Esqueletos antigos revelam quando o milho entrou na dieta humana

Análise de pesquisadores mostrou que o milho se tornou uma importante fonte de alimento na América Central há 4.700 anos

Escavações em Saki Tzul mostram a sequência estratigráfica do fim do Pleistoceno até o período moderno: consumo de milho ganhou importância há 4.700 anos. Crédito: Keith M. Prufer

A descoberta “incomparável” de esqueletos antigos notavelmente bem preservados em abrigos rochosos da América Central lançou uma nova luz sobre quando o milho se tornou uma parte essencial da dieta das pessoas no continente. O estudo a esse respeito, realizado por uma equipe internacional, foi publicado na revista “Science Advances”.

Até agora, pouco se sabia sobre quando os humanos começaram a comer essa planta, agora um alimento básico em todo o mundo que molda paisagens agrícolas e a biodiversidade do ecossistema.

Restos humanos encontrados no sítio de Saki Tzul (nas montanhas maias de Belize), enterrados nos últimos 10 mil anos, permitiram que especialistas datassem quando o milho se tornou uma parte importante da dieta das pessoas da região pela primeira vez.

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A datação por radiocarbono das amostras esqueléticas mostra a transição das dietas de caçadores-coletores pré-milho, em que as pessoas consumiam plantas e animais silvestres, para a introdução e crescente dependência desse cereal. O milho representava cerca de um terço da dieta das pessoas na região há 4.700 anos, subindo para 70% sete séculos depois.

Preservação surpreendente

O milho foi domesticado a partir do teosinto, uma gramínea selvagem que cresce nas regiões mais baixas do vale do rio Balsas, no México Central, cerca de 9 mil anos atrás. Há evidências de que o milho foi cultivado pela primeira vez nas planícies maias cerca de 6.500 anos atrás, mais ou menos ao mesmo tempo que apareceu ao longo da costa do Pacífico no México.

“As planícies nos trópicos não são boas para o material orgânico”, disse Douglas Kennett, professor de antropologia da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (EUA) e principal autor do artigo. “Ossos se degradam rapidamente se deixados de fora. Mas esses locais são especiais porque fornecem abrigo a seco dos elementos que ajudam a preservar os ossos dos quais conseguimos extrair o colágeno para análises de isótopos de nitrogênio e carbono.”

Emily Moes, bioarqueóloga e coautora do projeto, conduz escavações no abrigo rochoso de Saki Tzul. Crédito: Keith M. Prufer

Mark Robinson, da Universidade de Exeter (Reino Unido), que codirigiu escavações em campo, comentou: “O ambiente úmido significa que é extremamente raro encontrar restos humanos mais antigos tão bem preservados nos trópicos. (…) Este é o único exemplo de local de sepultamento nos neotrópicos usado repetidamente por 10 mil anos, dando-nos uma oportunidade incomparável de estudar mudanças na dieta por um longo período, incluindo a introdução do milho na região. Essa é a primeira evidência direta a mostrar quando a mudança na dieta das pessoas ocorreu e a taxa de aumento do milho em importância econômica e dietética, até que ele se tornou fundamental para a vida alimentar, econômica e religiosa das pessoas”.

Dietas mais diversas

Especialistas mediram o carbono e o nitrogênio nos ossos de 44 esqueletos, que forneceram informações sobre a dieta das pessoas. Os restos mortais incluem adultos e crianças do sexo masculino e feminino, fornecendo uma amostra holística da população. Os restos mais antigos datam de 9.600 a 8.600 anos atrás, com enterros contínuos ocorrendo até 1.000 anos atrás.

A análise mostra que os restos mais antigos eram de pessoas que comiam ervas, frutas e nozes de árvores e arbustos da floresta, além de carne da caça de animais terrestres.

Há 4.700 anos, as dietas se tornaram mais diversas, com alguns indivíduos mostrando o primeiro consumo de milho. A assinatura isotópica de dois bebês lactantes mostra que suas mães estavam consumindo quantidades substanciais de milho. Os resultados mostram um consumo crescente de milho ao longo do milênio seguinte, à medida que a população passou para a agricultura sedentária.

Evolução da domesticação do milho. Crédito: UC Santa Barbara

Há 4 mil anos, a população dependia do milho, com a colheita formando 70% de sua dieta. O aumento no consumo de proteína de milho foi acompanhado por uma redução no consumo de proteína animal. O milho tornou-se um alimento básico em um momento de ampla mudança da população continental, com aumento da complexidade social e da hierarquia social e grandes transformações ambientais subsequentes. O estudo mostra que, à medida que as pessoas comiam mais milho, a agricultura associada levou a um aumento no desmatamento, na queima e na erosão do solo nas planícies maias.

Item essencial

“Se você medisse a composição isotópica do povo maia hoje”, disse Kennett, “eles pareceriam muito semelhantes porque estão consumindo muito milho diariamente. Em termos de significado mais amplo, esta é a evidência mais antiga do uso do milho como alimento básico nas Américas que conhecemos até agora.”

A disseminação do cultivo do milho pelas Américas provavelmente estava ligada à disseminação de culturas, tecnologias e idiomas distintos. Na época em que a altamente complexa e monumental civilização maia se desenvolveu, há 2 mil anos, o milho era essencial para as formas de vida e a cosmologia. Sua história de criação, por exemplo, registrando que os maias são feitos do milho.

“Então, a pergunta é: quando os maias se mudam para a região e se tornam os primeiros agricultores?”, questiona Bennett. “É possível que os primeiros agricultores identificados em nosso estudo tenham se mudado para a área e que estejam de alguma forma relacionados com os maias que associamos ao surgimento posterior daquela civilização.”

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