Estudo mostra como alucinógenos moldaram arte pré-histórica

Escavações em caverna na Califórnia indicam que pintura rupestre ali encontrada representava uma planta alucinógena nativa da região, e não imagens de transe

À esquerda, pintura de cata-vento na caverna Pinwheel (cata-vento, em inglês); à direita, flor em desenvolvimento de Datura wrightii, de uma planta próxima à caverna. Créditos: Rick Bury (E)/Melissa Dabulamanzi (D)/Cortesia PNAS

Um estudo de pesquisadores britânicos e americanos, liderado pela University of Central Lancashire (Reino Unido), revelou pela primeira vez como povos indígenas americanos pré-históricos criaram arte rupestre como parte da experiência alucinógena.

Como parte dessa pesquisa, publicada na revista “PNAS”, acadêmicos realizaram escavações em uma caverna na Califórnia depois de descobrir uma pintura que se pensava representar as flores da Datura wrightii, uma planta historicamente usada por suas propriedades alucinógenas como parte de elaboradas cerimônias comunitárias.

O uso mais conhecido da datura nativa da Califórnia é como parte das iniciações de adolescentes, em que a raiz da planta era transformada em uma bebida para os jovens da comunidade. Ao lado da pintura, os pesquisadores também descobriram uma série de materiais mastigados, quase todos feitos de datura.

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Essa pesquisa reforça a ligação entre a ingestão de alucinógenos e a criação de arte rupestre, mostrando que a arte representava a própria planta e não imagens de transe. Isso destaca a profunda apreciação das plantas alucinógenas pelos nativos da Califórnia. As descobertas também sugerem que o local provavelmente era um espaço comum no qual as pessoas se reuniam sazonalmente para caçar, coletar, preparar comida e comer. Isso mostra que a arte desempenhou um papel de destaque no cotidiano de todos os membros da comunidade local.

Reconexão ao local

O dr. David Robinson, professor adjunto de arqueologia da University of Central Lancashire e primeiro autor do estudo, disse: “Essas descobertas nos dão uma compreensão muito mais aprofundada das vidas das comunidades indígenas americanas e seus relacionamentos, desde os últimos tempos pré-históricos até o final de 1800. É importante ressaltar que, por causa dessa pesquisa, a tribo indígena tejon agora visita o local anualmente para se reconectar a este importante local ancestral”.

Interior da caverna Pinwheel durante a varredura a laser e localização da descoberta na Califórnia (no destaque). Crédito: Devlin Gandy/Cortesia PNAS

Robinson prosseguiu: “Há muito se suspeita da ligação entre alucinógenos e arte rupestre, e esta pesquisa mostra que eles não eram apenas uma fonte de inspiração criativa para esses grupos pré-históricos de pessoas, mas um princípio central de importantes rituais e encontros da comunidade”.

O dr. Fraser Sturt, professor de arqueologia da Universidade de Southampton e coautor da pesquisa, declarou: “Os resultados deste projeto surgem de uma abordagem altamente interdisciplinar, aberta e colaborativa para a pesquisa. Dessa forma, um registro novo e aprimorado e técnicas analíticas ajudaram a reconectar restos materiais, arte, narrativa e pessoas ao longo do espaço e do tempo. Assim, embora o foco esteja nas propriedades alucinógenas da datura e seu papel na arte rupestre e na geração de comunidades, este trabalho também mostra que é uma faceta de um conjunto complexo de relações entre pessoas, lugar e meio ambiente”.

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