Estudo simula ocupação da Amazônia por culturas na pré-história

Modelo por computador parte de exemplos europeus para pesquisar a migração e o assentamento de culturas sul-americanas no continente

Indígenas aruaques em foto da década de 1880 em Paramaribo, no atual Suriname: sua cultura foi uma das avaliadas no estudo. Crédito: Julius Eduard Muller (1846–1902)/Wikimedia

As expansões por grupos de seres humanos eram comuns durante os tempos pré-históricos, após a adoção da agricultura. Entre outros fatores, isso se deve ao crescimento populacional dos agricultores, maior do que o dos caçadores-coletores. Um exemplo disso pode ser encontrado durante o período Neolítico, quando a agricultura foi introduzida na Europa pelas migrações do Oriente Médio.

No entanto, na América do Sul, não estava claro se o mesmo teria ocorrido, pois argumentou-se que nenhum grupo cultural havia se expandido por distâncias tão longas como na Europa ou na Ásia. Além disso, acreditava-se que o tipo de agricultura praticada pelos povos pré-colombianos na Amazônia não lhes permitiria expandir-se na mesma proporção.

Pesquisas realizadas por três membros do Grupo de Pesquisa em Cultura e Dinâmica Socioecológica (CaSEs) do Departamento de Humanidades da Universidade Pompeu Fabra (UPF), de Barcelona (Espanha), mostram que expansões de algumas culturas arqueológicas na América do Sul podem ser simuladas por computador através do crescimento e da migração da população da mesma maneira que o Neolítico na Europa. É o caso da chamada cultura saladoide-barrancoide, que se espalhou da bacia do Rio Orinoco para várias partes da Amazônia, chegando até o Caribe.

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“O uso de simulações em computador para testar migrações humanas em tempos pré-históricos é uma abordagem que se mostrou produtiva em outros continentes, mas não havia sido aplicada na área dos trópicos da América do Sul”, afirma o pesquisador Jonas Gregorio de Souza, primeiro autor do artigo publicado na revista “PLOS One”. “Mostramos que algumas expansões culturais que ocorreram na Amazônia podem ser o resultado de processos demográficos semelhantes aos do Neolítico da Eurásia.”

Souza trabalhou em parceria com Jonas Alcaina Mateos, aluno de doutorado, e Marco Madella, professor de pesquisa do Instituto Catalão de Pesquisa e Estudos Avançados (UPF-Icrea) e diretor do CaSEs.

Simulação por computador da expansão de várias culturas arqueológicas na América do Sul. Crédito: UPF
Modelo computacional

O artigo usa uma abordagem computacional para simular expansões humanas na pré-história. “Utilizamos parâmetros derivados da etnografia dos agricultores da Amazônia para simular a taxa de crescimento populacional, a divisão das aldeias, a que distância e com que frequência elas se mudaram”, afirmam os autores do artigo. Com base nesses parâmetros, eles criaram um modelo de computador para simular expansões de diferentes pontos e datas e comparar os resultados com dados arqueológicos.

Os pesquisadores usaram datas de radiocarbono de diferentes culturas arqueológicas em uma grande área do território nos últimos 5 mil anos, que foram comparadas com a previsão do modelo, para avaliar se a taxa de expansão territorial poderia ser explicada como um fenômeno demográfico (em vez de outro tipo, como difusão cultural).

As quatro culturas arqueológicas analisadas foram as tradições saladoide-barrancoide, arauquinoide (dos índios aruaques), tupi-guarani e (intimamente relacionadas) una, itararé e aratu. Na maioria das regiões onde se estabeleceram, essas culturas introduziram o cultivo de plantas domesticadas, marcaram a transição para assentamentos mais permanentes e espalharam um modelo econômico chamado “policultura agrossilvicultural”.

No entanto, os autores alertam que algumas expansões não podem ser previstas pelas simulações, sugerindo que foram causadas por outros fatores. “Embora algumas expansões arqueológicas possam ser previstas pelas simulações, como processos demográficos, outras não são facilmente explicadas da mesma maneira”, observam os pesquisadores. “Isso pode ser devido a diferentes processos que determinam sua dispersão, como a difusão cultural, ou porque os dados arqueológicos são inconclusivos ou esparsos.”

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