Espaçonave consegue “velejar” usando a luz do Sol

A pequena LightSail 2 já elevou um dos lados de sua órbita em mais de um quilômetro, mostrando uma tecnologia útil em futuras missões espaciais

A LightSail 2 com suas velas abertas. Foto: Planetary Society

Dirigentes da Planetary Society, organização sem fins lucrativos responsável pela missão LightSail 2, anunciaram ontem em entrevista coletiva que conseguem dirigir essa pequena nave espacial equipada com velas prateadas. A tecnologia, observa o jornal “The New York Times”, poderia ser usada para movimentar naves através do espaço no futuro.

A empreitada, financiada por recursos privados, é um sonho de mais de 40 anos agora tornado real. “Estamos entusiasmados em anunciar o sucesso da missão LightSail 2”, disse Bruce Betts, gerente do programa e cientista chefe da Planetary Society, em um comunicado.

Com 5 kg de peso, a LightSail 2 foi levada ao espaço em 25 de junho, a bordo de um foguete Falcon Heavy, da SpaceX. Ela foi posta em órbita a cerca de 720 quilômetros da Terra. Após testes preliminares, a nave desfraldou em 23 de julho quatro velas reflexivas com área total de 344 m2 (o tamanho de um ringue de boxe) feitas com mylar, um tipo de poliéster. Desde então, as velas estão sendo usadas como instrumento de “navegação”, aproveitando a pressão da luz do Sol.

As partículas de luz solar que vão contra a vela geram uma força equivalente ao peso de um clipe de papel empurrando a mão para baixo. Com o brilho constante do Sol, porém, a vela proporciona um impulso contínuo que, com o tempo, faz a velocidade aumentar sem o auxílio de qualquer outro recurso. Essa pressão pode ser dobrada se a luz é refletida com um espelho, e é por isso que a LightSail 2 usa um filme prateado para sua vela.

 

Sonho antigo

Já em 1977, o astrônomo Carl Sagan, um dos fundadores da Planetary Society, propunha usar uma grande vela para impulsionar uma grande espaçonave com a luz solar. Na época, afirma o atual presidente da instituição, o educador científico Bill Nye, “a proposta era ter uma vela solar de um quilômetro de lado para acompanhar o cometa Halley” [após sua última passagem perto do Sol, em 1986].

Razões financeiras e de execução fizeram com que a ideia fosse engavetada. Mas ela ressurgiu com o desenvolvimento dos CubeSats, mininaves construídas em blocos medindo 10 cm × 10 cm × 11,35 cm. A LightSail 2 é construída em três desses blocos.

Conforme orbita a Terra, a nave balança suas velas para captar a luz do Sol, tal como um veleiro busca o vento. Nos últimos quatro dias, a LightSail 2 elevou um lado de sua órbita em mais de um quilômetro. Ao mesmo tempo, a órbita está se tornando mais elíptica e seu outro lado está se aproximando da Terra. Isso faz a espaçonave ter mais contato com a atmosfera, e o arrasto acabará por levar a LightSail 2 a ser destruída em cerca de um ano.

A Planetary Society vem realizando o programa LightSail há uma década. O projeto é financiado por 40 mil doações, que somam US$ 7 milhões.