Experiência de quase-morte

Começou em setembro.

Embora o pensamento científico dominante continue a menosprezar as experiências de saída do corpo descritas por pessoas que têm morte clínica mas conseguem voltar à vida, casos do gênero continuam a ocorrer nos mais variados cantos do mundo. E com características comuns, não importa a latitude, a época, o idioma ou a cultura do indivíduo: flutuar sobre o próprio corpo, viajar por um longo túnel, ver uma luz branca e brilhante. Desde setembro, porém, essa situação pode mudar radicalmente, com o início de um amplo estudo de cientistas britânicos e norteamericanos. As informações colhidas podem nos ajudar a responder a uma das questões mais importantes para a humanidade: o que acontece à nossa consciência quando morremos?

A mudança de expectativa advém exatamente da abertura dos pesquisadores em termos de trabalhar hipóteses fora do padrão esperado pela ciência tradicional. Para os representantes desta última, tudo teria de ser reduzido a detalhes fisiológicos, como um distúrbio do sono ou perturbações na parte do cérebro ligada à coordenação (ver PLANETA 429, págs. 37-38) – ou, simplesmente, ser fruto da imaginação da pessoa enquanto ela passa por manobras de ressuscitamento. Livre dessa camisa-deforça teórica, o grupo de pesquisadores programou-se para estudar até 2011 mais de 1.500 pacientes de paradas cardíacas a fim de verificar se pessoas nesse estado – que não registram batimentos cardíacos e atividade cerebral – podem realmente passar por experiências fora do corpo.

A experiência, denominada Consciência Durante o Ressuscitamento (Aware, na sigla em inglês), corresponde à ampliação de um esquema piloto conduzido pelo Projeto da Consciência Humana, da Universidade de Southampton (Grã-Bretanha), especializado no estudo do cérebro, da consciência e da morte entre os humanos. A iniciativa – a primeira em grande escala do Projeto de Consciência Humana – envolve mais de 25 centros médicos de primeira linha nos Estados Unidos, Canadá e Grã-Bretanha. Até 2011, cerca de 15 mil pacientes com sintomas de parada cardíaca serão levados a esses hospitais. Cerca de 1.500 deles serão ressuscitados, e desses é provável que centenas afirmarão ter passado por algum tipo de experiência fora do corpo quando estavam clinicamente mortos.

No Aware, os pesquisadores usarão os mais modernos recursos tecnológicos para estudar o cérebro e a consciência durante os casos de parada cardíaca. Enquanto isso, eles também verificarão a validade das experiências fora do corpo e as afirmações de que pessoas nesse estado conseguem ver e ouvir. Para tanto, recorrerão a imagens geradas aleatoriamente que só serão visíveis para quem as olhar do teto. Os locais escolhidos para exibir essas imagens estarão nas áreas onde os ataques cardíacos ocorrem mais freqüentemente nos hospitais, como as unidades de terapia intensiva e pronto-socorro.

“Se conseguirmos uma série de 200 ou 300 pessoas que estiverem clinicamente mortas e ainda assim forem capazes de voltar e nos contar o que estávamos fazendo e o que viram a partir de alguma posição fora do corpo, isso confirmará que a consciência realmente estava em ação, mesmo que o cérebro não estivesse funcionando”, afirma o cientista britânico Sam Parnia. Essa confirmação revolucionaria os conceitos científicos sobre a mente humana.

Na opinião de Parnia – pesquisador do Weill Cornell Medical Center, de Nova York, e de diversos hospitais briBretânicos, diretor do Projeto da Consciência Humana e um dos maiores especialistas em experiências de quase-morte (EQMs) -, a pesquisa vai ajudar a desfazer a noção de que a morte é um evento isolado, como imaginam os cientistas mais ortodoxos. “A morte não é um momento específico”, ele disse por ocasião do lançamento do Aware. “É um processo que começa quando o coração pára de bater, os pulmões param de trabalhar e o cérebro pára de funcionar – uma condição médica chamada parada cardíaca, que, a partir de um ponto de vista biológico, é sinônimo de morte clínica. Segue-se, então, um intervalo, que pode durar de poucos segundos até uma hora ou mais, no qual os esforços médicos de emergência podem ter sucesso em reanimar o coração e reverter o processo de morte. O que as pessoas experimentam durante esse período de parada cardíaca proporciona uma janela de compreensão única a respeito do que todos nós provavelmente experimentamos durante o processo de morte.”

“A CIÊNCIA TRADICIONAL ADMITE QUE ENTRE 10% E 20% DAS PESSOAS QUE SOFREM PARADA CARDÍACA E MORTE CLÍNICA RELATAM PROCESSOS DE PENSAMENTO LÚCIDO E ATÉ RECORDAÇÃO DETALHADA DE EVENTOS”

Mesmo restringindo o assunto a problemas orgânicos ou falsas lembranças, que o cérebro sonha durante as manobras de ressuscitamento, a ciência tradicional admite que entre 10% e 20% das pessoas que sofrem parada cardíaca e morte clínica relatam processos de pensamento lúcido, capacidade de raciocínio, memória e até recordações detalhadas de eventos. A experiência Aware pode ajudar a explicar como os pacientes conseguiram descrever em minúcias o que estava lhes acontecendo enquanto se encontravam tecnicamente na condição de morte cerebral. “O estudo almeja estabelecer esse debate de uma vez por todas”, disse Parnia. “Pode ser que as experiências fora do corpo não passem de falsas memórias, mas, até que isso esteja cientificamente testado, não podemos dizê-lo ao certo.”

OUTRAS INFORMAÇÕES

What Happens When We Die, Sam Parnia. Site: Horizon Research Foundation (fundação britânica baseada no Hospital Geral de Southampton que apóia o estudo das experiências de quase-morte com finalidades científicas e educativas) – www.horizon-research.co.uk

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