Exibir cenas de “Homem-Aranha” ajuda a reduzir fobia

Até hoje os efeitos da exposição positiva a um estímulo ainda não tinham sido tentados em terapias cognitivo-comportamentais

Por Juliana Tiraboschi

Em tempos de filmes de super-heróis em alta, com “Capitã Marvel” e “Vingadores: Ultimato” em cartaz nos cinemas, pesquisadores israelenses encontraram uma maneira inusitada e divertida de tratar sintomas de fobias de aranhas e formigas: exibir trechos de filmes do personagem Homem-Aranha e Homem-Formiga.

A terapia de exposição para fobias específicas (por exemplo, de formigas e aranhas) utiliza exposição neutra a um estímulo fóbico para neutralizar um medo irracional. Quanto mais a pessoa é exposta aos estímulos, mais deixa de temer o objeto de sua fobia.

Os pesquisadores, Universidade de Ariel e da Universidade Bar-Ilan, em Israel, expuseram 424 voluntários a trechos de um dos filmes do Homem-Aranha e do filme do Homem-Formiga para ver se os sintomas das fobias por esses animais diminuiriam.

Fobias são medos irracionais, acompanhados pelo comportamento de evitar o objeto da fobia. “Sentir medo de uma aranha que não causa nenhum mal é um comportamento irracional”, disse Yaakov Hoffman, do Departamento Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade Bar-Ilan, à revista PLANETA.

Portanto, quando um paciente é exposto à imagem de uma aranha não venenosa, isso é considerado uma exposição neutra, já que não é nem negativa, porque não mostra uma espécie perigosa, e nem positiva, como em um cenário de fantasia. Já exibir cenas de um filme de super-herói, que tem um aspecto divertido, é considerado uma exposição positiva.

Segundo os pesquisadores envolvidos, até hoje os efeitos da exposição positiva a um estímulo ainda não tinham sido tentados em terapias cognitivo-comportamentais.

No estudo, os cientistas descobriram que a exibição de um trecho de apenas sete segundos de uma cena do filme “Homem-Aranha 2” reduziu em 20% a pontuação de sintomas de fobia de aranha (aracnofobia) pós-visualização dos participantes em relação à sua pontuação pré-visualização.

Esta mesma eficácia foi obtida de forma similar para a fobia de formigas (mirmecofobia), quando os participantes assistiram a um trecho de sete segundos do filme “Homem-Formiga”. No entanto, quando os participantes foram questionados sobre a fobia geral de insetos tanto antes quanto depois da visualização de uma cena de abertura de sete segundos da Marvel (comum a todos os filmes da produtora) ou uma cena natural de sete segundos – não houve reduções significativas de sintomas para fobia de insetos.

Isto sugere que o responsável pelo resultado não foi nem a cena natural, nem a diversão associada à exibição de um filme genérico de super-heróis da Marvel, mas sim à exposição específica a formigas e aranhas no contexto de um filme de fantasia.

O pesquisador Menachem Ben-Ezra, da Escola de Serviço Social da Universidade de Ariel, diz que estes resultados sugerem que uma exposição divertida pode ser muito poderosa.

Yaakov Hoffman observa que esse fator é importante, já que a exposição aos animais vivos durante uma terapia é pouco utilizada. “A exposição ‘in vivo’ é uma potente terapia, que reduz os sintomas fóbicos efetivamente”, disse Hoffman à PLANETA. “Mas muitos pacientes têm dificuldade a se submeter a essa exposição”, afirmou.

Portanto, a forma mais utilizada de exposição é o que os pesquisadores chamam de “in vitro”, que pode se referir a imaginar o objeto de fobia ou observar imagens dele. É o que acontece com outra forma eficaz de exposição em terapias, a realidade virtual, porém ela é mais escassa e de acesso mais difícil aos pacientes.

Assim, a exposição aos filmes pode ser uma ótima solução. Tal intervenção também pode ajudar a desestigmatizar a terapia, especialmente em casos resistentes, e incentivar a realização de “lições de casa”, muitas vezes uma parte integrante da terapia cognitivo-comportamental.

Ben-Ezra e Hoffman são psicólogos e fãs de super-heróis. Os cientistas apontam que os filmes de super-heróis podem ter muitos atributos psicológicos benéficos, já que oferecem um contraponto a nossas rotinas agitadas e estressantes, ao mostrar personagens enfrentando seus medos.

Os pesquisadores dizem que esses filmes podem ser benéficos também para pessoas que sofrem de traumas. Na próxima etapa de sua pesquisa, eles examinarão outros benefícios da visualização de filmes de super-heróis para pacientes que sofrem de transtorno de estresse pós-traumático.

A pesquisa foi publicada recentemente na revista “Frontiers in Psychiatry”.