Funerárias dos Primeiros Americanos”, coordenado por ele, é uma parceira entre o Instituto Max Planck de Antropologia, em Leipzig, na Alemanha, e a Universidade de São Paulo (USP). Considerando o caráter nômade dos caçadores-coletores do Holoceno, a antropologia convencionou acreditar que esse povo não despenderia tempo nem energia para enterrar os mortos. Na Lapa do Santo, porém, entre cerca de 10.500 e 8.000 anos atrás, observa-se uma perfeita sequência de diferentes práticas funerárias. 

É desenterrando sepulturas e analisando o material recolhido – virtualizado in loco dentro da gruta por meio de um moderno aparato tecnológico – que a equipe de Strauss vem entendendo melhor como viviam os primeiros brasileiros. 

Cultura funerária 

A manipulação do corpo é um dos traços marcantes do povo ancestral da Lapa do Santo. Os sepultamentos que emergiram do solo da gruta (leia na próxima página) revelaram que, na ausência de oferendas funerárias ou tumbas sofisticadas, a elaboração dos rituais mortuários estava representada no uso do próprio corpo do falecido como um símbolo. Foram encontrados corpos articulados reduzidos por meio de mutilações. Tíbias e fíbulas, só para citar dois ossos, são algumas das partes anatômicas removidas logo após a morte, enquanto os tecidos moles ainda estavam presentes.

Em outro sepultamento, ossos desarticulados, desmembrados de várias pessoas, estavam enterrados em uma mesma pequena cova. “Em um primeiro momento, aquele povo pré-histórico cortava os ossos dos falecidos logo após a morte e ficava com eles por vários anos”, diz Strauss. “A prática ia se repetindo com outros membros que morriam até que, em um dado momento, chegava a hora de enterrar o material acumulado, quase como se fossem relíquias”, sugere o arqueólogo brasileiro.

Para esse ritual, porém, havia certas regras. O crânio de um adulto era enterrado com o que restou de um esqueleto cortado de uma criança, e crânios infantis, com ossos de pessoas maduras. Um dos sepultamentos mais impressionantes trouxe à superfície a calota, a parte de cima do crânio, de uma criança utilizada como urna, dentro da qual foram encontrados mais de 80 dentes representando pelo menos cinco pessoas diferentes. Mais interessante: ao examinarem os dentes – Rodrigo Elias de Oliveira, odontólogo com doutorado em biologia genética, é cocoordenador do projeto –, verificou-se que uma dessas pessoas havia sido enterrada em uma tumba no mesmo sítio. Ainda não é certo, mas a expressão dessas técnicas pode indicar a existência de indivíduos especializados nesse processo dentro do grupo. 

Coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da USP, o arqueólogo e antropólogo Walter Neves escavou na região de Lagoa Santa, em 2009. Para esse pesquisador, uma das maiores autoridades no assunto, as pesquisas realizadas pela missão brasileira na Lapa do Santo avançam na direção de conferir maior entendimento sobre a mente do povo de Luzia. 

“Eu centrei o foco na parte física daquelas pessoas. Já o André e sua equipe estão entrando na mente delas. Na arqueologia dos caçadores-coletores daquela época, isso só é possível por meio de pinturas rupestres e rituais funerários”, afirma ele.

Neves é considerado o “pai” de Luzia. Apesar de não ter participado das escavações que desenterraram o crânio dessa primeira habitante do continente americano, foi ele quem a batizou ao estudar o material escavado e formular, há mais de duas décadas, uma nova teoria sobre o povoamento das Américas.

Segundo o cientista, houve duas e não uma onda migratória asiática para a América pelo Estreito de Bering, há 11 mil anos. Uma de Homo sapiens com morfologia mongoloide, da qual deriva a maioria dos
povos indígenas sul-americanos (a hipótese “Clóvis”), e outra com morfologia semelhante à dos africanos e aborígenes australianos, parecidos com Luzia. 

Pescaria arcaica

Strauss e Oliveira têm lançado mão dos mais avançados recursos tecnológicos para lapidar outra joia desenterrada da Lapa do Santo: o caso de decapitação mais antigo das Américas, há 10 mil anos. 

Em 2007, eles encontraram um indivíduo com a cabeça decapitada, que tinha sobre o rosto as mãos também cortadas. O crânio foi submetido a uma tomografia computadorizada. “Ela permite que estruturas internas até então invisíveis sejam observadas”, explica Strauss. A partir do modelo tridimensional, deformações sofridas em decorrência do sobrepeso da terra durante milhares de anos foram corrigidas por meio de modelos matemáticos de simetria. O resultado final permitirá a reconstrução facial desse habitante pré-histórico. 

Um especialista forense que respondeu pela reconstrução da face do rei britânico Henrique III realizou trabalho semelhante a partir do protótipo em 3D do crânio retificado. “A tecnologia de virtualização aplicada nas escavações e o registro do material encontrado na Lapa do Santo não encontram paralelo em nenhum outro sítio brasileiro antigo e de grande porte”, garante Strauss. 

De fato. Os pesquisadores carregam com eles um modelo virtual do sítio que é visitado a distância e, virtualmente, permite observar os sepultamentos. Em vez de desenhar ou fotografar como normalmente ocorre nas missões, eles geram, em campo, modelos 3D do material a ser analisado. Cópia fidedigna em escala de uma cova pesquisada, um modelo gerado a partir dessa tecnologia chega a ser impresso dentro da gruta por meio de uma impressora 3D.

Na Lapa do Santo, todo o fluxograma é informatizado e associado a um banco de dados. Na caverna mineira, foram encontrados também os anzóis de pesca mais antigos do continente americano.
Datados de aproximadamente 10 mil anos atrás, eles foram feitos de ossos de algum mamífero.

O gerenciamento digital permite, por exemplo, o registro eficiente de quantos litros havia em cada balde escavado e até a impressão de códigos de barra individuais para a identificação do material desenterrado. Em muitas escavações, esse pro cesso ainda é feito por meio de anotações a lápis em papéis.

A expertise tecnológica aplicada na Lapa do Santo despertou a atenção do Museu de História Natural da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que firmou uma parceria com a equipe brasileira que escava na gruta. A partir de 6 de dezembro, todo o acervo esquelético humano da instituição será virtualizado pela equipe de Strauss. Com a colaboração do laboratório Hermes Pardini, de Belo Horizonte, serão feitas to- Há 35 sepultamentos na gruta. Anzóis feitos de osso, os mais antigos do Brasil. mografias médicas de alta resolução.

No museu da UFMG estão esqueletos de mais de 9 mil anos atrás, desenterrados de sítios importantes, como Santana do Riacho e Lagoa Santa. “Nessa primeira etapa, vamos focar nos crânios, que devem 
somar cerca de 25”, explica Strauss. O jovem antropólogo que se deparou com um sítio arqueológico virgem vai mergulhar profundamente na história dos brasileiros ancestrais. A Lapa do Santo ainda tem muitas histórias para revelar.