Escorpião de 437 milhões de anos atrás podia viver no mar e em terra

Os sistemas respiratório e circulatório desse animal eram quase idênticos aos dos escorpiões modernos

Concepção artística do escorpião pré-histórico: bem parecido com suas versões atuais. Crédito: Divulgação

Pesquisadores americanos e alemães liderados pela Universidade Estadual de Ohio (EUA) identificaram fósseis coletados há 35 anos como a espécie de escorpião mais antiga já encontrada – um animal pré-histórico de cerca de 437 milhões de anos atrás. Esse animal provavelmente tinha a capacidade de respirar nos oceanos antigos e em terra, segundo o estudo, publicado na revista “Scientific Reports”.

Os pesquisadores nomearam o novo escorpião Parioscorpio venator. O nome do gênero significa “escorpião progenitor” e o nome da espécie significa “caçador”.

A descoberta fornece novas informações sobre como os animais passaram de viver no mar para viver inteiramente em terra: os sistemas respiratório e circulatório do escorpião são quase idênticos aos de nossos escorpiões modernos (que passam a vida exclusivamente em terra) e operam de forma semelhante à de um caranguejo-ferradura (que vive principalmente na água, mas é capaz de incursões na terra por curtos períodos de tempo).

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“Estamos observando o escorpião mais antigo conhecido – o membro mais antigo conhecido da linhagem aracnídea, que tem sido uma das criaturas terrestres de maior sucesso em toda a história da Terra”, disse Loren Babcock, principal autor do estudo e professor de ciências da terra na Universidade Estadual de Ohio.

Modelo de transição

“Além disso, o que é ainda mais significativo é que identificamos um mecanismo pelo qual os animais fizeram essa transição crítica de um habitat marinho para um habitat terrestre. Ele fornece um modelo para outros tipos de animais que fizeram essa transição, incluindo, potencialmente, animais vertebrados. É uma descoberta inovadora.”

Os fósseis do “escorpião-caçador” foram desenterrados em 1985 de um local em Wisconsin (EUA) que já foi uma pequena lagoa na base de uma falésia em uma ilha. Eles permaneceram sem estudo em um museu na Universidade de Wisconsin por mais de 30 anos, até que um dos estudantes de doutorado de Babcock, Andrew Wendruff (agora professor adjunto da Universidade Otterbein), decidiu examinar os fósseis em detalhes.

Wendruff e Babcock perceberam quase imediatamente que os fósseis eram escorpiões. Mas, de início, eles não tinham certeza de quão próximos esses fósseis estavam das raízes da história evolutiva dos aracnídeos. O primeiro escorpião conhecido até então havia sido encontrado na Escócia e datado de cerca de 434 milhões de anos atrás. Os paleontólogos sabiam que os escorpiões foram um dos primeiros animais a viver em terra em período integral.

Os fósseis de Wisconsin, segundo os pesquisadores, são entre 1 milhão e 3 milhões de anos mais antigos que o fóssil da Escócia. Eles calcularam a idade desse escorpião a partir de outros fósseis na mesma formação. Esses fósseis vieram de criaturas que os cientistas pensam terem vivido entre 436,5 e 437,5 milhões de anos atrás, durante a primeira parte do Siluriano, o terceiro período da era paleozoica.

Tamanho similar

Os fósseis de Wisconsin – de uma formação que contém fósseis conhecidos como Waukesha Biota – apresentam aspectos típicos de um escorpião. Análises detalhadas mostraram, porém, algumas características antes desconhecidas nos escorpiões, como segmentos corporais adicionais e um pequena região de “cauda”.

Wendruff examinou os fósseis sob um microscópio e tirou fotografias detalhadas e de alta resolução dos fósseis de diferentes ângulos. Pedaços dos órgãos internos do animal, preservados na rocha, começaram a surgir. Ele identificou os apêndices, uma câmara onde o animal teria armazenado seu veneno e – o mais importante – os restos de seus sistemas respiratório e circulatório.

Restos fósseis (esquerda) do escorpião e análise comparativa de seus sistemas respiratório e cardíaco (centro) com os de um espécime atual (direita): semelhança muito grande. Crédito: cortesia Andrew Wendruff

Esse escorpião tinha cerca de 2,5 centímetros de comprimento – aproximadamente o mesmo tamanho de muitos escorpiões do mundo hoje. Babcock disse que ele mostra um elo evolutivo crucial entre a maneira como os ancestrais dos escorpiões respiravam debaixo d’água e a maneira como os escorpiões modernos respiram em terra. Internamente, o sistema respiratório-circulatório tem uma estrutura exatamente como a encontrada nos escorpiões de hoje.

Pré-adaptação

“O funcionamento interno do sistema circulatório respiratório nesse animal é, em termos de forma, idêntico ao dos aracnídeos e escorpiões que respiram ar exclusivamente”, disse Babcock. “Mas também é incrivelmente semelhante ao que reconhecemos em artrópodes marinhos como caranguejos-ferradura. Então, parece que esse escorpião, essa linhagem, deve ter sido pré-adaptado à vida em terra, o que significa que eles tinham a capacidade morfológica de fazer essa transição, antes mesmo de pisar em terra.”

Os paleontologistas debatem há anos como os animais se deslocaram do mar para a terra. Alguns fósseis mostram vestígios de caminhada na areia que podem chegar a 560 milhões de anos, mas esses vestígios podem ter sido feitos em ondas pré-históricas. Assim, é difícil saber se os animais estavam vivendo em terra ou saindo de suas moradas na oceano.

Mas com esses escorpiões pré-históricos, disse Wendruff, há pouca dúvida de que eles poderiam sobreviver em terra por causa das semelhanças com os escorpiões modernos nos sistemas respiratório e circulatório.